Obscured By Clouds

Junho 7, 2007

Summertime, Ella Fitzgerald

Arquivado em: Musica — kavorka @ 6:40 pm

Canção

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 6:39 pm

Cheguei a concha da orelha

à concha do caracol.

Escutei

vozes amadas

que eu julgava

eternamente perdidas.

Uma havia

que dentre as outras mais graves

tão clara e alta se erguia…

Que eu custei mas descobri

que era a minha própria voz:

sessenta anos havia

ou mais

que ali estava encerrada.

Meu Deus, as coisas que ele dizia!

as coisas que perguntava!

Eu deixei-as sem resposta.

 

Mario Quintana

 

 

 

Leda e o cisne, Leonardo Da Vinci

Arquivado em: Artes — kavorka @ 6:39 pm

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Pássaro Albatroz

Arquivado em: Outros — kavorka @ 6:38 pm

Que maravilha! Ele ainda está voando?
Ele sobe e as suas asas repousam?
Que é que o levanta e carrega?
Quem é, para ele, a meta, o curso e o freio?

Ele voou até o mais alto – agora
O próprio céu sustenta o vitorioso voador:
Agora ele descansa e paira,
Esquecido da vitória e do vencedor:

Como as estrelas e a eternidade
Vive ele agora em alturas de que a vida foge,
Tendo compaixão até mesmo da inveja:
E voou alto quem apenas o viu planar!

Ó pássaro albatroz!
Para o alto me empurra um eterno impulso.
Pensei em ti: então me correram
Lágrimas e lágrimas – sim, eu te amo!

 

Friedrich Nietzsche

Serpentes e Homens I

Arquivado em: Artes — kavorka @ 6:38 pm

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Ela foi encontrada!

Arquivado em: Rimbaud — kavorka @ 6:37 pm

Ela foi encontrada!

Quem? A eternidade.

É o mar misturado

        Ao sol.

 

Minha alma imortal,

Cumpre a tua jura

Seja o sol estival

Ou a noite pura.

 

Pois tu me liberas

Das humanas quimeras,

Dos anseios vãos!

Tu voas então…

 

— Jamais a esperança.

Sem movimento.

Ciência e paciência,

O suplício é lento.

 

Que venha a manhã,

Com brasas de satã,

           O dever

           É vosso ardor.

 

Ela foi encontrada!

Quem? A eternidade.

É o mar misturado

       Ao sol.

 

Arthur Rimbaud

Serpentes e Homens II

Arquivado em: Textos — kavorka @ 6:37 pm

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Ressalva

Arquivado em: Outros — kavorka @ 6:37 pm

Versos… não
Poesia… não
um modo diferente de contar velhas histórias

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

 

Cora Coralina

Serpentes e Homens III

Arquivado em: Textos — kavorka @ 6:36 pm

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Espaço curvo e finito

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 6:36 pm

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

José Saramago

Serpentes e Homens IV

Arquivado em: Textos — kavorka @ 6:35 pm

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Aos que vierem depois de nós

Arquivado em: Outros — kavorka @ 6:34 pm

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fonte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo.

Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, - espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

 

Bertolt Brecht

Serpentes e Homens V

Arquivado em: Artes — kavorka @ 6:32 pm

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Erro

Arquivado em: Machado de Assis — kavorka @ 6:31 pm

Erro é teu. amei-te um dia
com esse amor passageiro
que nasce na fantasia 
e não chega ao coração;
não foi amor, foi apenas
uma ligeira impressão;
um querer indiferente,
em tua presença, vivo,
morto, se estavas ausente;
e, se ora me vês esquivo,
se, como outrora, não vês
meus incensos de poeta
ir eu queimar a teus pés
é que — como obra de um dia,
passou-me esta fantasia.
para eu amar-te, devias
outra ser e não como eras.
tuas frívolas quimeras,
teu vão amor de ti mesma.
essa pêndula gelada
que chamavas coração,
eram bem fracos liames
para que a alma enamorada
me conseguissem prender;
foram baldados tentames,
saiu contra ti o azar, 
e, embora pouca, perdeste 
a glória de me arrastar
ao teu carro… vãs quimeras!
para eu amar-te devias
outra ser e não como eras…

 

Machado de Assis

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