Obscured By Clouds

Fevereiro 7, 2008

El hombre y el mar

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 12:02 am

 

¡Hombre libre, tu siempre preferirás el mar!
La mar es el espejo en que tu alma se mira,
en su onda infinita eternamente gira,
y tu espíritu sabe lo amargo saborear.

Hundiéndote en su seno, desnudo para el viaje,
la acaricias con brazos y ojos; tu corazón
se distrae muchas veces de su propia canción
al escuchar la suya, indómita y salvaje.

Los dos sois tenebrosos y a la vez sois discretos:
hombre, nadie ha llegado al fondo de tu abismo;
¡oh mar!, nadie ha llegado a tu tesoro mismo;
¡con tan celoso afán guardáis vuestros secretos!

Y entre tanto que pasan siglos innumerables,
sin piedad y sin miedo uno y otro atacáis,
de tal modo la muerte y el combatir amáis,
¡oh eternos luchadores, oh hermanos implacables!

 

Charles Baudelaire

Dezembro 17, 2007

Recolhimento

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 4:00 am

Sê sábia, ó minha dor, e queda-te mais quieta.
Reclamavas a tarde; eis que ela vem descendo:
Sobre a cidade um véu de sombras se projeta,
A alguns trazendo a angústia, a paz a outros trazendo.

Enquanto dos mortais a multidão abjeta,
Sob o flagelo do prazer, algoz horrendo,
Remorsos colhe à festa e sôfrega se inquieta,
Dá-me, ó dor, tua mão; vem por aqui, correndo

Deles. Vem ver curvarem-se os anos passados
Nas varandas do céu, em trajes antiquados;
Surgir das águas a saudade sorridente;

O sol que numa arcada agoniza e se aninha,
E, qual longo sudário a arrastar-se no Oriente,
Ouve, querida, a doce noite que caminha.

 

Charles Baudelaire

Novembro 20, 2007

Perfume Exótico

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 5:26 am

Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

 

Charles Baudelaire

Novembro 16, 2007

la beauté

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 4:25 am

A Beleza

Eu sou bela, ó mortais! como um sonho de pedra,
E meu seio, onde todos vem buscar a dor,
É feito para ao poeta inspirar esse amor
Mudo e eterno que no ermo da matéria medra.

No azul, qual uma esfinge, eu reino indecifrada;
Conjugo o alvor do cisne a um coração de neve;
Odeio o movimento e a linha que o descreve,
E nunca choro nem jamais sorrio a nada.

Os poetas, diante do meu gesto de eloquência,
Aos das estátuas mais altivas semelhantes,
Terminarão seus dias sob o pó da ciência;

Pois que disponho, para tais dóceis amantes,
De um puro espelho que idealiza a realidade.
O olhar, meu largo olhar de eterna claridade!

 

Fleurs du Mal, Charles Baudelaire

 

 

 

Abril 26, 2007

A que está sempre alegre

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 4:57 am

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tua vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

 

Charles Baudelaire

Março 8, 2007

Encontro de Rua

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 6:51 am

A rua num tumulto em torno de mim gritava. 

Alta, esguia, vestindo um luto majestoso 

linda mulher passou que, num gesto gracioso, 

a fímbria do vestido erguia e balançava. 

 

O andar ligeiro e nobre, a perna escultural, 

e eu sorvia, angustiado, em seus olhos sombrios 

negro céu que produz os temporais bravios, 

a doçura que encanta e o prazer que é fatal. 

 

Um clarão… logo após a morna obscuridade! 

Ó mulher cujo olhar me deu vida outra vez 

não mais te encontrarei senão na eternidade? 

 

Muito longe daqui! Tarde! Nunca, talvez! 

Pois não sei aonde vais; tu de mim te perdeste 

tu, que eu teria amado e que me compreendeste! 

 

Charles - Pierre Baudelaire 

Março 4, 2007

A Uma Passante

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 5:50 pm

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia 

Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa, 

uma mulher passou, com sua mão vaidosa 

erguendo e balançando a barra alva da saia; 

 

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina. 

Eu bebia, como um basbaque extravagante, 

no tempestuoso céu do seu olhar distante, 

a doçura que encanta e o prazer que assassina. 

 

Brilho… e a noite depois! - Fugitiva beldade 

de um olhar que me fez nascer segunda vez, 

não mais te hei de rever senão na eternidade? 

 

Longe daqui ! Tarde demais! Nunca talvez! 

Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste, 

tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste! 

 

Charles Pierre Baudelaire 

Fevereiro 15, 2007

Tristezas da Lua

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 4:54 am

Hoje, a lua, a sonhar, mais pálida e mais fria 

tem, reclinada sobre os coxins siderais, 

o langor feminil de quem acaricia, i 

antes de adormecer, os seios virginais. 

Sobre o fofo cetim das nuvens, desmaiada, 

nos céus, passeando o olhar, vê surgirem visões, 

que argênteas, no palor da noite iluminada, 

ascendem para o azul, como alvas florações. 

Quando às vezes, na terra, amorosa e discreta, 

ela deixa cair uma gota de opala, 

uma lágrima irial, de tons de catassol, 

sobre a concha da mão, notâmbulo poeta 

toma-a, para, furtiva, ir piedoso guardá-la 

dentro do coração escondendo-a do sol. 

 

Charles - Pierre Baudelaire 

Fevereiro 6, 2007

"Intimidades"

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 4:52 am

 

Tu és um céu de outono, alegre e cor de rosa! 

Mas a tristeza em mim, sombrio mar, avança 

e deixa, ao refluir, em minha boca ansiosa 

de um lodo escuro e amargo a cáustica lembrança. 

- A tua mão afaga o peito; o que ela quer 

minha amiga, é um lugar que tem sido saqueado 

pela garra acerada e o dente da mulher: 

até meu coração também foi devorado. 

Meu coração é templo onde a turba cultua 

todos os crimes vis e os vícios degradantes! 

- Um perfume te envolve a pele branca e nua! . . . 

Flagelo de minha alma, ó mulher, por que esperas? 

Com teus olhos de fogo, archotes flamejantes, 

calcina o que sobrou do repasto das feras! 

 

Charles - Pierre Baudelaire 

Janeiro 10, 2007

O convite à viagem

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 4:35 am

Minha doce irmã,
     Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
     Amar a valer,
     Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
     Os sóis orvalhados
     Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
     Misterioso e cruel
     Desse olhar infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

     Os móveis polidos,
     Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
     As mais raras flores
     Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
     Tetos inauditos,
     Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
     Tudo aí à alma
     Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

     Vê sobre os canais
     Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
     É para atender
     Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
     — Os sangüíneos poentes
     Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
     E em seu ouro os tece;
     O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

 

Charles Baudelaire

Dezembro 19, 2006

Perfume Exótico

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 4:44 am

Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

 

Charles Baudelaire

Agosto 2, 2006

Embriaguem-se

Arquivado em: Charles Baudelaire — kavorka @ 1:55 pm

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vega, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:

“É hora de embriagar-se”! Para “não serem os escravos martirizados do tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso” Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Charles Baudelaire

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