A queda

E eu que sou o rei de toda essa incoerência,

Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la

E giro até partir… Mas tudo me resvala

Em bruma e sonolência.

 

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,

Volve-se logo falso… ao longe o arremeço…

Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,

Morro à míngua de excesso.

 

Alteio-me na cor à força de quebranto,

Estendo os braços de alma – e nem um espasmo venço!…

Peneiro-me na sombra – em nada me condenso…

Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

 

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,

-Vencer às vezes é o mesmo que tombar-

E como inda sou luz, num grande retrocesso,

Em raivas ideais ascendo até ao fim:

Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso…

 

Tombei…

E fico só esmagado por mim!

 

Mário de Sá-Carneiro

 

~ por kavorka em 04/07/2009.

Uma resposta to “A queda”

  1. “A mais tola das virtudes é a idade.
    Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos?
    Há pulhas, há imbecis, há santos,
    há gênios de todas as idades.”
    (Nelson Rodrigues)

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