Obscured By Clouds

Setembro 28, 2008

A Flor do Sonho

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 1:31 am

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim! …
Milagre… fantasia… ou, talvez, sina…

Ó flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

Florbela Espanca

Setembro 11, 2008

A minha dor

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 1:39 am

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve…ninguém vê…ninguém…

Florbela Espanca

Setembro 9, 2008

À morte

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 1:33 am

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera… quebra-me o encanto!

Florbela Espanca

Agosto 29, 2008

Ser Poeta

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 2:08 am
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além-Dor
É ter de mil desejos o explendor,
E não saber sequer quem os deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor
É ter fome, é ter sede de infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!
É amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim,
E dizê-lo cantando a toda a gente.

 

Florbela Espanca

Agosto 24, 2008

O meu impossível

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 1:21 am

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!…

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!… Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto…

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!…

Florbela Espanca

Agosto 10, 2008

Amor que morre

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 1:09 am

O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!

Florbela Espanca

Agosto 7, 2008

Desejos vãos

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 12:51 am

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu queria ser a Árvore tosca e tensa

Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Florbela Espanca

Julho 27, 2008

A MINHA DOR

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 12:16 am

A você

A minha dor é um convento ideal

Cheio de claustros, sombras, arcarias,

Aonde a pedra em convulsões sombrias

Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres d´agonias

Ao gemer, comovidos, o seu mal…

E todos têm sons de funeral

Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha dor é um convento. Há lírios

Dum roxo macerado de martírios,

Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,

Noites e dias rezo e grito e choro!

E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…

Florbela Espanca

Julho 22, 2008

Nosso Livro

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 1:09 am

livro do meu amor, do teu amor
livro do nosso amor, do nosso peito…
abre-lhe as folhas devagar, com jeito
como se fossem petalas de flor

olha que eu outro ja nao sei compor
mais santamente triste,mais perfeito
nao esfolhes os lirios com que e feito
que outros nao ten ho em meu jardim de dor!

livro de mais ninguem! so me u! so teu!
num sorriso tu dizes e eu digo:
versos so nossos mais que lindos sois!

ah, meu amor! mas qua nta, quanta gente
dira,fechando o livro docemente:
" versos so nossos, so de nos dois!…"

Florbela Espanca

Julho 20, 2008

Exaltação

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 1:07 am

Viver!…Beber o vento e o sol!…Erguer
Ao Céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braç os pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!…
Asas sem pre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender! …
A glória!…A fama!…O orgulho de cr iar!…

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos extáticos, pagãos!..

Trago na boca o coração dos cravos!
Boêmios, vagabundos, e poetas:

Como eu sou vossa Irmã , ó meus Irmãos!…

Florbela Espanca

Julho 16, 2008

Poetas

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 3:35 am

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

Flobela Espanca

Julho 7, 2008

Em busca do Amor

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 2:46 am
O meu destino disse-me a chorar:
Pela estrada da vida vai andando
E, aos que vires, interrogando
Acerca do amor, que há de encontrar

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfiando…
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando.. .

Mesmo a um velho eu perguntei: "Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?"
E o velho estremeceu.. . olhou… e riu…

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados…
E eu paro a murmurar: "Ninguém o viu!…

Florbela Espanca
 

Julho 5, 2008

A Flor do Sonho

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 2:35 am

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou, talvez, sina…

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa de minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

Florbela Espanca

Junho 20, 2008

Tortura

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 12:31 am

 

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!

.

Florbela Espanca

Junho 15, 2008

Teus Olhos

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 7:03 pm

 

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas…
Enigmáticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…

Berço vindo do Céu à minha porta…
Ó meu leito de núpcias irreais!…
Meu sumptuoso túmulo de morta!…

.

Florbela Espanca

Junho 10, 2008

Súplica

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 2:45 am

“Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Deita em meu colo, deita e adormece!
Tenho um manto real de negras trevas

Feito de fios brilhantes d’astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!
Os meus braços são brancos como o linho

Quando os cerro de leve, docemente…
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente!…

Vem para mim, amor… Ai não desprezes
A minha adoração de escrava….
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!… “


Florbela Espanca

Junho 4, 2008

ANSEIOS

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:09 am

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!…
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbre o brilho do luar!

Não ´stendas tuas asas para o longe…
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar!…

 

Florbela Espanca

Maio 19, 2008

Inconstância

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:31 am

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo

É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…

 

Florbela Espanca

  

Maio 14, 2008

Como este poema chega a alma.

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:07 am

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar…e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol!
– Águia real, apontas-me a subida!

 

Florbela Espanca

 

Maio 9, 2008

Passeio no Campo

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:31 am

Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, amor, a cinta esbelta e fina…
Pele dourada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…
- Vamos correr e rir por entre o trigo!

Há rendas de gramíneas pelos montes…
Papoulas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…

E à volta, amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras…

Florbela Espanca

Maio 2, 2008

Amar!

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:01 am

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui…além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!…
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

Março 18, 2008

Voz que se cala

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:34 am

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!…

 

Florbela Espanca

Março 15, 2008

Amor que morre

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 2:55 am

O nosso amor morreu… Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre… e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!

 

Florbela Espanca

Fevereiro 17, 2008

Nihil novum

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:00 am

Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egito com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado…

Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,

Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida ? o mesmo estranho mal,
E o coração ? a mesma chaga aberta!

Florbela Espanca

Fevereiro 7, 2008

Mentiras

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 12:21 am
 

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?

Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

 

Florbela Espanca

Janeiro 26, 2008

Saudades

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:51 am

Saudades! Sim… Talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

 

Florbela Espanca

 

Janeiro 22, 2008

A Vida

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:05 am

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento…
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre… desfaz-se…
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida…

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!

Florbela Espanca

 

Dezembro 27, 2007

Desejo

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 11:33 pm

Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade!

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do não ser,
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater!

Que seja a tua mão tão branda como a neve
Que feche o meu olhar numa carícia leve
Em doce perpassar de pétala de lis…

Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!

Ah, venha a morte já que eu morrerei feliz!…

 

Florbela Espanca

Dezembro 19, 2007

Tarde demais -

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:14 am

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E pra o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar…

Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar;
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia d’oiro dos desertos
Procura-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu fui nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
“Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!…”

 

Floberla Espanca

Dezembro 9, 2007

Desejos vãos

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:36 am

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a Árvore tosca e tensa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol, altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

 

Florbela Espanca

Dezembro 8, 2007

O meu mundo não

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:17 am

O meu mundo não é como o dos outros,

quero demais,

exijo demais,

há em mim uma sede de infinito,

uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo,

pois estou longe de ser uma pessimista;

sou antes uma exaltada,

com uma alma intensa,

violenta, atormentada,

uma alma que não se sente bem onde está,

que tem saudades…sei lá de quê!”

Florbela Espanca,

Carta no. 147, volume V, Lisboa, junho de 1930

Dezembro 4, 2007

Canção Grata

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:19 am

Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca

Noites de insônia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada
Aquela tão doce

e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui

Sem ironia aceita
A minha gratidão
Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste

Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais

Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Florbela Espanca

Novembro 30, 2007

Escreve-me …

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:36 am

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!”Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então…brandas…serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…


Florbela Espanca

Novembro 26, 2007

O meu impossível

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 3:37 am

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!…

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!… Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto…

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!…

 

Florbela Espanca

Novembro 24, 2007

Tarde Demais…

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:15 am
 

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar…

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!…

Florbela Espanca

Novembro 15, 2007

Saudades

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:19 am

Saudades! Sim… talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

 

Florbela Espanca

Novembro 13, 2007

Escreve-me

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:34 am

“Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!”Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então…brandas…serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…”


Florbela Espanca

 

Setembro 28, 2007

A nossa casa

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 9:10 pm

A nossa casa, Amor, a nossa casa!

Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti

E tu, ó meu Amor, dentro de mim…

 

Florbela Espanca

Setembro 23, 2007

Um Poema de Amor para Domingo

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:30 pm

 

O Nosso Mundo

 

“Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu Amor, quer vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…”

 

Florbela Espanca

Setembro 21, 2007

A maior tortura

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:33 pm

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia…
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia!…
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior.
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha dor!…

Florbela Espanca

Setembro 12, 2007

Volúpia

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:57 pm

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A núvem que arrastou o vento norte…
— Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Florbela Espanca

Setembro 7, 2007

Versos de Orgulho

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 6:30 am

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu reino fica para além…
Porque trago no olhar os vastos céus…
E os ouros e clarões são todos meus!
Porque eu sou Eu e Eu sou alguém!

O mundo? O que é o mundo, meu Amor?
- O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
- São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o infinito…

 

Florbela Espanca

Setembro 4, 2007

Se tu Viesses Ver-me hoje à tardinha

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:38 am

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus barcos…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

Florbela Espanca

 

Julho 26, 2007

Lágrimas ocultas

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 7:06 pm

Se me ponho a cismar em outras eras
em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

Julho 10, 2007

Amiga

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:21 am

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa, a mim?!  O que quiseres
É sempre um sonho bom!  Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves, cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!…Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!…

Florbela Espanca

Junho 27, 2007

Saudades

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:04 am

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?…
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

 

Florbela Espanca

Junho 24, 2007

Um Domingo de Amor e Dor

Arquivado em: Florbela, Quintana — kavorka @ 11:17 pm

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos…

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

as folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo…

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida…

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato…

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

 

Mario Quintana

 

Disfarce

 

Tento disfarçar a minha dor
com uma face, não se enxerga
só eu vejo o sentimento
que sufoca meu coração,

entristece minha alma
e perturba minha mente
por dentro eu grito e choro como
uma criança sendo torturada,
mas por fora sou uma simples pessoa
tentando desfarçar a realidade que vive,
e disfarço tão bem que poucos percebem.

Florabela Espanca

Junho 6, 2007

Os teus olhos

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:32 am

 

O céu azul, não era
Dessa cor, antigamente;
Era branco como um lírio,
Ou como estrela cadente.

Um dia, fez Deus uns olhos
Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.

Quando sentiu esse olhar:
“Que doçura de primor!”
Disse o céu, e ciumento,
Tornou-se da mesma cor!

 

Florbela Espanca

Maio 29, 2007

Doce certeza

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 4:03 am

Por essa vida afora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em minha boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d’oiro e risos de mulher,
Muito beijo d’amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim querer!…

Hás de tecer uns sonhos delicados…
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!…

Mas nunca encontrarás p’la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d’amor, que são meus versos!

Florbela Espanca

Maio 18, 2007

O meu desejo

Arquivado em: Florbela — kavorka @ 5:11 am

Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua…
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!

 

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus…
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

 

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo…

 

Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, Amor, devagarinho,
Até a Morte me levar consigo…

 

Florbela Espanca

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