Abril 19, 2008
IX - Ao Golpe…
Ao golpe da onda contra a pedra indócil
Estala a claridade e estabelece sua rosa
E o círculo do mar se reduz a um cacho,
A uma só gota de sal azul que tomba.
Oh radiante magnólia desatada na espuma,
Magnética viageira cuja morte floresce
E eternamente volta a ser e a não ser nada:
Sal roto, deslumbrante movimento marinho.
Juntos tu e eu, amor meu, selamos o silêncio,
Enquanto o mar destrói suas constantes estátuas
E derruba suas torres de enlevo e brancura,
Porque na trama destes tecidos invisíveis
Da água entornada, da incessante área,
Sustentamos a única e acossada ternura.
Pablo Neruda, in Cem sonetos de amor
O meu impossível
Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!
Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!…
Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!… Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto…
Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!…
Florbela Espanca
Lira Romantiquinha
Por que me trancas
o rosto e o sorriso
e assim me arrancas
do paraíso?
Por que não queres
deixando o alarme
( ai, Deus: mulheres)
acarinhar-me?
Por que cultivas
as sem-perfume
e agressivas
flores do ciúme?
Acaso ignoras
que te amo tanto,
todas as horas,
já nem sei quanto?
Visto que em suma
é todo teu,
de mais nenhuma
o peito meu?
Anjo sem fé
nas minhas juras
porque é que é
que me angusturas?
Minha alma chove
frio e tristinho
não te comove
este versinho?
Carlos Drummond de Andrade
Quintana…algumas coisas…
Educação
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.
Fatalidade
O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que
o fazem rimar com lamento.
Feira de Livro
O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis
e prolonga a existência.
Leitura
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma
lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.
Leitura 2
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a
leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha…
Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.
Leituras
— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim
você nunca fica em dia.
— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado
do Significado do Significado.
Leituras 2
Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou
de José de Alencar . Que idéia foi essa do teu professor?
Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas
as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos
amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu
ser, para sempre.
Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.
Lógica & Linguagem
Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística
dos provérbios? Este, por exemplo: “Quem cospe para o céu, na
cara lhe cai”. Tal desarranjo sintático faria a antiga
análise lógica perder de súbito a razão.
O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala
de outra coisa.
O Poema
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria
face.
VENTO, ÁGUA, PEDRA
A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.
O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.
O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.
Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.
Octavio Paz
Olhos verdes
São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma — vida, outra — morte;
Uma — loucura, outra — amor.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
depois que os vi!
São uns olhos verdes, verdes,
Que podem também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mim,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mim!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mim!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!
Gonçalves Dias
O resto é silêncio
E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho…
.
Já não ouso… já não coras…
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas…
Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos…
Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos…
J.G.de Araujo Jorge



