Obscured By Clouds

Junho 6, 2007

"Va pensiero" Nabucco, Giuseppe Verdi

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:35 am

As tuas mãos terminam em segredo

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 5:34 am

As tuas mãos terminam em segredo.

Os teus olhos são negros e macios

Cristo na cruz os teus seios (?) esguios

E o teu perfil princesas no degredo…

Entre buxos e ao pé de bancos frios

Nas entrevistas alamedas, quedo

O vendo põe o seu arrastado medo

Saudoso o longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for

Arrasar os castelos que na areia

As crianças deixaram, meu amor,

Será o haver cais num mar distante…

Pobre do rei pai das princesas feias

No seu castelo à rosa do Levante!

 

Fernando Pessoa

La Belle de Jour, Catherine Deneuve

Arquivado em: Textos — kavorka @ 5:33 am

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Os teus olhos

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:32 am

 

O céu azul, não era
Dessa cor, antigamente;
Era branco como um lírio,
Ou como estrela cadente.

Um dia, fez Deus uns olhos
Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.

Quando sentiu esse olhar:
“Que doçura de primor!”
Disse o céu, e ciumento,
Tornou-se da mesma cor!

 

Florbela Espanca

Tua voz

Arquivado em: Outros Latinos — kavorka @ 5:32 am

Tens música na voz, tens a magia 

e o perfume das flores. Voz bendita. 

Eco do coração. Onda infinita. 

Suspiro. Vibração. Doce harmonia. 

 

Tua voz tem dos mares tons românticos. 

Luz e sonido de um cristal da Hungria. 

Salomão pressentiu-a aquele dia 

em que escreveu o Cântico dos Cânticos. 

 

Tua voz para mim é como a glória, 

é qual se fosse um hino de Vitória, 

miserere de Deus, lira secreta 

 

de que algum dia roubará teus trinos 

um enxame de pássaros divinos 

para alegrar meu túmulo de poeta. 

 

 

Ovídio Fernández Rios, Poeta uruguaio

La Bardot

Arquivado em: Fotos — kavorka @ 5:31 am

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A Ciranda

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 5:30 am

Meninazinha bonita dos olhos ingênuos e grandes,
uma vez na ciranda eu perdi tua mão…
Sinto ainda fugir-me à flor da pele, aflita,
sua desesperada e última pressão!

E a vida continuou, ora em lenta pavana.
ora numa quadrilha, em tonta confusão.
Quantas vezes julguei, mas foi sempre ilusão,
viver aquela hora, entre as horas bendita,

que uniu palma com palma e alma contra alma…
Mas que busco afinal, que miragem acalma
tão inquieta procura em um mundo já findo?

Porém, o mundo não é só o que se ve.
Talvez um dia eu morrerei sorrindo,
e só os anjos saberão por quê!

Mario Quintana

Livro do desassossego, 22

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 5:29 am

A minha imagem, tal qual eu a via nos espelhos, anda sempre ao colo da minha alma. Eu não podia ser senão curvo e débil como sou, mesmo nos meus pensamentos.
Tudo em mim é de um príncipe de cromo colado no álbum velho de uma criancinha que morreu sempre há muito tempo.
Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino.
Deus é o existirmos e isto não ser tudo.

 

Fernando Pessoa

Anschutz_Thomas_Pollock_The_Ironworker-s_Noontime

Arquivado em: Textos — kavorka @ 5:29 am

Anschutz_Thomas_Pollock_The_Ironworker-s_Noontime

A Volta da mulher morena

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:28 am

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!

Vinícius de Moraes

Woman Sewing by Joseph Bail

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:27 am

Bail_Joseph_Woman_Sewing_In_Front_Of_Her_Cottage

Na boca

Arquivado em: Manuel Bandeira — kavorka @ 5:24 am

Sempre tristíssimas essas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer
Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca!Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.
Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados
Dorinha meu amor….
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro:
- Na boca!Na boca!

Manuel Bandeira

Sentidos

Arquivado em: Olavo Bilac — kavorka @ 5:22 am

De outras sei que se mostram menos frias,
amando menos do que amar pareces.
usam todas de lágrimas e preces:
tu de acerbas risadas e ironias.

de modo tal minha atenção desvias,
com tal perícia meu engano teces,
que, se gelado o coração tivesses,
certo, querida, mais ardor terias.

olho-te: cega ao meu olhar te fazes…
falo-te - e com que fogo a voz levanto! -

em vão… finges-te surda às minhas frases..

surda: e nem ouves meu amargo pranto!
cega: e nem vês a nova dor que trazes
à dor antiga que doía tanto!

 

Olavo Bilac

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