Arquivo para Maio, 2006

Da Dádiva

Publicado em Khalil Gibran às 31/05/2006 por kavorka

Então um homem opulento disse: “Fala-nos da dádiva.”

E ele respondeu:“Vós pouco dais quando dais de vossas posses.

É quando dais de vós próprios que realmente dais.

Pois, o que são vossas posses senão coisas que guardais por medo de precisardes delas amanhã?

E amanhã, que trará o amanhã ao cão ultraprudente que enterra ossos na areia movediça enquanto segue os peregrinos para a cidade santa?

E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?

Não é vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável?

Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza suas dádivas.

E há os que têm pouco e dão-no integralmente.

Esses confiam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca se esvaziam.

E há os que dão com alegria, e essa alegria é já a sua recompensa.

E há os que dão com pena, e essa pena é o seu batismo.

E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria nem pensar na virtude: Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço.

Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala; e através de seus olhos Ele sorri para o mundo.

É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido;

E para os generosos, procurar quem recebe é uma alegria maior ainda que a de dar.E existe alguma coisa que possais guardar?

Tudo o que possuís será um dia dado.

Dai agora, portanto, para que a época da dádiva seja vossa e não de vossos herdeiros.

Dizeis muitas vezes: “Eu daria, mas somente a quem merece”.

As árvores de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de vossos pastos.

Dão para continuar a viver, pois reter é perecer.

Certamente, quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de receber de vós tudo o mais.

E quem mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em vosso pequeno córrego.

E que mérito maior haverá do que aquele que reside na coragem e na confiança, mais ainda, na caridade de receber?

E quem sois vós para que os homens devam expor o seu íntimo e desnudar seu orgulho a fim de que possais ver seu mérito despido e seu amor-próprio rebaixado?

Procurai ver, primeiro, se mereceis ser doadores e instrumentos do dom.

Pois, na verdade, é a vida que dá à vida, enquanto vós, que vos julgais doadores, são meras testemunhas.

E vós que recebeis – e vós todos recebeis – não assumais encargo de gratidão a fim de não pordes um jugo sobre vós e vossos benfeitores. 

Antes, erguei-vos, junto com eles, sobre asas feitas de suas dádivas;

Pois se ficardes demasiadamente preocupados com vossas dívidas, estareis duvidando da generosidade daquele que tem a terra liberal por mãe e Deus por pai.”

Khalil Gibran

Onde estás que não respondes?

Publicado em Textos às 30/05/2006 por kavorka

Estava navegando pelos sites de jornais e me deparei com esse artigo do jornalista Paulo Santana. Brilhante como sempre, escreve um texto muito bom, vale a leitura e reflexão. 

Paulo Santana 

Onde estás que não respondes?  O papa Bento XVI, corajosamente, ressuscitou anteontem em Auschwitz, Polônia, um dos mais delicados dilemas da teologia e da filosofia: por que Deus, como fonte detentora e onipotente do bem, permite a existência do mal? 

Diante de uma platéia polonesa que reverenciava a memória de cerca de 1 milhão de vítimas, a maioria judeus que haviam sido trucidados pelas tropas de Hitler num só campo de concentração polonês, o Papa espantou o auditório erguido num recanto do complexo de Auschwitz, mais precisamente nas ruínas de Birkenau, onde foram cremados os milhões de cadáveres que tombaram pelo nazismo, ao se mostrar perplexo por Deus ter tolerado aquele genocídio. 

O que o Papa disse naquele local fatídico, anteontem, creio que nenhum papa ousara dizer: "Em um lugar como este faltam palavras. No fim, pode haver apenas um silêncio no qual um coração clama por Deus. Por que, Deus, o senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias? Como pôde permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?" 

 Antes que se acuse o papa Bento XVI de ter chamado Deus de omisso, é preciso que se lembre que dois milênios atrás, um peregrino da Galiléia, com seus braços e pernas pregados ao lenho, no auge de sua dor lancinante, com muito maiores credenciais do que o Papa, eis que filho ungido de Deus feito homem, fez a mesma reclamatória ao Senhor: "Pai, por que me abandonaste?" 

E 135 anos antes do papa Bento XVI, diante de um genocídio tão cruento e implacável quanto o dos judeus na II Guerra Mundial, sobre os negros escravos do Brasil e da América, o imortal poeta Castro Alves perguntava igualmente numa rogativa desafiatória a Deus, no seu poema Vozes d'África: "Deus! Ó, Deus! Onde estás que não respondes?/ Em que mundo, em qu'estrela tu te escondes/ Embuçado nos céus? Há 2 mil anos te mandei meu grito/ Que embalde desde então corre o infinito…/ Onde estás Senhor Deus?" 

 Cristo, o papa Bento XVI e Castro Alves nada mais fizeram do que tentar se livrar do acicate terrível que lhes queimava os espíritos: a incrível contradição e o inextricável mistério que constitui este trágico e sublime estabelecimento da verdade, qual seja o de que Deus criou os homens concedendo-lhes o livre-arbítrio, mas não interfere em suas ações, e embora seja Deus manancial infinito de bondade, não impede que os homens se atirem à maldade como feras, aniquilando outros homens. 

Este é o indecifrável enigma dos desígnios de Deus sobre os desígnios dos homens: há realmente a necessidade, para que exista o mundo e sobrevivam os homens, de que eles possam escolher entre o bem o mal, indiferentemente ao juízo arbitral divino, que não mexe uma palha nem para que o homem se sublime pelas boas ações nem se torne monstruoso por seus atos horrendos? 

Deus cria a vida mas não se mete na vida? Para que haja o bem é imprescindível que progrida o mal? Deus licencia o Diabo para que concorra com ele na conquista das almas?  

São interrogações permanentes que afligem o homem quando ele tenta desesperada e inutilmente desvendar a sua origem e o seu destino.  

É e será eterna a dúvida do homem. 

Imagens

Publicado em Textos às 29/05/2006 por kavorka

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Versos inscritos numa taça feita de um crânio

Publicado em Byron às 28/05/2006 por kavorka

Não, não te assustes; não fugiu o meu espírito; 

Vê em mim um crânio, o único que existe,  

Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,  

Tudo aquilo que flui jamais é triste.  

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;  

Que renuncie a terra aos ossos meus;  

Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme 

Lábios mais repugnantes do que os teus.  

Antes do que nutrir a geração dos vermes, 

Melhor conter a uva espumejante;  

Melhor é como taça distribuir o néctar  

Dos deuses, que a ração da larva rastejante. 

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão, 

Para aíudar os outros brilhe agora eu;  

Substituto haverá mais nobre do que o vinho 

Se o nosso cérebro já se perdeu?  

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus  

Já tiverdes partido, uma outra gente 

Possa te redimir da terra que abraçar-te,  

E festeje com o morto e a própria rima tente. 

E por que não? Se as frontes geram tal tristeza  

Através da existência – curto dia -,  

Redimidas dos vermes e da argila  

Ao menos possam ter alguma serventia.

Lord Byron

Imagens

Publicado em Textos às 27/05/2006 por kavorka

4, originally uploaded by alvrolv.

Tente Outra Vez

Publicado em Raul Seixas às 27/05/2006 por kavorka

Veja

Não diga que a canção está perdida

Tenha em fé em Deus,

tenha fé na vida

Tente outra vez 

Beba

Pois a água viva ainda está na fonte

Você tem dois pés para cruzar a ponte

Nada acabou 

Tente

Levante sua mão sedenta e recomece a andar

Não pense que a cabeça agüenta se você parar,

Há uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira

Bailando no ar 

Queira

Basta ser sincero e desejar profundo

Você será capaz de sacudir o mundo,

vai

Tente outra vez 

Tente

E não diga que a vitória está perdida

Se é de batalhas que se vive a vida

Tente outra vez

 

Raul Seixas

Bebo sozinho ao luar

Publicado em Outros às 25/05/2006 por kavorka

Entre as flores há um jarro de vinho.

Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.

Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:

com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.

Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.

A sombra e a lua, companheiras casuais,

divertem-se comigo, na primavera.

Quando canto, a lua vacila.

Quando danço, a minha sombra se agita em redor.

Antes de embriagados, todos se divertem juntos.

Depois, cada um vai para a sua casa.

Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:

nossos encontros são na Via Láctea..

Li Po

Ode ao Fígado

Publicado em Neruda às 24/05/2006 por kavorka

Modesto,

organizado

amigo,

trabalhador

profundo,

deixa-me te dar a asa

do meu canto,

o golpe

de ar,

o salto

de minha ode:

ela nasce

de tua máquina

invisível,

ela voa

partindo de teu infatigável

e fechado moinho,

entranha

delicada

e poderosa

sempre viva e obscura.

Enquanto

o coração sonha e atrái

a partitura do bandolin,

lá dentro

tu filtras

e repartes,

separas

e divides,

multiplicas

e engraxas,

sobes

e recolhes

os fios e os gramas

da vida, os últimos

licores,

as íntimas essências.

Víscera

submarina,

medidor

do sangue,

vives

cheio de mãos

e de olhos

medindo e transvasando

em teu escondido

quarto

de alquimista.

Amarelo

é o teu sistema

de hidrografia vermelha,

búzio

da mais perigosa

profundidade do homem

ali sempre

escondido,

sempiterno,

na usina,

silencioso.

E todo

sentimento

ou estímulo

cresceu em teu maquinário,

recebeu alguma gota

de tua elaboração

infatigável,

ao amor agregaste

fogo ou melancolia,

uma pequena

célula equivocada

ou uma fibra

gasta em teu trabalho

e o aviador se engana de céu,

e o temor se precipita em assovio,

o astrônomo perde um planeta.

Como brilham acima

os olhos feiticeiros

da rosa,

os lábios

do cravo

matutino!

Como ri

no rio

a donzela!

E abaixo

o filtro e a balança,

a delicada química

do fígado,

a adega

dos câmbios sutis:

ninguém

o vê ou o canta,

porém,

quando

envelhece

ou desgasta seu morteiro,

os olhos da rosa se acabaram,

o cravo murchou sua dentadura

e a donzela não cantou no rio

Austera parte

ou todo

de mim mesmo,

avô do coração,

moinho

de energia:

te canto

e temo

como se foras juiz,

metro,

fiel implacável,

e se não posso

entregar-me amarrado à pureza,

se o excessivo

comer

ou o vinho hereditário de minha pátria

pretenderem

perturbar minha saúde

ou o equilíbrio da minha poesia,

de ti,

monarca obscuro,

distribuidor de mel e de venenos,

regulador de sáis,

de ti espero justiça:

Amo a vida: cumpre! Trabalha!

Não detenhas o meu canto.

Pablo Neruda

Primeira canção para a Dama

Publicado em Yeats às 23/05/2006 por kavorka

Eu giro

Como besta muda num espetáculo.

Nem eu sei onde estou

Nem aonde eu vou,

Meu idioma chulo

dentro de seu nome;

Eu estou apaixonado

E isso é minha vergonha.

Que ao ferir minha alma

Minha alma aflora,

não é melhor que a besta

Em todos lados.

William Butler Yeats

Dez Chamamentos Ao Amigo

Publicado em Hilda Hilst às 21/05/2006 por kavorka

Se te pareço noturna e imperfeita 

Olha-me de novo. Porque esta noite 

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. 

E era como se a água 

Desejasse 

  

Escapar de sua casa que é o rio 

E deslizando apenas, nem tocar a margem. 

  

Te olhei. E há tanto tempo 

Entendo que sou terra. Há tanto tempo 

Espero 

Que o teu corpo de água mais fraterno 

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta 

  

Olha-me de novo. Com menos altivez. 

E mais atento

  

Hilda Hilst

Canção Para Uma Valsa Lenta

Publicado em Quintana às 20/05/2006 por kavorka

Minha vida não foi um romance…

Nunca tive até hoje um segredo.

Se me amas, não digas, que morro

De surpresa… de encanto… de medo… 

Minha vida não foi um romance…

Minha vida passou por passar.

Se não amas, não finjas, que vivo

Esperando um amor para amar. 

Minha vida não foi um romance…

Pobre vida… passou sem enredo…

Glória a ti que me enches a vida

De surpresa, de encanto, de medo! 

Minha vida não foi um romance…

Ai de mim… Já se ia acabar!

Pobre vida que toda depende

De um sorriso… de um gesto… um olhar… 

Mário Quintana 

A Psicologia Da Composição

Publicado em Outros às 19/05/2006 por kavorka

É mineral o papel onde escrever

o verso; o verso

que é possível não fazer.

São minerais

as flores e as plantas,as frutas, os bichos

quando em estado de palavra.

É mineral a linha do horizonte,

nossos nomes, essas coisas

feitas de palavras.

É mineral, por fim,qualquer livro:

que é mineral a palavra

escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

João Cabral de Melo Neto

O que tu és…

Publicado em Florbela às 18/05/2006 por kavorka

És Aquela que tudo te entristece

Irrita e amargura, tudo humilha;

Aquela a quem a Mágoa chamou filha;

A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece

A que nem sabe a estrada que ora trilha,

Que nem um lindo amor de maravilha

Sequer deslumbra, e ilumina e aquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,

A rastejar no chão como as mendigas,

Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera…

Ah! Não seres como as outras raparigas

Ó Princesa Encantada da Quimera!… 

Florbela Espanca

Ah! Os relógios

Publicado em Quintana às 17/05/2006 por kavorka

Amigos, não consultem os relógios

quando um dia em for de vossas vida

sem seus fúteis problemas tão perdidas

que até parecem mais um necrológios…  

Porque o tempo é uma invenção da morte:

não o conhece a vida a verdadeira

em que basta um momento de poesia

para nos dar a eternidade inteira.  

Inteira, sim, porque essa vida eterna

somente por si mesma é dividida:

não cabe, a cada qual, uma porção.  

E os Anjos entreolham-se espantados

quando alguém – ao voltar a si da vida

-acaso lhes indaga que horas são… 

Mário Quintana

Soneto de separação

Publicado em Vinicius de Moraes às 16/05/2006 por kavorka

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama. 

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente. 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.   

Vinicius de Moraes

Saudade

Publicado em Textos às 15/05/2006 por kavorka

"Um dia a maioria de nós irá se separar.

Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos  que compartilhamos.

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim…

Do companheirismo vivido. Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar quem sabe……

Nos e-mails trocados. Podemos nos telefonar conversar algumas bobagens….

Aí os dias vão passar, meses…anos… até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo….

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão quem são aquelas pessoas. Diremos… Que eram nossos amigos.

E…… isso vai doer tanto! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida !

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente……

Quando o nosso grupo estiver incompleto… nos reuniremos para um ultimo adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos.

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado.

E nos perderemos no tempo….. Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades seja a causa de grandes tempestades….

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

  Paulo Santana 

Para os Deuses

Publicado em Pessoa às 15/05/2006 por kavorka

Para os deuses as coisas são mais coisas.
Não mais longe eles vêem, mas mais claro
Na certa Natureza
E a contornada vida…
Não no vago que mal vêem
Orla misteriosamente os seres,
Mas nos detalhes claros
Estão seus olhos.

A Natureza é só uma superfície.
Na sua superfície ela é profunda
E tudo contém muito
Se os olhos bem olharem.
Aprende, pois, tu, das cristãs angústias,
Ó traidor à multíplice presença
Dos deuses, a não teres
Véus nos olhos nem na alma.

Fernando Pessoa

As coisas

Publicado em Jorge Luis Borges às 13/05/2006 por kavorka

Jorge Luis Borges

A bengala, as moedas, o chaveiro,

A dócil fechadura, as tardias

Notas que não lerão os poucos dias

Que me restam, os naipes e o tabuleiro.

Um livro e em suas páginas a seca

Violeta, monumento de uma tarde

Sem dúvida inesquecível e já esquecida,

O rubro espelho ocidental em que arde

Uma ilusória aurora. Quantas coisas,

Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,

Nos servem como tácitos escravos,

Cegas e estranhamente sigilosas!

Durarão para além de nosso esquecimento;

Nunca saberão que nos fomos num momento.

Pobrezinha

Publicado em Florbela às 12/05/2006 por kavorka

Nas nossas duas sinas tão contrárias

Um pelo outro somos ignorados:

Sou filha de regiões imaginárias,

Tu pisas mundos firmes já pisados.

 

Trago no olhar visões extraordinárias

De coisas que abracei de olhos fechados…

-Em mim não trago nada, como os párias…

Só tenho os astros, como os deserdados…

 

E das tuas riquezas e de ti

Nada me deste e eu nada recebi,

Nem o beijo que passa e que consola.

 

E o meu corpo, minh'alma e coração

Tudo em risos poisei na tua mão!……

Ah, como é bom um pobre dar esmola!…

Florbela Espanca

Eros e Psique

Publicado em Pessoa às 11/05/2006 por kavorka

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada.

 

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

 

A Princesa Adormecida,

Se espera, dormindo espera,

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

 

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado,

Ele dela é ignorado,

Ela para ele é ninguém.

 

Mas cada um cumpre o Destino

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

 

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora,

 

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Se alguém bater um dia à tua porta

Publicado em Pessoa às 09/05/2006 por kavorka

Se alguém bater um dia à tua porta,

Dizendo que é um emissário meu,

Não acredites, nem que seja eu;

Que o meu vaidoso orgulho não comporta

Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir

Alguém bater, fores a porta abrir

E encontrares alguém como que à espera

De ousar bater, medita um pouco.

Esse era Meu emissário e eu e o que comporta

O meu orgulho do que desespera.

Abre a quem não bater à tua porta!

Fernando Pessoa

Os Anjos

Publicado em Renato Russo às 08/05/2006 por kavorka

renato_russo.jpgRenato Russo 

Hoje não dá

Não sei mais o que dizer

E nem o que pensar

Hoje não dá

A maldade humana agora não tem nome

Hoje não dá

Pegue duas medidas de estupidez

Junte trinta e quatro partes de mentira

Coloque tudo numa forma

Untada previamente

Com promessas não cumpridas

Adicione a seguir o ódio e a inveja

As dez colheres cheias de burrice

Mexa tudo e misture bem

E não se esqueça: antes de levar ao forno

Temperar com essência de espirito de porco,

Duas xícaras de indiferença

E um tablete e meio de preguiça

Hoje não dá

Está um dia tão bonito lá fora;

E eu quero brincar

Mas hoje não dá

Hoje não dá

Vou consertar a minha asa quebrada

E descansar

Gostaria de não saber destes crimes atrozes

É todo dia agora e o que vamos fazer?

Quero voar p'ra bem longe mas hoje não dá

Não sei o que pensar e nem o que dizer

Só nos sobrou do amor

A falta que ficou.

Por Enquanto

Publicado em Renato Russo às 07/05/2006 por kavorka

pintura-renato.jpg

Mudaram as estações e nada mudou

Mas eu sei que alguma coisa aconteceu

Está tudo assim tão diferente

Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar

Que tudo era pra sempre

Sem saber

Que o pra sempre, sempre acaba

Mas nada vai conseguir mudar o que ficou

Quando penso em alguém

Só penso em você

E aí então estamos bem

Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está

E nem desistir, nem tentar

Agora tanto faz

Estamos indo de volta pra casa 

Aprender

Publicado em Textos às 07/05/2006 por kavorka

Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.

E começas a aprender que beijos não são contratos, presentes não são promessas.

E não importa o quão boa seja uma pessoa, ela vai ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.

Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobres que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que podes fazer coisas num instante, das quais te arrependerás pelo resto da vida.

Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que tu tens na vida, mas quem tens na vida.

Descobres que as pessoas com quem mais te importas na vida são tiradas de ti muito depressa; por isso, sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vemos.

Aprendes que paciência requer muita prática.

Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de seres cruel.

Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém.

Algumas vezes, tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo.

Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, tu serás em, algum momento, condenado.

Aprendes que não importa em quantos pedaços, o teu coração foi partido, o mundo não pára para que o consertes.

E, finalmente, aprendes que o tempo, não é algo que possa voltar para trás. Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores…

E percebes que realmente podes suportar… que realmente és forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.

E que realmente a vida tem valor, e que tu tens valor diante da vida!

E só nos faz perder o bem que poderíamos conquistar o medo de tentar!

Veronica Shoffstall

Eu

Publicado em Florbela às 05/05/2006 por kavorka

florbela3.jpg 

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
 

Florbela Espanca

Quero saber

Publicado em Neruda às 04/05/2006 por kavorka

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Quero saber se você vem comigo

a não andar e não falar,

quero saber se ao fim alcançaremos

a incomunicação; por fim

ir com alguém a ver o ar puro,

a luz listrada do mar de cada dia

ou um objeto terrestre

e não ter nada que trocar

por fim, não introduzir mercadorias

como o faziam os colonizadores

trocando baralhinhos por silêncio.

Pago eu aqui por teu silêncio.

De acordo, eu te dou o meu

com uma condição: não nos compreender 

Pablo Neruda

Os teus pés

Publicado em Neruda às 04/05/2006 por kavorka

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Quando não te posso contemplar

Contemplo os teus pés.  

Teus pés de osso arqueado,

Teus pequenos pés duros,  

Eu sei que te sustentam

E que teu doce peso

Sobre eles se ergue.  

Tua cintura e teus seios,

A duplicada purpura

Dos teus mamilos,

A caixa dos teus olhos

Que há pouco levantaram voo,

A larga boca de fruta,

Tua rubra cabeleira,

Pequena torre minha.  

Mas se amo os teus pés

É só porque andaram

Sobre a terra e sobre

O vento e sobre a água,

Até me encontrarem.

Pablo Neruda

Bilhete

Publicado em Quintana às 03/05/2006 por kavorka

mario021.JPG  

Se tu me amas, ama-me baixinho

Não o grites de cima dos telhados

Deixa em paz os passarinhos

Deixa em paz a mim!

Se me queres,

enfim,

tem de ser bem devagarinho, Amada,

que a vida é breve, e o amor mais breve ainda.

Mário Quintana

“A Flor e a Náusea”

Publicado em Drummond às 03/05/2006 por kavorka

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Carlos Drummond De Andrade 

Preso à minha classe e a algumas roupas,Vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me'? 

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobrefundem-se no mesmo impasse. 

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.As coisas.

Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. 

Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornaise soletram o mundo, sabendo que o perdem. 

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.Os ferozes leiteiros do mal. 

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvoe dou a poucos uma esperança mínima. 

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu. 

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor. 

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia.

Mas é uma flor.

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. 

  

Canção da Noite

Publicado em Musica às 02/05/2006 por kavorka

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu

Chico Buarque de Holanda