Algumas coisas de Mário Quintana
O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é
porque um dos dois é burro.
Palavra Escrita
Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um
medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que
não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.
Poema
Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos
seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos…
Poesia & Lenço
E essa que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos
em lenços… Oh! tenham paciência, velhinhas… A poesia não é
uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!
Poesia & Peito
Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe
é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.
Refinamentos
Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da
antiga arte pela arte.
Ressalva
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se
vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.
Sinônimos
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não
sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.
Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse
escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu
próprio coração.
Tempo
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha
ao chegar ao fim desta linha.
Veneração
Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e
que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira
das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.
Vida
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.