Obscured By Clouds

Junho 1, 2007

Pink Floyd - The Gunners Dream

Arquivado em: Textos — kavorka @ 4:46 am

A Deusa

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 4:38 am

Ah, verdadeiramente a deusa! -
A que ninguém viu sem amar
E que já o coração endeusa
Só com sòmente a adivinhar.


Por fim magnânima aparece
Naquela perfeição que é
Uma estátua que a vida aquece
E faz da mesma vida fé.

Ah, verdadeiramente aquela
Com que no túmulo do mundo
O morto sonho, como a estrela
Que há-de surgir no céu profundo.

Fernando Pessoa

A Deusa - Monica Bellucci

Arquivado em: Fotos — kavorka @ 4:38 am

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Se eu quiser falar com Deus

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:37 am

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que ficar a sós

Tenho que apagar a luz

Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz

Tenho que folgar os nós

Dos sapatos, da gravata

Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data

Tenho que perder a conta

Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que aceitar a dor

Tenho que comer o pão

Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão

Tenho que lamber o chão

Dos palácios, dos castelos

Suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho

Tenho que me achar medonho

E apesar de um mal tamanho

Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que me aventurar

Tenho que subir aos céus

Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus

Dar as costas, caminhar

Decidido, pela estrada

Que ao findar vai dar em nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Do que eu pensava encontrar

Se eu quiser falar com Deus

 

 

Gilberto Passos Gil Moreira

Botticelli, Scenes from the Life

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:36 am

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Mascarados

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:34 am

Saiu o Semeador a semear
Semeou o dia todo
e a noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de sementes.
Ele semeava tranqüilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da Paz e da Justiça.

 

Cora Coralina

 

 

Emergência

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 4:31 am

Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que está numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Mario Quintana

Botticelli, Scenes from the Life - Detail 1

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:30 am

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Poemas para todas as mulheres

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:28 am

 

 

No teu branco seio eu choro.

Minhas lágrimas descem pelo teu ventre

E se embebedam do perfume do teu sexo.

Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado

Confuso, criança para te conter!

Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!

Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!

Homem sou belo

Macho sou forte, poeta sou altíssimo

E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.

Ai! teus cabelos recendem à flor da murta

Melhor seria morrer ou ver-te morta

E nunca, nunca poder te tocar!

Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços

Anjo, sinto o calor do vento nas espumas

Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos…

Correi, correi, ó lágrimas saudosas

Afogai-me, tirai-me deste tempo

Levai-me para o campo das estrelas

Entregai-me depressa à lua cheia

Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos

Que eu não posso mais, ai!

Que esta mulher me devora!

Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!

 

Vinicius de Moraes

Botticelli, Scenes from the Life - Detail 2

Arquivado em: Textos — kavorka @ 4:28 am

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Ironia de lágrimas

Arquivado em: Textos — kavorka @ 4:26 am

 

Junto da morte é que floresce a vida!

Andamos rindo junto a sepultura.

A boca aberta, escancarada, escura

Da cova é como flor apodrecida.

A Morte lembra a estranha Margarida

Do nosso corpo, Fausto sem ventura…

Ela anda em torno a toda criatura

Numa dança macabra indefinida.

Vem revestida em suas negras sedas

E a marteladas lúgubres e tredas

Das Ilusões o eterno esquife prega.

E adeus caminhos vãos mundos risonhos!

Lá vem a loba que devora os sonhos,

Faminta, absconsa, imponderada cega!

 

Cruz e Souza

Botticelli Scenes from the Life - Detail 3

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:25 am

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Entrevista

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:24 am

Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa do sexo?
Uma das maravilhas da criação eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara:
o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? Perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor que vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz”,
descansa em teu amor, que bem estás.

Adélia Prado

Botticelli, Scenes from the Life - Detail 4

Arquivado em: Artes — kavorka @ 4:23 am

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Ilusão

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:22 am

Sinistro como um fúnebre segredo

Passa o vento do Norte murmurando

Nos densos pinheirais;

A noite é fria e triste; solitário

Atravesso a cavalo a selva escura

Entre sombras fatais.

À medida que avanço, os pensamentos

Borbulham-me no cérebro, ferventes,

Como as ondas do mar,

E me arrastam consigo, alucinado,

À casa da formosa criatura

De meu doido cismar.

Latem os cães; as portas se franqueiam

Rangendo sobre os quícios; os criados

Acordem pressurosos;

Subo ligeiro a longa escadaria,

Fazendo retinir minhas esporas

Sobre os degraus lustrosos.

No seu vasto salão iluminado,

Suavemente repousando o seio

Entre sedas e flores,

Toda de branco, engrinaldada a fronte,

Ela me espera, a linda soberana

De meus santos amores.

Corro a seus braços trêmulo, incendido

De febre e de paixão… A noite é negra,

Ruge o vento no mato;

Os pinheiros se inclinam, murmurando:

- Onde vai este pobre cavaleiro

Com seu sonho insensato?…

 

Fagundes Varela

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