Março 29, 2008
IV - RECORDARÀS
Recordarás aquela quebrada caprichosa
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância,barro de ouro,
ervas do mato ,loucas raízes,
sorrílegos espinhos como espadas
Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.
Pablo Neruda
(Cem sonetos de amor)
Invocação à mulher única
Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu
Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais… jamais… (que o poema receba as minhas lágrimas!…)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua…A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência.
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento afirmações do bem: dúvida (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oporturna que a caridade Dúvida, madrasta do gênio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias – mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
Não me deixes morrer!… eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir… – as viagens remontam à vida!… e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura.
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!
Vinicius de Moraes
Ao tempo
Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida
A um tempo aproximando e distanciando…
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando
Tempo, vais para diante ou para trás?
Dante Milano
Soma de malogros noves fora tudo
Soma de malogros noves fora tudo
Com o desperdício de cores,
selo o fim dos meus amores.
Amor pode ser começo
de si mesmo a cada instante.
Fico no fim que mereço.
Sei que perdi: me apostei
inteiro. Mas aprendi
que não dependo (e ninguém)
só de mim para me dar.
É repartido que posso
vir um dia a merecer
a flama ardendo serena,
que resolve a diferença
entre viver e morrer.
Sei que perdi. Mas ganhei.
Thiago de Mello
Março 27, 2008
Ira! e Samuel Rosa - Tarde Vazia
“pela janela vejo fumaça vejo pessoas, na rua os carros, no céu o sol e a chuva, o telefone tocou…”
Viagem nunca feita
E assim escondo-me atrás da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da mesa, donde, subitamente, prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim, como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam - o tédio de poder viver só o Real, e o tédio de poder conceber só o Possível.
Triunfo assim de toda a realidade. Castelos de areia, os meus triunfos?… De que coisa essencialmente divina são os castelos que não são de areia?
Como sabeis que, viajando assim, não me rejuvenesco obscuramente?
Infantil de absurdo, revivo a minha meninice, e brinco com as ideias das coisas como com soldados de chumbo, com os quais eu, quando menino, fazia coisas que embirravam com a ideia de soldado.
Ébrio de erros, perco-me por momentos de sentir-me viver.
Fernando Pessoa, in O livro do desassossego
DÁDIVA
Um dia tão feliz.
A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
Não havia coisa na terra que eu quisesse possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Me endireitando, vi o mar azul e velas.
Czeslaw Milosz
A ETERNIDADE
A ETERNIDADE
De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.
Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.
Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.
De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.
Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.
De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.
L’ETERNITÉ
Elle est retrouvée.
Quoi? – L’Eternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.
Âme sentinelle,
Murmurons l’aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.
Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.
Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s’exhale
Sans qu’on dise: enfin.
Là pas d’espérance,
Nul orietur.
Science avec patience,
Le supplice est sûr.
Elle est retrouvée.
Quoi? – L’Eternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.
Arthur Rimbaud
A CARÊNCIA
A CARÊNCIA
Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.
LA CARENCIA
Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad debería tener alas.
Alejandra Pizarnik
De Las Aventuras Perdidas (1958)
É ELA! É ELA! É ELA! É ELA!
É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi… minha fada aérea e pura —
A minha lavadeira na janela!
Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! Que profundo sono!…
Tinha na mão o ferro do engomado…
Como roncava maviosa e pura!…
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso…
Palpitava-lhe o seio adormecido…
Fui beijá-la… roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido…
Oh! de certo… (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela… que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores…
Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio…
É ela! É ela! — repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja…
Abri cioso a página secreta…
Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela — eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!
É ela! É ela! meu amor, minh’alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela…
É ela! É ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
Alvares de Azevedo
Março 26, 2008
Prece
Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância
— Do mar ou outra, mas que seja nossa!
Fernando Pessoa
Escrito com tinta verde
A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.
Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.
Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de grama.
Teu corpo se constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.
Octavio Paz
Poema da Gare Estapovo
O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na Gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Senttou-se…e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…
as talveis não pensou em nada disso, o Grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!
Mario Quintana
Reinvenção
A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… - mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço…
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Cecília Meirelles
Março 23, 2008
Pienso en tí - Shakira "Love In The Time of Cholera "
Cada día pienso en tí
Pienso un poco más en tí
Despedazo mi razón
Se destruye algo de mi
Cada día pienso en tí
Pienso un poco más en tí
Cada día pienso en tí
Pienso un poco más en tí
Cada vez que sale el sol
Busco en algo el valor
Para continuar así
Y te veo asi no te toque
Rezo por ti cada noche
Amanece y pienso en tí
Y retumba en mis oidos
El tictac de los relojes
Y sigo pensando en tí
Y sigo pensando….
.
.
Cada dia penso em você
Penso um pouco mais em você
E isso faz partir meu coração
Destroi parte de mim
Cada dia penso em você
Penso um pouco mais em você
Cada vez que o sol sai
Busco algo de valor
Para continuar assim
E te vejo assim, não te tocando
Rezando por ti toda noite
Amanhece e penso em você
E ressoa em meus ouvidos
O tic-tac do relogio
E continuo pensando em você
E continuo pensando…
Não digas nada
Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.
Fernando Pessoa
III - ÁSPERO AMOR
ÁSPERO AMOR,violeta coroada de espinhos,
cipoal entre tantas paixões eriçado,
lança das dores,corola de cólera,
por que caminhos e como te dirigiste a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias de meu caminho ?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor,que pedra que fumaça,mostraram minha morada?
O certo é que tremeu a noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste.
enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas e espinhos
abriu no coração um caminho queimante.
Pablo Neruda
Festival do Pênis reúne milhares em cidade japonesa
A cidade de Komaki, no centro do Japão, sedia um evento inusitado. No último sábado milhares de pessoas se reuniram para comemorar o Hounen Matsuri Festival, ou Festival do Pênis, que acontece anualmente, segundo a agência Efe.
Durante a festa, que celebra a fertilidade, o povo carrega um enorme pênis entre um santuário e outro. O objeto, feito de madeira, tem 2,5 m e 280 kg e é transportado por homens de 42 anos, idade considerada crítica pelos devotos.
Ao depositarem o pênis de madeira no sepulcro Tagata Shinto, os homens acreditam receber proteção. O festival é celebrado em um templo de 1,5 mil anos, onde Takeinadane-no-mikoto, a deusa da fertilidade, é homenageada.
Também são famosos os alimentos no formato do órgão sexual masculino degustados durante a festa. Entre os mais comercializados estão as salsichas envoltas em pães que simbolizam a vagina.
Março 21, 2008
Missa de Bach
Dois momentos singulares para uma sexta-feira de reflexões.
Glória
Agnus Dei
Março 20, 2008
Sullen Art
No meu ofício, ou arte severa,
que exercito na quietude da noite,
quando apenas a lua se enfurece
e os braços dos amantes em seus leitos
as suas próprias dores vão estreitando,
eu trabalho sob a canção da luz.
Não pelo pão de cada dia, nem
por ambição ou pelo comércio
de encantos nos palcos de marfim.
Mas pelo simples salário pago
pelo secreto coração deles.
Não é para o homem orgulhoso, alheio
à tormentosa lua, que escrevo
estas páginas feitas de espuma.
Nem para os mortos monumentais
com seus rouxinóis e seus salmos.
Mas para os apaixonados,
que estreitam nos braços a dor de todos os tempos.
Que não me louvam, não pagam, nem sequer
percebem o meu ofício, a minha arte.
Dylan Thomas
Rolling Stones - Out of tears
“I can’t feel
Feel a thing
I can’t shout
I can’t scream
Breathe it out
Breathe it in
All this love
From within
I won’t cry when you say goodbye
I’m out of tears
I won’t die when you wave goodbye
I’m out of tears”
O cheirador de calcinhas
Do blog do David Coimbra (click aqui para conhecer)
“Quando meu rival não está jogando bem, sinto cheiro de sangue”.
Andre Agassi, tenista norte-americano, ex-namorado de Brooke Shields.
***
Lá estavam aquelas duas calcinhas minúsculas e rendadinhas, penduradas inocentemente no box do banheiro dela. Meu amigo sentiu um frêmito de desejo a lhe percorrer o corpo como uma lagartixa bêbada. Pensou: “Vou roubar essas calcinhas”.
Esse meu amigo, ele é um homem muito conhecido em Porto Alegre, e é casado. Logo, não posso revelar seu nome. A dona das calcinhas, claro, não era a mulher dele - ninguém rouba calcinhas da própria mulher, embora um célebre comentarista esportivo do passado, hoje residente em Santa Catarina, levasse junto as roupas íntimas da esposa com ele, quando em viagem. No solitário leito do quarto de hotel, o comentarista sorvia com arrebatamento o odor dos baby-dolls e das calcinhas de sua cônjuge distante. Um gesto de comovente devoção matrimonial, sim, mas que servia de divertimento para os insensíveis colegas da rádio.
Ah, e houve também o caso de um importante repórter de jornal que foi flagrado a cafungar as lingeries de uma colega de sucursal de praia - sem que a colega estivesse dentro delas, é evidente.
Mas o meu amigo. Ele estava com a mulher, na casa de uma amiga da mulher. Pediu licença para ir ao banheiro. Foi. Então deparou com as pequenas peças balouçantes feitas de renda delicada e suave tecido de algodão. Imaginou a bela amiga da mulher inserida numa daquelas sumárias calcinhas, sua nudez loira malcontida pelo pano macio, e estremeceu. Tomou uma delas.
De tão diminuta, a calcinha sumiu em seu punho fechado. Meu amigo sentiu-lhe a meiga textura na palma da mão, apertou-a, afofou-a, esticou-a e, por fim, levou-a ao rosto. Aspirou com a boca e o nariz o perfume sutil da calcinha da amiga da mulher, como se ela tivesse sido embebida por lança-perfume, gemeu baixinho e, trêmulo e ofegante, enfiou-a no bolso. Repetiu a operação com a segunda calcinha. Meteu-a no outro bolso.
Roubá-las-ia, sim!, para sorvê-las em casa, descansado.
Meu amigo suava. Mirou-se no espelho. Viu seu rosto rubicundo, seus olhos injetados, as veias azuis das têmporas pulsando. O que havia acontecido? No que se transformara? No monstro das calcinhas? Raciocinou, afinal. A amiga daria pela falta das calcinhas. Somaria dois mais dois. Compreenderia ter sido ele o autor do furto. Talvez até o denunciasse a sua mulher. Não! Ele não podia fazer aquilo.
Nervoso, meu amigo sacou as calcinhas dos bolsos. Pendurou-as de novo no box. Suspirou. Virou-se para sair do banheiro. Levou a mão à maçaneta. Parou. Girou o pescoço a fim de dar uma última olhadela. Lá estavam. Tão pequetitinhas… Suspirou outra vez. Por que não dar uma nova cheiradinha?
Correu até o box, ansioso. Pegou uma das calcinhas. A menor delas. Esfregou-a no rosto, sofregamente, pungentemente. Fungou, fungou, fungou. Pensou. Disse para sua própria bragueta: “Quer saber de uma coisa?” E a enfiou no bolso. Saiu do banheiro pisando firme. Tinha se convencido: “De uma só ela não vai sentir falta”. Mas ao chegar à sala a culpa já o oprimia. As mulheres, porém, sequer lhe deram atenção. Continuaram tagarelando, animadas, falando quase ao mesmo tempo.
Quando ele e a mulher foram embora, meu amigo ruborizou ao dar dois beijos efêmeros nas faces da amiga. No caminho de volta para casa, a mulher percebeu sua inquietação.
— Algum problema? - perguntou ela.
— Não, nada…
No dia seguinte, ele levou a calcinha para o trabalho. Trancou-a à chave numa gaveta pouco procurada. Sorriu da própria molecagem. Pensou com satisfação: “Vou cheirá-la todos os dias”.
Aí o telefone tocou.
Era ela.
A amiga.
A dona da calcinha roubada. Que falou, em voz sussurrante:
— Tu tens algo que me pertence.
Meu amigo ficou mudo. Paralisado. Não conseguiu responder. E nem precisou. Ela falou mais uma vez:
— Estou sem ela. E a quero de volta. Agora. Aqui.
Depois de quase sofrer um infarte e arrancar um pedaço da mesa a mordidas, meu amigo foi à casa dela, devolveu-lhe a calcinha e começou um caso ardente que já dura meses. Meses de felicidade tonitruante, é importante que se diga.
Tudo devido a um olfato apurado como o de Andre Agassi. Depois de saber dessa história, passei a apurar o meu. Hoje, por exemplo, já sinto cheiro de título nacional ali pelas imediações do Estádio Olímpico. Mas certeza não posso ter. Vou pedir a opinião do meu amigo.
Março 19, 2008
Sir Arthur Clarke falece aos 90 anos
O renomado visionário e escritor de ficção científica Arthur C. Clarke, que publicou mais de cem livros sobre o espaço, a ciência e o futuro, morreu aos 90 anos, por volta das 17 horas desta terça-feira, 18, em sua casa no Sri Lanka. Ele é autor do clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço, cuja adaptação para o cinema por Stanley Kubrick é considerada ícone e figura entre os melhores filmes da história.
No longa de 1968, o célebre supercomputador HAL 9000 e a cena dos macacos lutando com ossos se tornaram referências na cultura científica e base para as análises da corrida espacial vivida no período da Guerra Fria, após a Segunda Guerra Mundial (assista ao trailer aqui).
Clarke sofria de problemas respiratórios e lutava contra a síndrome de pós-pólio desde 1960. Às vezes, precisava do auxílio de uma cadeira de rodas. Movido por sua paixão por mergulho, o escritor se mudou para o Sri Lanka em 1956. Clarke dizia que quando mergulhava, ele se sentia leve, como no espaço. “Sou perfeitamente operacional quando estou submerso”, ele declarou.
A morte foi anunciada por seu assessor, Rohan De Silva. “Ele teve um ataque cardiorrespiratório”, disse o secretário pessoal nesta quarta-feira (horário local).
Para celebrar sua “90ª órbita do sol”, em dezembro, o autor e teorista fez três desejos: que os ETs me chamem, que o homem abandone seu hábito petroleiro e que o Sri Lanka encontre a paz.
Março 18, 2008
Eu Não Existo Sem Você - Tom Jobim / Vinícius de Moraes
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham prá você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você
Retorno
Meu ser em mim palpita como fora
do chumbo da atmosfera constritora.
Meu ser palpita em mim tal qual se fora
a mesma hora de abril, tornada agora.
Que face antiga já se não descora
lendo a efígie do corvo na da aurora?
Que aura mansa e feliz dança e redoura
meu existir, de morte imorredoura?
Sou eu nos meus vinte aons de lavoura
de sucos agressivos, que elabora
uma alquimia severa, a cada hora.
Sou eu ardendo em mim, sou eu embora
não me conheça mais na minha flora
que, fauna, me devora quanto é pura.
Carlos Drummond de Andrade
O velho do espelho
Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto…é cada vez menos estranho…
Meu Deus, Meu Deus…Parece
Meu velho pai - que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
“O que fizeste de mim?!
“Eu, Pai?!
Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga…Que importa?
Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!
-Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste…
Mário Quintana
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos
Eu amo tudo o que foi
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
Fernando Pessoa, 1931.
Voz que se cala
Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.
Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.
Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!
Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!…
Florbela Espanca
Março 15, 2008
Primeiros Erros - Capital Inicial
“Meu caminho é cada manhã
Não procure saber onde vou
Meu destino não é de ninguém
Eu não deixo os meus passos no chão
Se você não entende, não vê
Se não me vê, não entende
Não procure saber onde estou
Se o meu jeito te surpreende…”
Para que tu me oigas
Para que tú me oigas
mis palabras
se adelgazan a veces
como las huellas de las gaviotas en las playas.
Collar, cascabel ebrio
para tus manos suaves como las uvas.
y las miro lejanas mis palabras.
Más que mías son tuyas.
Van trepando en mi viejo dolor como las yedras.
Ellas trepan así por las paredes húmedas.
Eres tú la culpable de este juego sangriento.
Ellas están huyendo de mi guarida oscura.
Todo lo llenas tú, todo lo llenas.
Antes de tí poblaron la soledad que ocupas,
y están acostumbradas más que tú a mi tristeza.
Ahora quiero que digan lo que quiero decirte
para que tú oigas como quiero que me oigas.
El viento de la angustia aún las suelen arrastrar.
Huracanes de sueños aún a veces las tumban.
Escuchas otras voces en mi voz dolorida.
Llanto de viejas bocas, sangre de viejas súplicas.
Ámame,compañera,en esa ola de angústia.
Pero se van tiñendo con tu amor mis palabras.
Todo lo ocupas tú, todo lo ocupas.
Voy haciendo de todas un collar infinito
para tus blancas manos, suaves como las uvas.
Pablo Neruda
Amor que morre
O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!
Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…
Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.
E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!
Florbela Espanca
Ausencia
Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.
Jorge Luis Borges
Março 12, 2008
Se te queres
Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…
A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros…
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! …
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…
Álvaro Campos
A brusca poesia da mulher amada
Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente…
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor
– oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados…
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.
Vinicius de Moraes
Vencedor
Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!
Augusto dos Anjos
O Poema
O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para o bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta.
Mário Quintana
O Sono das Águas
Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
Guimarães Rosa
A beleza de todas as coisas
Reparava mais uma vez na grande beleza de todas as coisas; porém assaltava-o claramente, nesse desejo em ebulição, o doloroso pressentimento de um cativeiro; inquietante sensação de que todo quanto julgamos atingir nos atinge a nós; a tenebrosa suspeita de que as afirmações falsas, feitas no ar, sem qualquer espécie de importância pessoal, acordarão sempre neste mundo um eco mais poderoso do que as mais verdadeiras e as mais singulares. Esta beleza (dizia então consigo), perfeita! Mas tratar-se-á realmente da minha beleza? E a verdade que me ensinam será a minha verdade? Os objetos, as vozes, a realidade, todas essas coisas sedutoras que nos atoem e nos guiam, que perseguimos e sobre as quais nos precipitamos… será isso no entanto a realidade autêntica, ou apenas se tratará de um sopro imponderável pairando acima da realidade proposta? O que mais excita a desconfiança) são as divisões e as formas convencionais da vida: a história, sempre a mesma, as coisas, já prefiguradas pelas gerações precedentes, a linguagem convencional, não apenas os nossos lábios, mas também as nossas sensações e sentimentos. Ulrich detivera-se diante de uma igreja. Meu Deus! se acaso uma gigantesca matrona ali estivesse sentada à sombra, com uma enorme barriga cheia de refegos, encostada às paredes das casas e muito lá em cima, o pôr do Sol lhe iluminasse o rosto cheio de rugas, de borbulhas e de verrugas… não teria ele exclamado na mesma? Meu Deus! que belo! Ninguém se quer furtar ao facto de que viemos ao mundo com o dever de admirar isto; mas, como acabavámos de dizer, não seria impossível igualmente acharmos belas, numa respeitável matrona, as formas amplas, suavemente descaídas, e a filigrana das soas rugas; só que é muito mais simples dizer-se que ela é velha. Esta transição do momento em que achamos as coisas do mundo envelhecidas para aquele em que as consideramos belas é mais ou menos semelhante à que nos conduz desde as concepções dos jovens até à moral mais elevada do adulto, a qual continua a ser um ridículo bê-á-bá até ao dia em que, bruscamente, a fazemos nossa.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
Março 6, 2008
o único afrodisíaco
“…o único afrodisíaco verdadeiramente infalível é o amor. Nada consegue deter a paixão acesa de duas pessoas apaixonadas. Neste caso não importam os achaques da existência, o furor dos anos, o envelhecimento físico ou a mesquinhez das oportunidades; os amantes dão um jeito de se amarem porque, por definição, esse é o seu destino.” (Isabel Allende)
“Afrodite: Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos”
Isabel Allende
O amor é uma companhia
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Alberto Caeiro
Amor bastante
quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.
Paulo Leminski
Março 4, 2008
NAVE DE PRATA - 14 BIS AO VIVO
Entra dia sai noite
Só procurando alguém por aí
A estranha saudade
Saudade tamanha
De alguém que eu já vi
Eu me lembro dos olhos
Duas esferas de sol e luar
Duas naves de prata
Perdendo contato
Sumindo no ar
Essa coisa me segue
Eu corro na lâmina dessa aflição
Acabado esse show
Viro o mundo ao avesso
Ela pode estar perto
Entre o dia e a noite
Tudo acontece no meu coração
Outra louca cidade
A mesma vontade de revelação
Eu me lembro dos olhos…
Tenho o meu coração
Preparado pra flutuar
E seu nome chamando nos pingos da chuva
Eu me lembro dos olhos…
Entre o dia e a noite
E que tudo acontece no meu coração
Outra louca cidade
A mesma vontade e uma nova emoção
Tenho o meu coração
Preparado pra flutuar
E seu nome chamando nos pingos da chuva
Essa coisa me segue chama lembrança
E seu nome chamando nos pingos da chuva