Obscured By Clouds

Maio 31, 2007

Nightwish - Phantom Of Opera

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:26 am

Cântico dos cânticos

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:24 am

Quão belos são os teus pés
nas sandálias que trazes, ó filha de príncipe!
As colunas das tuas pernas são como anéis
trabalhados por mãos de artista.
o teu umbigo é uma taça arredondada,
que nunca está desprovida de vinho.
O teu ventre é como um monte de trigo
cercado de lírios.
Os teus dois seios são como dois filhinhos
gêmeos duma gazela.
O teu pescoço é como uma torre de marfim.
Os teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
que estão situadas junto da porta de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano,
que olha para Damasco.
A tua cabeça levanta-se como o monte Carmelo;
os cabelos da tua cabeça são como a púrpura
um rei ficou preso às suas madeixas.
Quão formosa e encantadora és,
meu amor, minhas delícias!
A tua figura é semelhante a uma palmeira.
Eu disse. Subirei à palmeira,
e colherei os seus frutos.
Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas,
e o perfume da tua boca como o das maçãs.

 

 

Salomão

(da Bíblia, Velho Testamento)

Mulheres e Serpentes I

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:22 am

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Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas

Arquivado em: Drummond — kavorka @ 5:21 am

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

 

Carlos Drummond de Andrade

Mulheres e Serpentes II

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:21 am

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Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 5:20 am

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia…
como
uma pobre lanterna que incendiou!

 

Mário Quintana

Mulheres e Serpentes III

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:19 am

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Declaração De Amor

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:18 am

Maravilha! Voará ainda?
Sobe e suas asas imóveis?!
Quem o leva e fez subir?
Quem fim, caminho ou rédea?

Como a estrela e a eternidade,
vive nas alturas, donde se afasta a vida,
Compassivo mesmo para a inveja,
Subiu muito quem o vê planar!

Albatroz! Minha ave!
Desejo eterno me impede impele às alturas.
Pensei em ti e chorei,
sim, eu te amo!

 

Friedrich Wilhelm Nietzsche

Mulheres e Serpentes IV

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:17 am

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Conheço o sal…

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 5:15 am

Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
Ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.

 

Jorge de Sena

Mulheres e Serpentes V

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:13 am

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O barco ébrio

Arquivado em: Rimbaud — kavorka @ 5:11 am

Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava enquanto as Penínsulas em pânico
Viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
Das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
Dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu.
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
Do Mar, sarcófago de estrelas latescente,
Devorando os azuis onde às vezes - dilema
Lívido - um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
Em ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
Fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos túmulos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longo os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Ocenos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Naufrágios abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! Se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes…
- As espumas em flor minaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
E eu, como uma mulher, me punha de joelhos…

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, decendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de aguardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol e vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
- É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
Trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

 

Rimbaud

Maio 30, 2007

The Cure - Pictures Of You

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:28 am

Pecadora

Arquivado em: Augusto do Anjos — kavorka @ 5:28 am

Tinha no olhar cetíneo, aveludado,
A chama cruel que arrasta os corações,
Os seios rijos eram dois brasões
Onde fulgia o simb’lo do Pecado.

Bela, divina, o porte emoldurado
No mármore sublime dos contornos,
Os seios brancos, palpitantes, mornos,
Dançavam-lhe no colo perfumado.

No entanto, esta mulher de grã beleza,
Moldada pela mão da Natureza,
Tornou-se a pecadora vil. Do fado,

Do destino fatal, presa, morria
Uma noute entre as vascas da agonia
Tendo no corpo o verme do pecado!

 

Augusto dos Anjos

A prisão de Prometeu by Jacob Jordaens

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:28 am

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Beijo

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 5:27 am

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.

Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
E dentes se apertando delicados.

É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras

e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

 

Jorge de Sena

 

Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de Junho de 1978. É hoje considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do nosso século XX.

Sharon Stone

Arquivado em: Fotos — kavorka @ 5:27 am

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Beijemo-nos, apenas…

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 5:25 am

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro…

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dosa teus cabelos - És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?

 

António Botto

O Grito, 1351 by Edward Munch

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:24 am

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Súcubo

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:24 am

Desde que te amo, vê, quase infalivelmente,
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas…

Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente,
Uma túnica azul, como as túnicas gregas…

E de leve, em redor do meu leito flutuas,
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca,
De umas palpitações radiantemente nuas!

Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!

 

Emiliano Perneta

 

David Emiliano Perneta (1866-1921) nasceu e morreu em Curitiba. Formou-se advogado pela Universidade de São Paulo. Além de ter sido jornalista, advogado e professor de português, Perneta foi um dos fundadores do clube republicano de Curitiba e publicou, em livros, jornais e revistas, poesia e prosa poética simbolista.

Salma Hayek

Arquivado em: Fotos — kavorka @ 5:23 am

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Os Teus Olhos

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 5:21 am

Os teus olhos,
exigindo
ser bebidos

Os teus ombros
reclamando
nenhum manto

Os teus seios
pressupondo
tantos pomos

O teu ventre
recolhendo
o relâmpago

 

David Mourão Ferreira

 

Escritor e professor universitário português, natural de Lisboa. Foi poeta, romancista, crítico e ensaísta. A sua poesia caracteriza-se pelas presenças constantes da figura da mulher e do amor, e pela busca deste como forma de conhecimento, sendo considerado como um dos poetas do erotismo na literatura portuguesa. A vivência do tempo e da memória são também constantes na sua obra, marcada, a nível do estilo, por uma demanda permanente de equilíbrio, de que resulta uma escrita tensa, e pela contenção da força lírica e sensível do poeta numa linguagem rigorosa, trabalhada, de grande riqueza rítmica, melódica e imagística, que fazem dele um clássico da modernidade.

Maio 29, 2007

Three Pair of Shoe by Vincent Van Gogh

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:09 am

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Doce certeza

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:03 am

Por essa vida afora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em minha boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d’oiro e risos de mulher,
Muito beijo d’amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim querer!…

Hás de tecer uns sonhos delicados…
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!…

Mas nunca encontrarás p’la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d’amor, que são meus versos!

Florbela Espanca

Segunda canção de muito longe

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 4:03 am

Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanando com outro mistério, no escuro…
Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa…
Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,
Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.
Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,
E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões.
Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia os azulejos reluzentes, o muro do quintal, que limitava o mundo,
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas…
Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos…
As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorrros,
O chiar das chaleiras…
Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar a Toutinegra do Moinho,
Que saía em folhetim no Correio do Povo!…
A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro.
Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!


Mario Quintana

Toilette by James Carroll Beckwith

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:02 am

Beckwith_James_Carroll_Sylvan_Toilette

Consolo na praia

Arquivado em: Drummond — kavorka @ 4:02 am

Consolo na praia
Vamos, não chores!
A infância está perdida,
a juventude está perdida
mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor, passou.
O segundo amor, passou.
O terceiro amor, passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo,
não tentaste qualquer viagem.
Não tens casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras em voz mansa
te golpearam.


Nunca, nunca cicatrizam…
Mas e o humor?
Tudo somado, devias precipitar-te de vez nas águas…
Estás nu, na areia, no vento.
Dorme meu filho, dorme.


Carlos Drummond de Andrade

Dialética

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:02 am

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

 

Vinicius de Moraes

The Annunciation, 1549 by Domenico Beccafumi

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:00 am

BECCAFUMI_Domenico_The_Annunciation, 1549

O uso das palavras obscenas

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:00 am

Desmedido eu que vivo com medida
Amigos, deixai-me que vos explique
Com grosseiras palavras vos fustigue
Como se aos milhares fossem nesta vida!

Há palavras que a foder dão euforia:
Para o fodidor, foda é palavra louca
E se a palavra traz sempre na boca
Qualquer colchão furado o alivia.

O puro fodilhão é de enforcar!
Se ela o der até se esvaziar: bem.
Maré não lava o que a arvore retém!

Só não façam lavagem ao juizo!
Do homem a arte é: foder e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso).

 

Bertolt Brecht

Abaixo do além

Arquivado em: Outros — kavorka @ 3:58 am

 

Abaixo do além

de dia

céu com nuvens

ou céu sem

de noite

não tendo nuvens

estrela

sempre tem

quem me dera

um céu vazio

azul isento

de sentimento.

 

Paulo Leminski

Maio 27, 2007

Um Poema para Domingo

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 3:33 pm

O Que Há

 

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser… E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,

Cansaço…

 

Álvaro de Campos

Maio 25, 2007

Paul McCartney - My Love

Arquivado em: Musica — kavorka @ 4:47 am

Olhar dentro de mim

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 4:47 am

Para quê olhar para os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns dos quais que o não são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu próprio os sou, por dentro?

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

O Jovem Mendigo, Bartolome Esteban Murillo

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:46 am

O Jovem Mendigo, Bartolome Esteban Murillo

XVI

Arquivado em: Neruda — kavorka @ 4:45 am

Amo o pedaço de terra que és tu,
Porque das campinas planetárias
Outra estrela não tenho.Tu repetes
A multiplicação do universo.

Teus amplos olhos são luz que tenho
Das constelações derrotadas,
Tua pele palpita como os caminhos.
Que percorre na chuva o meteoro.

De tanta luz foram para mim teus quadris,
De todo o sol tua boca profunda e sua delícia,
De tanta luz ardente como o mel na sombra

Teu corpo queimado por longos raios rubros,
E assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,
Pequena e planetária, pomba e geografia.

 

Pablo Neruda, Cem sonetos de amor

Boca

Arquivado em: Drummond — kavorka @ 4:42 am

Boca: nunca te beijarei.

Boca de outro que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.

Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.

Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.

 

Carlos Drummond de Andrade

Greta Garbo

Arquivado em: Fotos — kavorka @ 4:42 am

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A casa do mundo

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 4:41 am

Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida.

 

Luiza Neto Jorge 

Auto-Retrato, Vincent Van Gogh

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:36 am

vincent Auto-retrato com ligadura e cachimbo

Dime

Arquivado em: Outros Latinos — kavorka @ 4:28 am

Dime que no me conformarás nunca,

ni me darás la felicidad de la resignación,

sino la felicidad que duele de los elegidos,

los que pueden abarcar el mar y el cielo con sus ojos

y llevar el Universo dentro de sus cuerpos.

Y yo te vestiré con lodo y te daré a comer tierra

para que conozcas el sabor de vientre del mundo.

Escribiré sobre tu cuerpo la letra de mis poemas

para que sientas en ti el dolor del alumbramiento.

Te vendrás conmigo: haremos un rito del amor

y una explosión de cada uno de nuestros actos.

No habrán paredes que nos acorralen,

ni techo sobre nuestras cabezas.

Olvidaremos la palabra

y tendremos nuestra propia manera de entendernos;

ni los días, ni las horas podrán atraparnos

porque estaremos escondidos del tiempo en la niebla.

Crecerán las ciudades,

se extenderá la humanidad invadiéndolo todo;

nosotros dos seremos eternos,

porque siempre habrá un lugar del mundo que nos cubra

y un pedazo de tierra que nos alimente.

 

Gioconda Belli

Audrey Hepburn

Arquivado em: Fotos — kavorka @ 4:28 am

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O sacrifício da Aurora

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:27 am

 

Um dia a Aurora chegou-se

Ao meu quarto de marfim

E com seu riso mais doce

Deitou-se junto de mim

Beijei-lhe a boca orvalhada

E a carne não tinha sangue

A boca sabia a nada.

Apaixonei-me da Aurora

No meu quarto de marfim

Todo o dia à mesma hora

Amava-a só para mim

Palavras que me dizia

Transfiguravam-se em neve

Era-lhe o peso tão leve

Era-lhe a mão tão macia.

Às vezes me adormecia

No meu quarto de marfim

Para acordar, outro dia

Com a Aurora longe de mim

Meu desespero covarde

Levava-me dia afora

Andando em busca da Aurora

Sem ver Manhã, sem ver Tarde.

Hoje, ai de mim, de cansado,

Há dias que até da vida

Durmo com a Noite, ausentado

Da minha Aurora esquecida…

É que apesar de sombria

Prefiro essa grande louca

À Aurora, que além de pouca

É fria, meu Deus, é fria!

 

Vinicius de Moraes

Allegory of Fertility by Jacob Jordaens

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:26 am

Allegory_of_Fertility by Jacob Jordaens

Drida, a maga perversa e fria

Arquivado em: Hilda Hilst — kavorka @ 4:25 am

Pairava sobre as casas
Defecava ratas
Andava pelas vias
Espalhando baratas
Assim era Drida
A maga perversa e fria.
Rabiscava a cada dia o seu diário.
Eis que na primeira página se lia:
Enforquei com a minha trança
O velho Jeremias.
E enforcado e de mastruço duro
Fiz com que a velha Inácia
Sentasse o cuzaço ralo
No dele dito cujo.
Sabem por quê?
Comeram-me a coruja.
Incendiei o buraco da Neguinha.
Uma criola estúpida
Que limpava remelas
De porcas criancinhas.
Perguntaram-me por que
Incendiei-lhe a rodela?
Pois um buraco fundo
De régia função
Mas que só tem valia
Se usado na contramão
Era por neguinha ignorado.
maldita ortodoxia!
Comi o cachorro do rei
Era um tipinho gay
Que ladrava fino
Mas enrabava o pato do vizinho.
Depenei o pato.
Sabem por quê?
Cagou no meu cercado.
E agora vou encher de traques
O caminho dos magos.
Com minha espada de palha e bosta seca
Me voy a Santiago.
Moral da história:
Se encontrares uma maga (antes
Que ela o faça), enraba-a.

 

Hilda Hilst

Maio 23, 2007

The Beatles - All You Need Is Love

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:25 am

Se eu pudesse

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 5:25 am

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento …
Mas eu nem sempre quero ser feliz.

É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.

Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva …

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja …

Alberto Caeiro

The Finding of Moses by Alma Tadema

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:24 am

The_Finding_of_Moses by Alma Tadema

 

The Finding of Moses by Alma Tadema (Detalhe)

 

 

Alma_Tadema_The_Finding_of_Moses_detail

Canto dos espíritos sobre as águas

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:24 am

 

A alma do homem
É como a água:
Do céu vem,
Ao céu sobe,
E de novo tem
Que descer à terra,
Em mudança eterna.

Corre do alto
Rochedo a pino
O veio puro,
Então em belo
Pó de ondas de névoa
Desce à rocha lisa,
E acolhido de manso
Vai, tudo velando,
Em baixo murmúrio,
Lá para as profundas.

Erguem-se penhascos
De encontro à queda,
- Vai, ’spumando em raiva,
Degrau em degrau
Para o abismo.

No leito baixo
Desliza ao longo do vale relvado,
E no lago manso
Pascem seu rosto
Os astros todos.

Vento é da vaga
O belo amante;
Vento mistura do fundo ao cimo
Ondas ’spumantes.

Alma do Homem,
És bem como a água!
Destino do homem
És bem como o vento!

 

J.W. Goethe 

 

Michelle Pfeiffer

Arquivado em: Fotos — kavorka @ 5:21 am

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