Obscured By Clouds

Agosto 19, 2008

Com Lento Amor

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 2:27 am

Com lento amor olhava os dispersos
Tons da tarde. A ela comprazia
Perder-se na complexa melodia
Ou na curiosa vida dos versos.

Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado,
Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.

Sem se atrever a andar neste perplexo
Labirinto, olhava lá de fora
As formas, o tumulto e a carreira,

Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.

Jorge Luis Borges

 

Agosto 16, 2008

Bem no fundo do sonho estão os sonhos

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 12:18 am

Bem no fundo do sonho estão os sonhos. A cada
Noite quero perder-me nas águas obscuras
Que lavam o dia, mas sob essas puras
Águas que nos concedem o penúltimo Nada
Pulsa na hora cinza o obsceno portento.
Pode ser um espelho com meu rosto distinto,
Pode ser a crescente prisão de um labirinto
Ou um jardim. O pesadelo sempre atento.
Seu horror não é deste mundo. Causa inominada
Alcança-me desde ontem de mito e de neblina;
A imagem detestada perdura na retina
A infama a vigília como a sombra infamada.
Por que brota de mim, quando o corpo repousa
E a alma fica só, esta insensata rosa?

Jorge Luis Borges

 

Julho 11, 2008

A Chuva

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 1:56 am

A tarde bruscamente se aclarou,
porque já cai a chuva minuciosa.
Cai e caiu. A chuva é só uma coisa
que o passado por certo freqüentou.

Quem a escuta cair já recobrou
o tempo em que a fortuna venturosa
uma flor lhe mostrou chamada rosa
e a cor bizarra do que cor tomou.

Esta chuva que treme sobre os vidros
alegrará nuns arrabaldes idos
as negras uvas de uma parra em horto

que não existe mais. A umedecida
tarde me traz a voz, a voz querida
de meu pai que retorna e não é morto.

 

 

Jorge Luis Borges

Julho 8, 2008

Simplicidade

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:16 am

Abre-se a grade no jardim
com a docilidade da página
que uma devoção freqüente interroga
e lá dentro o olhar
não precisa se fixar nos objetos,
que já estão firmemente na memória.
Conheço os costumes e conheço as almas
e esse dialeto de alusões
que todo grupo humano vai urdindo.
Não preciso falar
nem fingir privilégios;
os que me rodeiam me conhecem bem,
a as minhas mágoas e fragilidades.
Isto, sim, é chegar ao ponto mais alto,
o que talvez traga o Céu:
não as admirações ou as vitórias,
mas simplesmente sermos recebidos
como parte de uma Realidade inegável
como as pedras e as árvores.

Jorge Luis Borges

Junho 29, 2008

Despedida

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 2:44 am

Entre mim e o meu amor hão de se erguer
trezentas noites como trezentas paredes
e o mar será magia entre nós dois.
Nada haverá, senão lembranças.
Oh tardes que valeram a pena,
noites esperançosas de te ver,
campos de meu caminho, firmamento
que estou vendo e perdendo…
Definitiva como o mármore,
tua ausência entristecerá outras tardes.


Jorge Luis Borges

 

Junho 17, 2008

Ajedrez - I

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 3:58 am

En su grave rincón, los jugadores
Rigen las lentas piezas. El tablero
Los demora hasta el alba en su severo
Ámbito en que se odian dos colores.

Adentro irradian mágicos rigores
Las formas: torre homérica, ligero
Caballo, armada reina, rey postrero,
Oblicuo alfil y peones agresores.

Cuando los jugadores se hayan ido
Cuando el tiempo los haya consumido,

Ciertamente no habrá cesado el rito.
En el oriente se encendió esta guerra
Cuyo anfiteatro es hoy toda la tierra,
Como el otro, este juego es infinito.

 

Jorge Luis Borges

Maio 31, 2008

La Dicha

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:16 am

El que abraza a una mujer es Adán. La mujer es Eva.
Todo sucede por primera vez.
He visto una cosa blanca en el cielo. Me dicen que es la luna,
pero qué puedo hacer con una palabra y con una mitología.
Los árboles me dan un poco de miedo. Son tan hermosos.
Los tranquilos animales se acercan para que yo les diga su nombre.
Los libros de la biblioteca no tienen letras. Cuando los abro surgen.
Al hojear el atlas proyecto la forma de Sumatra.
El que prende un fósforo en el oscuro está inventando el fuego.
En el espejo hay otro que acecha.
El que mira el mar ve a Inglaterra.
El que profiere un verso de Liliencron ha entrado en la batalla.
He soñado a Cartago y a las legiones que desolaron a Cartago.
He soñado la espada y la balanza.
Loado sea el amor en el que no hay poseedor ni poseída, pero los dos se entregan.
Loada sea la pesadilla, que nos revela que podemos crear el infierno.
El que desciende a un río desciende al Ganges.
El que mira un reloj de arena ve la disolución de un imperio.
El que juega con un puñal presagia la muerte de César.
El que duerme es todos los hombres.
En el desierto vi la joven Esfinge que acaban de labrar.
Nada hay tan antiguo bajo el sol.
Todo sucede por primera vez, pero de un modo eterno.
El que lee mis palabras está inventándolas.

 

Jorge Luis Borges

 

Maio 16, 2008

A Felicidade

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 5:52 am

Aquele que abraça uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece pela primeira vez.
Vi uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua, mas que posso eu fazer com uma palavra e uma mitologia.
As árvores metem-me um pouco de medo. São tão belas.
Os tranquilos animais aproximam-se para que eu lhes diga o seu nome.
Os livros da biblioteca não têm letras. Quando os abro irrompem.
Ao folhear o atlas projecto a forma de Samatra.
Aquele que acende um fósforo no escuro está a inventar o fogo.
No espelho há um outro que espreita.
Aquele que olha o mar vê Inglaterra.
Aquele que profere um verso de Liliencron já entrou na batalha.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei a espada e a balança.
Louvado seja o amor em que não há possuidor nem possuída, mas em que ambos se entregam.
Louvado seja o pesadelo, que nos revela que podemos criar o inferno.
Aquele que desce um rio desce o Ganges.
Aquele que contempla uma ampulheta vê a dissolução de um império.
Aquele que brinca com um punhal pressagia a morte de César.
Aquele que dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge, que acabam de construir.
Não há nada tão antigo sob o sol.
Tudo acontece pela primeira vez, mas de maneira eterna.
Aquele que lê as minhas palavras está a inventá-las.

 

Jorge Luis Borges

Março 15, 2008

Ausencia

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 2:53 am

 

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.

Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.

¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?

Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

Jorge Luis Borges

 

Dezembro 13, 2007

Las ruinas circulares

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 5:06 am

Jorge Luis Borges

 

Nadie lo vio desembarcar en la unánime noche, nadie vio la canoa de bambú sumiéndose en el fango sagrado, pero a los pocos días nadie ignoraba que el hombre taciturno venía del Sur y que su patria era una de las infinitas aldeas que están aguas arriba, en el flanco violento de la montaña, donde el idioma zend no está contaminado de griego y donde es infrecuente la lepra. Lo cierto es que el hombre gris besó el fango, repechó la ribera sin apartar (probablemente, sin sentir) las cortaderas que le dilaceraban las carnes y se arrastró, mareado y ensangrentado, hasta el recinto circular que corona un tigre o caballo de piedra, que tuvo alguna vez el color del fuego y ahora el de la ceniza….Leia o conto todo aqui…

Setembro 15, 2007

Y Uno Aprende

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 12:46 am

Después de un tiempo,
uno aprende la sutil diferencia
entre sostener una mano
y encadenar un alma,
y uno aprende
que el amor no significa acostarse
y una compañía no significa seguridad
y uno empieza a aprender…
Que los besos no son contratos
y los regalos no son promesas
y uno empieza a aceptar sus derrotas
con la cabeza alta y los ojos abiertos
y uno aprende a construir
todos sus caminos en el hoy,
porque el terreno del mañana
es demasiado inseguro para planes…
y los futuros tienen una forma de caerse
en la mitad.
Y después de un tiempo
uno aprende que si es demasiado,
hasta el calorcito del sol quema.
Así que uno planta su propio jardín
y decora su propia alma,
en lugar de esperar a que alguien le traiga flores.
Y uno aprende que realmente puede aguantar,
que uno realmente es fuerte,
que uno realmente vale,
y uno aprende y aprende…
y con cada día uno aprende.

 

Jorge Luis Borges

 

 

E Aprendemos

Após um tempo,
Aprendemos a diferença subtil
Entre segurar uma mão
E acorrentar uma alma,
E aprendemos
Que o amor não significa deitar-se
E uma companhia não significa segurança
E começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
E os presentes não são promessas
E começamos a aceitar as derrotas
De cabeca levantada e os olhos abertos
Aprendemos a construir
Todos os seus caminhos de hoje,
Porque a terra amanhã
É demasiado incerta para planos…
E os futuros têm um forma de ficarem
Pela metade.
E depois de um tempo
Aprendemos que se for demasiado,
Até um calorzinho do sol queima.
Assim plantamos nosso próprio jardim
E decoramos nossa própria alma,
Em vez de esperarmos que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
Que somos realmente fortes,
Que valemos realmente a pena,
E aprendemos e aprendemos…
E em cada dia aprendemos.

Julho 6, 2007

Ya No Seré Feliz

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:32 am

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
y diverso que el mar. La vida es corta

y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha,
la muerte, ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna

y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.

Sólo que me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.

 

Jorge Luis Borges

Junho 29, 2007

Dime

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:53 am

Dime por favor donde estás,
en que rincón puedo no verte,
dónde puedo dormir sin recordarte
y dónde recordar sin que me duela.

Dime por favor dónde pueda caminar
sin ver tus huellas,
dónde puedo correr sin recordarte
y dónde descansar con mi tristeza.

Dime por favor cuál es el cielo
que no tiene el calor de tu mirada
y cuál es el sol que tiene luz tan sólo
y no la sensación de que me llamas.

Dime por favor cuál es el rincón
en el que no dejaste tu presencia.
Dime por favor cual es el hueco de mi almohada
que no tiene escondidos tus recuerdos.

Dime por favor cuál es la noche
en que no vendrás para velar mis sueños…
Que no puedo vivir porque te extraño
y no puedo morir porque te quiero.

 

Jorge Luis Borges

Junho 21, 2007

Despedida

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:30 am

Entre mi amor y yo han de levantarse
trescientas noches como trescientas paredes
y el mar será una magia entre nosotros.

No habrá sino recuerdos.
Oh tardes merecidas por la pena,
noches esperanzadas de mirarte,
campos de mi camino, firmamento
que estoy viendo y perdiendo…


Definitiva como un mármol
entristecerá tu ausencia otras tardes.

 

Jorge Luis Borges

Junho 15, 2007

Ausencia

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 5:13 am

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

 

Jorge Luis Borges

Abril 18, 2007

El Cómplice

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 5:08 am

Me crucifican y yo debo ser la cruz y los clavos.
Me tienden la copa y yo debo ser la cicuta.
Me engañan y yo debo ser la mentira.
Me incendian y yo debo ser el infierno.
Debo alabar y agradecer cada instante del tiempo.
Mi alimento es todas las cosas.
El peso preciso del universo, la humillación, el júbilo.
Debo justificar lo que me hiere.
No importa mi ventura o mi desventura.
Soy el poeta

 

Jorge Luis Borges

Março 8, 2007

Ausencia

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 6:49 am

 

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

 

Jorge Luis Borges, 1923

Fevereiro 23, 2007

Cristo em La Cruz

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:43 am

 

Cristo en la cruz. Los pies tocan la tierra.
Los tres maderos son de igual altura.
Cristo no está en el medio. Es el tercero.
La negra barba pende sobre el pecho.
El rostro no es el rostro de las láminas.
Es áspero y judío. No lo veo
y seguiré buscándolo hasta el día
último de mis pasos por la tierra.
El hombre quebrantado sufre y calla.
La corona de espinas lo lastima.
No lo alcanza la befa de la plebe
que ha visto su agonía tantas veces.
La suya o la de otro. Da lo mismo.
Cristo en la cruz. Desordenadamente
piensa en el reino que tal vez lo espera,
piensa en una mujer que no fue suya.
No le está dado ver la teología,
la indescifrable Trinidad, los gnósticos,
las catedrales, la navaja de Occam,
la púrpura, la mitra, la liturgia,
la conversión de Guthrum por la espada,
la Inquisición, la sangre de los mártires,
las atroces Cruzadas, Juana de Arco,
el Vaticano que bendice ejércitos.
Sabe que no es un dios y que es un hombre
que muere con el día. No le importa.
Le importa el duro hierro de los clavos.
No es un romano. No es un griego. Gime.
Nos ha dejado espléndidas metáforas
y una doctrina del perdón que puede
anular el pasado. (Esa sentencia
la escribió un irlandés en una cárcel.)
El alma busca el fin, apresurada.
Ha oscurecido un poco. Ya se ha muerto.
Anda una mosca por la carne quieta.
¿De qué puede servirme que aquel hombre
haya sufrido, si yo sufro ahora?

 

Jorge Luis Borges

Fevereiro 16, 2007

Buenos Aires

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:55 am

 

Antes yo te buscaba en tus confines
que lindan con la tarde y la llanura
y en la verja que guarda una frescura
antigua de cedrones y jazmines.

 

En la memoria de Palermo estabas,
en su mitología de un pasado
de baraja y puñal y en el dorado
bronce de las inútiles aldabas,

 

con su mano y sortija. Te sentía
en los patios del Sur y en la creciente
sombra que desdibuja lentamente

 

su larga recta, al declinar el día.
Ahora estás en mí. Eres mi vaga
suerte, esas cosas que la muerte apaga.

 

Jorge Luis Borges

Fevereiro 14, 2007

Mi Vida Entera

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:19 am

Aqui otra vez, los labios memorables, unico y
semejante a vosotros.
Soy esa torpe intensidad que es un alma.
He persistido en la aproximacion de la dicha y
en la privanza del pesar.
He atravesado el mar.
He conocido muchas tierras; he visto una mujer
y dos o tres hombres.
He querido a una nina altiva y blanca y de una
hispanica quietud.
He visto un arrabal infinito donde se cumple una
insaciada inmortalidad de ponientes.
He paladeado numerosas palabras.
Creo profundamente que eso es todo y que ni veré
ni ejecutaré cosas nuevas.
Creo que mis jornadas y mis noches se igualan en
pobreza y en riqueza a las de Dios y a las
de todos los hombres.

 

Jorge Luis Borges

Janeiro 18, 2007

El Paseo de Julio

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:33 am

Juro que no por deliberación he vuelto a la calle
de alta recova repetida como un espejo,
de parrillas con la trenza de carne de los Corrales,
de prostitución encubierta por lo más distinto: la música.

 

Puerto mutilado sin mar, encajonada racha salobre,
resaca que te adheriste a la tierra: Paseo de Julio,
aunque recuerdos míos, antiguos hasta la ternura, te saben,
nunca te sentí patria.

 

Sólo poseo de ti una deslumbrada ignorancia,
una insegura propiedad como la de los pájaros en el aire,
pero mi verso es de interrogación y de prueba
y para obedecer lo entrevisto.

 

Barrio con lucidez de pesadilla al pie de los otros,
tus espejos curvos denuncian el lado de fealdad de las caras,
tu noche calentada en lupanares pende de la ciudad.

 

Eres la perdición fraguándose un mundo
con los reflejos y las deformaciones de éste;
sufres de caos, adoleces de irrealidad,
te empeñas en jugar con naipes raspados a la vida;
tu alcohol mueve peleas,
tus griegas manosean envidiosos libros de magia.

 

¿Será porque el infierno es vacío
que es espuria tu misma fauna de monstruos
y la sirena prometida por ese cartel es muerta y de cera?

 

Tienes la inocencia terrible
de la resignación, del amanecer, del conocimiento,
por los días del destino
y que ya blanco de muchas luces, ya nadie,
sólo codicia lo presente, lo actual, como los hombres viejos.

 

Detrás de los paredones de mi suburbio, los duros carros
rezarán con varas en alto a su imposible dios de hierro y de polvo,
pero, ¿qué dios , que ídolo, que veneración la tuya, Paseo de Julio?

 

Ti vida pacta con la muerte;
toda felicidad, con sólo existir, te es adversa.

 

Jorge Luis Borges

Dezembro 23, 2006

Uma oração

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 3:58 pm

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.
Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

 

Jorge Luis Borges

Dezembro 5, 2006

Aqui hoje

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 2:34 pm

Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.

 

Jorge Luis Borges

Novembro 9, 2006

O Elogio da sombra

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 3:53 am

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)

pode ser o tempo de nossa felicidade.

O animal morreu ou quase morreu.

Restam o homem e sua alma.

Vivo entre formas luminosas e vagas

que não são ainda a escuridão.

Buenos Aires,que antes se espalhava em subúrbio

sem direção à planície incessante,

voltou a ser La Recoleta, o Retiro,as imprecisas ruas do Once

e as precárias casas velhas

que ainda chamamos o Sul.

Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;

Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;

o tempo foi meu Demócrito.

Esta penumbra é lenta e não dói;f

lui por um manso declive

e se parece à eternidade.

Meus amigos não têm rosto,

as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,

as esquinas podem ser outras,

não há letras nas páginas dos livros.

Tudo isso deveria atemorizar-me,

mas é um deleite, um retorno.

Das gerações dos textos que há na terra

só terei lido uns poucos,

os que continuo lendo na memória,

lendo e transformando.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte

convergem os caminhos que me trouxeram

a meu secreto centro.

Esses caminhos foram ecos e passos,

mulheres, homens, agonias, ressurreições, dias e noites,

entressonhos e sonhos, cada ínfimo instante do ontem

e dos ontens do mundo, a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,

os atos dos mortos, o compartilhado amor, as palavras,

Emerson e a neve e tantas coisas.

Agora posso esquecê-las.

Chego a meu centro,a minha álgebra e minha chave,a meu espelho.

Breve saberei quem sou.      

Jorge Luis Borges

Setembro 5, 2006

A Felicidade

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 5:06 am

O que abraça a uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece por primeira vez.
Hei visto uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua,
mas
que posso fazer com uma palavra e com uma mitologia.
As árvores me dão um pouco de medo. São tão formosas.
Os tranqüilos animais se aproximam para que eu lhes diga seu
nome.
Os livros da biblioteca não têm letras. Quando os abro
surgem.
Ao folhear o atlas projeto a forma de Sumatra.
O que ascende um fósforo no escuro está inventando o
fogo.
No espelho há outro que está à espreita.
O que olha o mar vê à Inglaterra.
O que profere um verso de Liliencron há entrado na
batalha.
Hei sonhado a Cartago e as legiões que desolaram a
Cartago.
Hei sonhado a espada e a balança.
Louvado seja o amor no qual não há possuidor nem possuída,
mas os dois se entregam.
Louvado seja o pesadelo, que nos revela que podemos criar o
inferno.
O que descende a um rio descende ao Ganges.
O que olha um relógio de areia vê a dissolução de um império.
O que joga com um punhal pressagia a morte de César.
O que dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge que acabam de lavrar.
Nada há tão antigo baixo o sol.
Tudo acontece por primeira vez, mas de um modo eterno.
O que lê minhas palavras está inventando-as.

 

Jorge Luis Borges

Setembro 2, 2006

Com lento Amor

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:28 am

Com lento amor olhava os dispersos

Tons da tarde. A ela comprazia

Perder-se na complexa melodia

Ou na curiosa vida dos versos.

 

Não o rubro elemental mas os cinzentos

Fiaram seu destino delicado,

Feito a discriminar e exercitado

Na vacilação e nos matizes.

 

Sem se atrever a andar neste perplexo

Labirinto, olhava lá de fora

As formas, o tumulto e a carreira,

 

Como aquela outra dama do espelho.

Deuses que habitam para lá do rogo

Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.

 

Jorge Luis Borges

Maio 13, 2006

As coisas

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 10:17 pm

Jorge Luis Borges

A bengala, as moedas, o chaveiro,

A dócil fechadura, as tardias

Notas que não lerão os poucos dias

Que me restam, os naipes e o tabuleiro.

Um livro e em suas páginas a seca

Violeta, monumento de uma tarde

Sem dúvida inesquecível e já esquecida,

O rubro espelho ocidental em que arde

Uma ilusória aurora. Quantas coisas,

Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,

Nos servem como tácitos escravos,

Cegas e estranhamente sigilosas!

Durarão para além de nosso esquecimento;

Nunca saberão que nos fomos num momento.

Abril 14, 2006

O Nosso

Arquivado em: Jorge Luis Borges — kavorka @ 4:49 am

Amamos o que não conhecemos, o já perdido.

O bairro que já foi arredores

Os antigos que não nos decepcionaram mais

porque são mito e esplendor.

Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.

A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.

O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.

Os mais velhos com quem não conseguiríamos

conversar durante um quarto de hora.

As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.

Os idiomas que mal deciframos.

Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.

Os amigos que não podem faltar porque já morreram.

O ilimitado nome de Shakespeare.

A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.

O xadrez e a álgebra, que não sei.

Jorge Luis Borges 

 

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