Junho 13, 2007
Recordo Ainda
Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança Estrada afora após segui… Mas, aí, Eu quero os meus brinquedos novamente!
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Sou um pobre menino… acreditai!…
Que envelheceu, um dia, de repente!…
Mario Quintana
Paraíso
Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto, Depois, podes partir. Só te aconselho entre os lençóis o lume do teu peito…
onde eu ouça o estertor de uma gaivota…
Crepite, em derredor, o mar de Agosto…
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
David Mourão-Ferreira
En Ti La Tierra
Pequeña
- rosa,
- rosa pequeña,
- a veces,
- diminuta y desnuda,
- parece
- que en una mano mía
- cabes,
- que así voy a cerrarte
- y llevarte a mi boca,
- pero
- de pronto
- mis pies tocan tus pies y mi boca tus labios, has crecido,
- suben tus hombros como dos colinas,
- tus pechos se pasean por mi pecho,
- mi brazo alcanza apenas a rodear la delgada
- línea de luna nueva que tiene tu cintura:
- en el amor como agua de mar te has desatado:
- mido apenas los ojos más extensos del cielo
- y me inclino a tu boca para besar la tierra.
- rosa pequeña,
Pablo Neruda
Confluência
Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:
no corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.
Affonso Romano de Sant’Anna
Ai, Jesus!
Ai, Jesus! Não vês que gemo,
Que desmaio de paixão
Pelos teus olhos azuis?
Que empalideço, que tremo,
Que me expira o coração?
Ai, Jesus! Que por um olhar, donzela,
Eu poderia morrer
Dos teus olhos pela luz?
Que morte! Que morte bela!
Antes seria viver!
Ai, Jesus! Que por um beijo perdido
Eu de gozo morreria
Em teus níveos seios nus?
Que no oceano dum gemido
Minh”alma se afogaria? Ai, Jesus!
Álvares de Azevedo
O Remorso da Inocente
III
Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.
E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —
E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor… —
E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu’ontem cortei! —
Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.
Junqueira Freire
” Junqueira Freire (1832-1855) , Luís José Junqueira Freire, nascido em Salvador, ingressou, aos 19 anos, na Ordem dos Beneditinos. Pernaneceu enclausurado até 1854, quando, atormentado pela falta de vocação, abandonou a vida monástica. Seus poemas, reunidos em Inspirações do Claustro (1855), estão carregados de culpa, revelando uma sexualidade latente e reprimida. Retratam o jovem angustiado e depressivo que se sente incapaz de seguir a vida religiosa e que encontra na morte o seu único escape” .
Solidão
O espírito da tempestade que executa a minha palavra
Partiu
E minha forma assim abandonada
Caiu.
Vieram depois a aflição e a agonia
E cresceram em mim
Como a autora e o dia
E se eu quisesse contar, homens irmãos,
Desde quando meu coração está isento de alegria,
Acreditem,
Não poderia.
Há muitos séculos mora em mim
Uma noite muito escura, muito fria.
Adalgisa Nery
Eros é a água
Entre as tuas pernas
o mar revela-me estranhos recifes
rochas erguidas corais altaneiros
contra a minha gruta de búzios concha nácar
o teu molusco de sal persegue a corrente
a pequena água inventa-me barbatanas
mar da noite com luas submersas
tua ondulação brusca de polvo congestionado
acelera nas minhas guelras um latejar de esponja
e os cavalos minúsculos flutuam entre gemidos
enredados em longos pistilos de medusa.
Amor entre golfinhos
aos altos lança-te sobre o meu flanco leve
recebo-te sem ruído olho-te entre bolhas
cerco o teu riso com a minha boca espuma
ligeireza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila
a coroa de lua abre espaço ao oceano.
Dos olhos prateados
flui longo olhar final
e erguemo-nos do corpo aquático
somos carne outra vez
uma mulher e um homem
entre as rochas.
Gioconda Belli







