Junho 12, 2007
Cicuta
Debruça-te, amor
e colhe-me a manhã
bebe-me o hálito
morde-me os gemidos
eu sou o copo
de cicuta
(o vinho)
com o qual envenenas
os sentidos
Maria Teresa Horta
Passagem das horas
Trago dentro do meu coraçäo,
Como num cofre que näo pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através das janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
Fernando Pessoa, 22/5/1916
Cantiga para não morrer
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa Se no coração não possa E se aí também não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Ferreira Gullar
Exortação
Corpo crivado de sangrentas chagas,
Que atravessas o mundo soluçando,
Que as carnes vais ferindo e vais rasgando
Do fundo d”Ilusões velhas e vagas.
Grande isolado das terrestres plagas,
Que vives as Esferas contemplando,
Braços erguidos, olhos no ar, olhando
A etérea chama das Conquistas magas.
Se é de silêncio e sombra passageira,
De cinza, desengano e de poeira
Este mundo feroz que te condena,
Embora ansiosamente, amargamente
Revela tudo o que tu”alma sente
Para ela então poder ficar serena!
Cruz e Souza
Segundo motivo da rosa
Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.
Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas…
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas.
E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
E cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!
Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas…
Cecília Meirelles
Exilada
Vivo num voluntário exílio!
Cancei de viver de mordaças
Circunspecta em espaços obscuros
Inúteis, absurdos e inexplicáveis!
Cancei de me ocultar em couraças
Num mundo de ideais irrealizáveis.
Me cancei duma roupagem
Revestida de linhagem
Tentando esquecer o que sofri.
Respirei por todos os poros
- as dores -
Das feridas que me fizeram
Com as facas que me jogaram.
Não lamento o que vivi!
Mas grito ao tempo o meu silêncio
Carregando uma miragem
A poesia é uma imagem
Daquilo que construí.
Anna D´Castro
Anna D’Castro é natural de Lisboa, onde cursou letras, mas reside no Rio de Janeiro desde 1999. É escritora, poeta, cronista e actriz. Começou a escrever poesia e pequenas peças de teatro, com 12 anos. Em Portugal, trabalhou em rádio como locutora e fez rádio teatro: como actriz humorista, inserida no grupo “Os Parodiantes de Lisboa”
Não dormi com a beleza toda a vida
Não dormi com a beleza toda a vida
fazendo inconfidências a mim próprio
dos seus encantos planturosos
Não, não dormi com a beleza toda a vida
mas com ela menti
fazendo confidências a mim próprio
de como ela nunca morre
mas jaz à parte
no meio dos aborígenes
da arte
e paira por cima dos campos de batalha
do amor
Está acima de tudo isso
muito acima
Está sentada no mais selecto dos assentos
da Igreja
lá em cima onde os administradores da arte marcam encontros
para escolherem o que há-de ficar para a eternidade
Eles, sim, dormiram com a beleza
durante toda a vida
Eles, sim, alimentaram-se da ambrósia
e beberam o vinho do Paraíso
e por isso sabem exactamente como é que
uma coisa bela é uma alegria
para sempre e para sempre
e como é que ela nunca nunca
pode inteiramente desvanecer-se
num nada que leve à bancarrota
Oh não, nunca dormi
em Regaços de Beleza como esses
receando levantar-me de noite
com medo de perder nesses segundos
qualquer belo movimento que ela esboçasse
E contudo dormi com a beleza
à minha estranha maneira
e fiz uma ou duas cenas terríveis
com a beleza na minha cama
de onde transbordou um poema ou dois
de onde transbordou um poema ou dois
para este mundo tão parecido com o de Bosch.
Lawrence Ferlinghetti







