O Corcunda de Notre-Dame
Ela não o via, mas sentia a presença de um bom espírito a seu redor. Os alimentos eram renovados por uma mão invisível, enquanto ela dormia. Acima de seu quarto uma escultura lhe causava medo. Ela dissera isto, mais de uma vez, na frente de Quasímodo. Certa manhã (porque todas essas coisas eram feitas à noite), ela não a viu mais. Tinha sido arrancada. Aquele que subira tão alto certamente teve que arriscar a vida. Às vezes, à noite, ela ouvia uma voz escondida sob o quebra-vento do sino cantar uma canção triste e estranha, como que para niná-la. Eram versos sem rima, como um surdo a compor. Um dia, ao levantar, ela viu sobre a janela dois vasos cheios de flores. Um era de cristal, extremamente bonito, mas rachado. A água com a qual fora regado escorrera, e as flores haviam murchado. O outro era um pote de barro, grosseiro e comum, cuja água tinha sido conservada o que lhe dava flores viçosas.
Hugo, Victor. O Corcunda de Notre-Dame