Obscured By Clouds

Maio 31, 2008

Raul Seixas - Agua Viva

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:35 am

Enigma-Gravity of Love

Arquivado em: Musica — kavorka @ 4:45 am

Testamento do Poeta

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 4:30 am

Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita… a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!….
Basta-me o gesto de contar um verso.

 

José Régio

Dialética

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:23 am

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

Vinícius de Moraes

 

La Dicha

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:16 am

El que abraza a una mujer es Adán. La mujer es Eva.
Todo sucede por primera vez.
He visto una cosa blanca en el cielo. Me dicen que es la luna,
pero qué puedo hacer con una palabra y con una mitología.
Los árboles me dan un poco de miedo. Son tan hermosos.
Los tranquilos animales se acercan para que yo les diga su nombre.
Los libros de la biblioteca no tienen letras. Cuando los abro surgen.
Al hojear el atlas proyecto la forma de Sumatra.
El que prende un fósforo en el oscuro está inventando el fuego.
En el espejo hay otro que acecha.
El que mira el mar ve a Inglaterra.
El que profiere un verso de Liliencron ha entrado en la batalla.
He soñado a Cartago y a las legiones que desolaron a Cartago.
He soñado la espada y la balanza.
Loado sea el amor en el que no hay poseedor ni poseída, pero los dos se entregan.
Loada sea la pesadilla, que nos revela que podemos crear el infierno.
El que desciende a un río desciende al Ganges.
El que mira un reloj de arena ve la disolución de un imperio.
El que juega con un puñal presagia la muerte de César.
El que duerme es todos los hombres.
En el desierto vi la joven Esfinge que acaban de labrar.
Nada hay tan antiguo bajo el sol.
Todo sucede por primera vez, pero de un modo eterno.
El que lee mis palabras está inventándolas.

 

Jorge Luis Borges

 

Maio 29, 2008

Led Zeppelin - Kashmir

Arquivado em: Musica — kavorka @ 4:40 am

Bond - Kashmir

Arquivado em: Musica — kavorka @ 4:34 am

Eu Voltarei

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:19 am

Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvorede Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei…
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei…

 

Cora Coralina

O Amor e o Outro

Arquivado em: Sem categoria — kavorka @ 4:18 am

Não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.

Do meu jeito amo
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.

 

Affonso Romano de Sant’Anna 

 

 

 

 

 

 

Poema V - Não te toque

Arquivado em: Neruda — kavorka @ 4:15 am

Não te toque a noite nem o ar nem a aurora,
só a terra ,a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas de teu país fragrante.

Desde Quinchamalí onde fizeram teus olhos

aos pés criados para mim na Fronteira
és a greda escura que conheço:
em teus quadris toco de novo todo o trigo.

Talvez tu não saibas, araucana,

que quando antes de amar-te me esqueci de teus beijos
meu coração ficou recordando tua boca

e fui como um ferido pelas ruas
ate que compreendi que havia encontrado
amor, meu território de beijos e vulcões.

 

Pablo Neruda

Maio 26, 2008

Sade-No Ordinary Love

Arquivado em: Musica — kavorka @ 4:57 am

Dispersão

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 4:54 am

Perdi-me dentro de mim

Porque eu era labirinto,

E hoje, quando me sinto,

É com saudades de mim.

Passei pela minha vida

Um astro doido a sonhar.

Na ânsia de ultrapassar,

Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,

Não tenho amanhã nem hoje:

O tempo que aos outros foge

Cai sobre mim feito ontem.

O Domingo de Paris

Lembra-me o desaparecido

Que sentia comovido

Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,

É bem-estar, é singeleza,

E os que olham a beleza

Não têm bem-estar nem família.

O pobre moço das ânsias…

Tu, sim, tu eras alguém!

E foi por isso também

Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada

Bateu asas para os céus,

Mas fechou-as saciada

Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,

Assim me choro a mim mesmo:

Eu fui amante inconstante

Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro

Nem as linhas que projeto:

Se me olho a um espelho, erro —

Não me acho no que projeto.

 

Mário de Sá Carneiro

 

Mário de Sá Carneiro (1890-1916) é um dos nossos maiores poetas do Modernismo. Talvez o que melhor exprime a cisão do sujeito na enunciação de si próprio e na formulação da sua percepção do mundo, ora deceptiva ao jeito simbolista-decadentista, ora inebriada pelas sensações e entusiasmos do futurismo.

Poemacto

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 4:52 am

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

 

Herberto Helder

Poema antigo

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 4:50 am
 

O homem que percorro
com as mãos

e a lua que concebo
na altitude
do tédio


o oceano
penso paralelo — ventre
à praia intata
das janelas brancas
com silêncio

ciclamens-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo — bússola
com raiz — grito de relevo

O homem que percorro
com as mãos

a estátua que consinto

a lua que concebo.

 

Maria Tereza Horta

É escritora portuguesa, natural de Lisboa. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, enveredando depois pela carreira jornalística. Dirigiu o ABC Cine-Clube e fez parte do grupo Poesia 61.

Esperemos

Arquivado em: Neruda — kavorka @ 4:48 am

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

Pablo Neruda

Reflexões…

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:47 am

Cada um que passa em nossa vida, Passa sozinho … Porque cada pessoa é única pra nós, E nenhuma substitui a outra… Cada um que passa em nossa vida, Passa sozinho, Mas não vai só… Cada um que passa em nossa vida, Leva um pouco de nós mesmos, E nos deixa um pouco de si mesmo… Há os que levam muito, Mas não há os que não levam nada… Há os que deixam muito, Mas não há os que não deixam nada… Esta é a mais bela realidade da vida. A prova tremenda da importância de cada um, É que ninguém se aproxima do outro por acaso…

Antoine de Saint-Exupéry

Maio 25, 2008

Vídeo - Tony Bennett e Stevie Wonder - For Once in my life

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:30 am

Também já fui brasileiro

Arquivado em: Drummond — kavorka @ 5:29 am

Eu também já fui brasileiro

moreno como vocês.

Ponteei viola, guiei forde

e aprendi na mesa dos bares

que o nacionalismo é uma virtude.

Mas há uma hora em que os bares se fecham

e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.

Bastava olhar para mulher,

pensava logo nas estrelas

e outros substantivos celestes.

Mas eram tantas, o céu tamanho,

minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.

Fazia isso, dizia aquilo.

E meus amigos me queriam,

meus inimigos me odiavam.

Eu irônico deslizava

satisfeito de ter meu ritmo.

Mas acabei confundindo tudo.

Hoje não deslizo mais não,

não sou irônico mais não,

não tenho ritmo mais não.

 

Carlos Drummond de Andrade

Homenagem a Jefferson Péres (1932-2008)

Arquivado em: Cecilia Meireles — kavorka @ 5:23 am

“Toda vez que um justo grita,

um carrasco vem calar.

Quem não presta fica vivo,

quem é bom, mandam matar.”

 

De O Justo, do Cancioneiro da Independência, de Cecília Meireles

Maio 21, 2008

Elton John-Someone saved my life tonight

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:59 am

Se cada dia cai

Arquivado em: Neruda — kavorka @ 5:57 am

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda

Beatrice

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:56 am

Nome, que não se diz; nome, que não se escreve;
Quem vai meter num som o mundo, a imensidão?
O Amor que nome tem? real, jamais o teve…
Escrever!… pois é pouco um livro- O coração?…

Antero de Quental

Somos Água

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:52 am

Se analisarmos o nosso corpo só encontramos água e umas dezenas de de matérias que nela flutuam. A água sobe em nós exatamente como nas árvores. As criaturas animais, tal como as nuvens, são formadas de água. Acho isto um encanto. Portanto não sabemos muito bem o que havemos de pensar de nós. Nem aquilo que devemos fazer.

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

"A Condição Humana" (1934) - René Magritte

Arquivado em: Artes — kavorka @ 5:52 am

A condiçao humana - rene magritte

Rei do mar

Arquivado em: Cecilia Meireles — kavorka @ 5:51 am

Muitas Velas. Muitos Remos.
Âncora é outro falar…
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.

Vimos as Plêiades. Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta Vida. Longo Mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.

Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar…
Nem tormenta nem tormento
nos poderia parar.

(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar…)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.


Cecília Meirelles

Repúdio

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:45 am

Réu de morte,

réu com denodo,

cordel e archote,

desterrai-me.

Infiéis

ao eixo a que pertenceis,

desterrai-me

pelo que deixais

de fazer.

Na fartura e na colheita,

desterrai-me.

Pousastes a mão de ferro

sobre a vida que não herdo,

mas pretendo por direito.

Vosso rosto não mudou,

em si mesmo se fechou,

lacrada urna.

Desterrai-me

pela paz e pela guerra;

sou o sinal que elimina

a vossa parte de fera.

Desterrai-me

com paixão e desespero,

girante em torno do Todo,

como pássaro ao viveiro.

Desterrai-me.

Incomodo a solidão

destes corpos que se dão

para o nada, para o chão,

para o terrível então.

Giro em torno do Todo,

sendo, por isto, mais eu;

tudo o que a morte tolheu,

reverto em pesado ouro.

Sou aquele que cedeu

o melhor de seu tesouro

e mendigo se perdeu

nas próprias coisas que deu.

Desterrai-me.

Giro em torno do Todo,

morcego no breu.

Giro em torno do Todo,

giro em torno do covo,

onde irão enterrar-me.

E usai de precisão

em colocar o tampão,

em colocar-me qual pão

para o consumo do Todo.

Baixai-me, se o quiserdes,

com nojo.

Também na morte,

preciso de vosso engodo.

 

Carlos Nejar

Carlos Nejar (Luiz C. Verzoni N.), advogado, professor e poeta, nasceu em Porto Alegre, RS, em 11 de janeiro de 1939. Eleito em 24 de novembro de 1988 para a Cadeira n. 4 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Vianna Moog, foi recebido em 9 de maio de 1989, pelo acadêmico Eduardo Portella.

São flores ou são nalgas

Arquivado em: Drummond — kavorka @ 5:44 am

São flores ou são nalgas
estas flores
de lascivo arabesco?
São nalgas ou são flores
estas nalgas
de vegetal doçura e macieza?

 

Carlos Drummond de Andrade

Rendição

Arquivado em: Outros Latinos — kavorka @ 5:42 am

Depois de ter cortado todos os braços que se estendiam para mim;

Depois de ter entaipado todas as janelas e todas as portas;

Depois de ter inundado os fossos com água envenenada;

Depois de ter edificado minha casa num rochedo inacessível aos afagos e ao medo;

Depois de ter lançado punhados de silêncio e monossílabos de desprezo a meus amores;

Depois de ter esquecido meu nome e o nome da minha terra natal;

Depois de me ter condenado a perpétua espera e a solidão perpétua,

ouvi contra as pedras de meu calabouço de silogismos a investida húmida, terna, insistente, da Primavera.

Octávio Paz

Maio 19, 2008

U2 - One

Arquivado em: Musica — kavorka @ 4:33 am

 

 

 

 

Inconstância

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:31 am

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo

É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…

 

Florbela Espanca

  

O duplo

Arquivado em: Sem categoria — kavorka @ 4:31 am

Debaixo de minha mesa
tem sempre um cão faminto
-que me alimenta a tristeza.
Debaixo de minha cama
tem sempre um fantasma vivo
-que perturba quem me ama.
Debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
-pensando que eu sou ele.
Debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta
-e alguém calado que grita.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

Trevas

Arquivado em: Byron — kavorka @ 4:30 am

Eu tive um sonho que não era em todo um sonho
O sol esplêndido extinguira-se, e as estrelas
Vagueavam escuras pelo espaço eterno,
Sem raios nem roteiro, e a enregelada terra
Girava cega e negrejante no ar sem lua;
Veio e foi-se a manhã - Veio e não trouxe o dia;
E os homens esqueceram as paixões, no horror
Dessa desolação; e os corações esfriaram
Numa prece egoísta que implorava luz:
E eles viviam ao redor do fogo; e os tronos,
Os palácios dos reis coroados, as cabanas,
As moradas, enfim, do gênero que fosse,
Em chamas davam luz; As cidades consumiam-se
E os homens juntavam-se junto às casas ígneas
Para ainda uma vez olhar o rosto um do outro;
Felizes enquanto residiam bem à vista
Dos vulcões e de sua tocha montanhosa;
Expectativa apavorada era a do mundo;
Queimavam-se as florestas - mas de hora em hora
Tombavam, desfaziam-se - e, estralando, os troncos
Findavam num estrondo - e tudo era negror.
À luz desesperante a fronte dos humanos
Tinha um aspecto não terreno, se espasmódicos
Neles batiam os clarões; alguns, por terra,
Escondiam chorando os olhos; apoiavam
Outros o queixo às mãos fechadas, e sorriam;
Muitos corriam para cá e para lá,
Alimentando a pira, e a vista levantavam
Com doida inquietação para o trevoso céu,
A mortalha de um mundo extinto; e então de novo
Com maldições olhavam para a poeira, e uivavam,
Rangendo os dentes; e aves bravas davam gritos
E cheias de terror voejavam junto ao solo,
Batendo asas inúteis; as mais rudes feras
Chagavam mansas e a tremer; rojavam víboras,
E entrelaçavam-se por entre a multidão,
Silvando, mas sem presas - e eram devoradas.
E fartava-se a Guerra que cessara um tempo,
E qualquer refeição comprava-se com sangue;
E cada um sentava-se isolado e torvo,
Empanturrando-se no escuro; o amor findara;
A terra era uma idéia só - e era a de morte
Imediata e inglória; e se cevava o mal
Da fome em todas as entranhas; e morriam
Os homens, insepultos sua carne e ossos;
Os magros pelos magros eram devorados,
Os cães salteavam seus donos, exceto um,
Que se mantinha fiel a um corpo, e conservava
Em guarda as bestas e aves e famintos homens,
Até a fome os levar, ou os que caíam mortos
Atraírem seus dentes; ele não comia,
Mas com um gemido comovente e longo, e um grito
Rápido e desolado, e relambendo a mão
Que já não o agradava em paga - ele morreu.
Finou-se a multidão de fome, aos poucos; dois,
Dois inimigos que vieram a encontrar-se
Junto às brasas agonizantes de um altar
Onde se haviam empilhado coisas santas
Para um uso profano; eles a resolveram
E trêmulos rasparam, com as mãos esqueléticas,
As débeis cinzas, e com um débil assoprar
E para viver um nada, ergueram uma chama
Que não passava de arremedo; então alçaram
Os olhos quando ela se fez mais viva, e espiaram
O rosto um do outro - ao ver gritaram e morreram
- Morreram de sua própria e mútua hediondez,
- Sem um reconhecer o outro em cuja fronte
Grafara o nome “Diabo”. O mundo se esvaziara,
O populoso e forte era uma informe massa,
Sem estações nem árvore, erva, homem, vida,
Massa informe de morte - um caos de argila dura.
Pararam lagos, rios, oceanos: nada
Mexia em suas profundezas silenciosas;
Sem marujos, no mar as naus apodreciam,
Caindo os mastros aos pedaços; e, ao caírem,
Dormiam nos abismos sem fazer mareta,
mortas as ondas, e as marés na sepultura,
Que já findara sua lua senhoril.
Os ventos feneceram no ar inerte, e as nuvens
Tiveram fim; a escuridão não precisava
De seu auxílio - as trevas eram o Universo.

 

Lord Byron

Domingo

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 4:30 am

Hoje é domingo? Não e sim,
Para ser dia que se vive
mergulho as mãos em mim
e tiro os domingos que tive.

 

Luís Veiga Leitão

Cântico Negro

Arquivado em: Portugueses — kavorka @ 4:25 am

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio

Maio 16, 2008

Pra pensar…

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 5:58 am

A vida está cheia de interferências indébitas, de acasos estúpidos, de personagens errados que travam conosco desencontrados diálogos de surdos, a vida está atravancada de pormenores inúteis, a vida parece um romance mal feito!

Mário Quintana

Elvis Presley - And I love you so

Arquivado em: Musica — kavorka @ 5:55 am

 

Tradução

 

 

E eu te amo tanto…
E eu te amo tanto,

as pessoas me perguntam como?
Como eu tenho vivido até agora,

eu digo a eles que eu não sei
Eu acredito que eles entendam,

como a vida tem sido solitária
Mas a vida recomeçou,

no dia em que você tomou minhas mãos
É claro que eu sei,

o quão solitária pode ser a vida
As sombras me perseguem

e a noite não me libertará
Mas eu não deixo

o anoitecer me entristecer
Agora que você está ao meu redor!
E você me ama tanto,

seus pensamentos são apenas em mim
Você libertou o meu espírito

e eu sou feliz pelo que você faz
Olhar sobre a vida é breve,

uma vez que a página está lida
Tudo se vai nesta vida, exceto o amor…

nisto é que eu acredito

EL ALFARERO

Arquivado em: Neruda — kavorka @ 5:55 am
Todo tu cuerpo tiene
copa o dulzura destinada a mí.
Cuando subo la mano
encuentro en cada sitio una paloma
que me buscaba, como si te hubieran, amor, hecho de arcilla
para mis propias manos de alfarero.
Tus rodillas, tus senos,
tu cintura faltan en mí como en el hueco
de una tierra sedienta
de la que desprendieron
una forma,
y juntos
somos completos como un solo río,
como una sola arena.

Pablo Neruda

A Felicidade

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 5:52 am

Aquele que abraça uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece pela primeira vez.
Vi uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua, mas que posso eu fazer com uma palavra e uma mitologia.
As árvores metem-me um pouco de medo. São tão belas.
Os tranquilos animais aproximam-se para que eu lhes diga o seu nome.
Os livros da biblioteca não têm letras. Quando os abro irrompem.
Ao folhear o atlas projecto a forma de Samatra.
Aquele que acende um fósforo no escuro está a inventar o fogo.
No espelho há um outro que espreita.
Aquele que olha o mar vê Inglaterra.
Aquele que profere um verso de Liliencron já entrou na batalha.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei a espada e a balança.
Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída, mas em que ambos se entregam.
Louvado seja o pesadelo, que nos revela que podemos criar o inferno.
Aquele que desce um rio desce o Ganges.
Aquele que contempla uma ampulheta vê a dissolução de um império.
Aquele que brinca com um punhal pressagia a morte de César.
Aquele que dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge, que acabam de construir.
Não há nada tão antigo sob o sol.
Tudo acontece pela primeira vez, mas de maneira eterna.
Aquele que lê as minhas palavras está a inventá-las.

 

Jorge Luis Borges

Maio 15, 2008

Pra pensar…

Arquivado em: Outros — kavorka @ 6:59 am

“O conhecimento traz consigo a solidão.”

                                                    Nietzsche

Phil Collins & Eric Clapton - I Wish it would rain down

Arquivado em: Musica — kavorka @ 6:59 am

Basta pensar em sentir

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 6:53 am

“Basta pensar em sentir

Para sentir em pensar.

Meu coração faz sorrir

Meu coração a chorar.

Depois de parar de andar,

Depois de ficar e ir,

Hei de ser quem vai chegar

Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.”

 

Fernando Pessoa

O MORCEGO

Arquivado em: Augusto do Anjos — kavorka @ 6:52 am

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, á noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

 

Augusto dos Anjos.

Fascínio

Arquivado em: Sem categoria — kavorka @ 6:51 am
Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.
Não deveria, dizem.
Me esforço. Aliás,
já nem me esforço.
Abertamente me ponho a admirá-las.
Não estou traindo ninguém, advirto.
Como pode o amor trair o amor?
Amar o amor num outro amor
é um ritual que, amante, me permito.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

Objeto de Amor

Arquivado em: Outros — kavorka @ 6:43 am

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

 

Adélia Prado 

 

Maio 14, 2008

Paixão - Kleiton & Kledir

Arquivado em: Musica — kavorka @ 6:08 am

Como este poema chega a alma.

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:07 am

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar…e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol!
– Águia real, apontas-me a subida!

 

Florbela Espanca

 

Não Quero Rosas Desde que Haja Rosas

Arquivado em: Pessoa — kavorka @ 5:51 am

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?… Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria…
Ah, com que esmola a aquecerei?…

Fernando Pessoa

 

PONTO DE FUGA

Arquivado em: Outros — kavorka @ 5:48 am

Que indagação faz
o umbigo feminino
quando aparece entre
uma peça e outra
da veste?
Intimidade
sensualidade.
Nem mesmo
a musicalidade dos pêlos
é maior que o apelo
da cicatriz do nascimento.

 

Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade)

Maio 11, 2008

Marillion - Wish You Were Here

Arquivado em: Outros — kavorka @ 4:20 pm

Mãe

Arquivado em: Quintana — kavorka @ 4:19 pm

São três letras apenas.
As desse nome bendito:
Também o céu tem três letras,
e nelas cabe o infinito.

Para louvar a nossa mãe,
todo bem que se disser
nunca há de ser tão grande
como o bem que ela nos quer.

Palavra tão pequenina,
bem sabem os lábios meus
que és do tamanho do céu
e apenas menor do que Deus!


Mário Quintana

Próxima Página »

Blog no WordPress.com.