Obscured By Clouds

Junho 24, 2008

“A cada bela impressão que causamos…

Arquivado em: Oscar Wilde — kavorka @ 1:00 am

“A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é imprescindívelvel ser medíocre.” (Oscar Wilde)

Fevereiro 3, 2008

A lenda de Narciso - Por

Arquivado em: Oscar Wilde — @ 5:05 am

Quando Narciso morreu, vieram as Oréiades - deusas do bosque - e viram o lago transformado, de um lago de água doce, num cântaro de lágrimas salgadas.      
- Porque você chora? - perguntaram as Oréiades.
- Choro por Narciso - disse o lago.      
- Ah, não nos espanta que você chore por Narciso - continuaram elas.
- Afinal de contas, apesar de todas nós sempre corrermos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza.
- Mas Narciso era belo? - perguntou o lago.
- Quem mais do que você poderia saber disso ? - responderam, surpresas, as Oréiades.
- Afinal de contas, era em suas margens que ele se debruçava todos os dias.
O lago ficou algum tempo quieto. Por fim, disse:      
- Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que Narciso era belo.      
” Choro por Narciso porque, todas as vezes que ele se deitava sobre minhas margens eu podia ver, no fundo dos seus olhos, minha própria beleza refletida”.

 

Oscar Wilde.

Maio 15, 2007

O Mestre

Arquivado em: Oscar Wilde — kavorka @ 5:28 am

Quando as trevas começaram a cair sobre a Terra, José de Arimatéia acendeu uma tocha de pinheiro e desceu da colina para o vale. Tinha o que fazer em casa. E ajoelhando-se sobre as pedras do vale da Desolação, viu um jovem que estava nu e chorava. Seus cabelos eram da cor do mel e seu corpo tão branco como uma flor. Mas ferira o corpo nos espinhos e sobre os cabelos pusera cinzas, à guisa de coroa.

E José, que possuía grandes virtudes, disse ao jovem que se encontrava nu e chorava:

- Não me admira que o teu sentimento seja tão grande, porque, realmente, Ele foi um homem justo.

E o jovem respondeu:

- Não é por Ele que eu choro, mas por mim mesmo. Eu também mudei a água em vinho, curei o leproso e restituía a vista ao cego. Andei sobre as águas e das profundezas dos sepulcros expulsei demônios. Alimentei os famintos no deserto, onde não havia comida; ergui os mortos dos leitos exíguos e à minha ordem, diante de imensa multidão, uma figueira seca novamente frutificou. Tudo que esse homem realizou eu também realizei e, todavia, não me crucificaram.

 

Oscar Wilde

Junho 20, 2006

A Atriz

Arquivado em: Oscar Wilde — kavorka @ 12:59 pm

Existiu outrora uma grande atriz. Uma mulher que alcançara tamanhos triunfos que todo o mundo da arte a adorava, curvado a seus pés. 

O incenso da adoração perfumara-lhe a vida por muitos anos e vedara-lhe os olhos para as outras coisas, de sorte que ela a nada mais aspirava. 

Não obstante, chegou o dia em que conheceu um homem, a quem amou com toda a força da alma. Então sua arte, seus triunfos e as nuvens de incenso nada mais significaram para ela - o amor era toda a sua vida. Mas embora pensasse assim, o homem que ela amava tornou-se ciumento - ciumento do público que não mais lhe interessava. 

Pediu-lhe que desistisse da sua carreira e abandonasse o palco para sempre. Ela acedeu sem resistência, e disse: 

- O amor é melhor do que a arte, melhor do que a fama, melhor do que a própria vida. 

E logo abandonou alegremente o palco e todos os triunfos para dedicar sua vida ao homem que amava. 

O tempo transcorreu, o amor do homem começou rapidamente a diminuir e a mulher que tudo havia sacrificado por ele perecebeu-o; a certeza disso caiu-lhe n`alma como a neblina fria do entardecer, envolvendo-a da cabeça aos pés numa mortalha de desespero. Tratava-se, porém, de uma mulher corajosa, decidida, e embora com a mágoa estampada no rosto, não se deixou abater. Compreendeu que teria de sobrepujar a crise da sua vida, a crise da qual dependia o seu destino. 

Com perspicácia e cruel clarividência, sentiu a realidade que lhe despedaçava o coração. Sacrificara a carreira ao seu amor e agora este amor lhe fugia. Se não encontrasse meios para reanimar a chama que bruxuelava e breve se apagaria totalmente, se conservaria solitária em meio aos escombros de sua vida arruinada. 

E a mulher, que fora uma grande atriz, percebera que a sua arte, em vez de ser-lhe um estímulo ou uma inspiração nesta fase penosa da vida, demonstrara o contrário - era desvantagem e obstáculo. Alheara-se da orientação dos diretores de cena e das idéias e conselhos dos autores. Até então nada fizera sem eles - cada pensamento, cada entonação de voz e, mesmo, cada gesto era-lhe sugerido, pois esta é a arte do ator. E, agora, quando se via obrigada a pensar, criar e agir por si mesma, sentia-se desamparada, sem recursos, como uma criança repentinamente às voltas com um grande problema. Mas à medida que os dias se passavam, impunha-se cada vez mais ação pronta e enérgica. 

Um dia, quando andava de um lado para o outro, com o gérmen selvagem do desespero crescendo-lhe no íntimo a cada minuto que passava, um homem foi vê-la. Ele fora empresário do teatro onde ela trabalhara. Viera pedir-lhe que representasse numa nova peça. Ela recusou. Que iria fazer no palco com essa arte falsa que transforma aqueles que a praticam em fantoches, fantoches irremediáveis, movidos por cordéis manejados pelas mãos dos autores e diretores de cena? 

Agora ela se encontrava face a face com a verdadeira tragédia da vida, ao lado da qual todas as falsas tristezas do palco nada mais eram senão lantejoulas e bambinelas. Contudo, o empresário insistiu, dizendo-lhe que a oferta significava dinheiro para ele, zumbindo-lhe em torno com a persistência de uma mosca no outono, que não quer ser enxotada. 

Não quereria pelo menos ler a peça? Para livar-se dele, leu-a, e reconheceu que a tragédia impressa era a tragédia da sua própria vida. A mesma situação: o problema estava resolvido. 

O destino viera em auxílio da atriz numa peça teatral. Ela devia representá-la dominando inteiramente cada detalhe do enredo. Estudou, então, a parte que lhe competia e a representou para um grande auditório. Atuou com fervor do gênio que jamais ultrapassara durante a sua carreira e o aplauso que retumbou de todos os lados foi a homenagem irresistível tributada pelos espíritos e corações dos homens àqueles que possuem gênio. 

Quando tudo chegou ao fim, ela voltou para casa fatigada e um tanto surpresa com os gritos e aplausos da multidão ainda lhe ressoando nos ouvidos. Dera-lhe o máximo, pusera-lhe aos pés o poder e a maravilha da sua alma. Tudo que lhe restava agora era um sentimento de impotência e fragilidade. Chegara à casa entristecida e carregada de flores. Repentinamente, observou que havia dois pratos na mesa preparada para a ceia e lembrou-se de que, nesta noite, fora resolvido o seu destino. Esquecera-o até então. Naquele momento o homem que ela amara entrou, indagando: 

- Cheguei na hora? 

Ela olhou para o relógio, e respondeu: 

- Chegaste na hora, mas demasiadamente tarde.

Oscar Wilde

Junho 15, 2006

Soneto a Liberdade

Arquivado em: Oscar Wilde — kavorka @ 1:37 pm

Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso 

Somente vê a própria e repugnante dor, 

Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada 

É que, com seu rugir, tuas Democracias, 

Teus reinos de Terror e grandes Anarquias 

Refletem meus afãs extremos como o mar, 

Dando-me Liberdade! -à cólera uma irmã. 

Minha alma circunspeta gosta de teus gritos 

Confusos só por causa disso: do contrário, 

Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros 

Roubavam às nações seus sagrados direitos, 

Deixando-me impassível e ainda, ainda assim, 

Esses Cristos que morrem sobre as barricadas, 

Deus sabe que os apóio ao menos parcialmente. 

Oscar Wilde

Abril 28, 2006

A Balada do Cárcere de Reading

Arquivado em: Oscar Wilde — kavorka @ 4:09 am

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… O casaco escarlate não usou, pois tinha

De sangue e vinho o jeito;

E sangue e vinho em suas mãos havia quando

Prisioneiro foi feito,

Deitado junto à mulher morta que ele amava

E matara em seu leito.

Ao caminhar em meio aos julgadores, roupa

Cinza e gasta vestia;

Tinha um boné de críquete, e seu passo lépido

E alegre parecia;

Mas nunca em minha vida alguém olhar

Tão angustiado o dia.

Eu nunca vi na vida que tivesse

Tanta angústia no olhar,

Ao contemplar a tenda azul que os prisioneiros

De céu usam chamar,

E as nuvens à deriva, que iam com as velas

Cor de prata pelo ar.

Num pavilhão ao lado, andei com outras almas

Também a padecer,

Imaginando se seu erro fora grave

Ou um erro qualquer,

Quando alguém sussurou baixinho atrás de mim:

"O homem tem que pender".

Cristo! As próprias paredes da prisão eu vi

Girando ao meu redor,

E o céu sobre a cabeça transformou-se em elmo

De um aço abrasador;

E, embora eu fosse alma a sofrer, já nem sequer

Sentia a minha dor.

Sabia qual o pensamento perseguido

Que lhe estugava o andar,

E porque demonstrava, ao ver radiante o dia,

Tanta angústia no olhar;

O homem matara a coisa amada, e ora devia

Com a morte pagar.

Apesar disso-escutem bem-todos os homens

Matam a coisa amada;

Com o galanteio alguns o fazem, enquanto outros

Com a face amargurada;

Os covardes o fazem com um beijo,

Os bravos, com a espada!

Um assassina o seu amor na juventude,

Outro, quando ancião;

Com as mãos da Luxúria este estrangula, aquele

Empresta do Ouro a mão;

Os mais gentis usam a faca, porque frios

Os mortos logo estão.

Este ama pouco tempo, aquele ama demais;

Há comprar, e há vender;

Uns fazem o ato em pranto, enquanto que um suspiro

Outros não dão sequer.

Todo homem mata a coisa amada!- Nem por isso

Todo homem vai morrer.

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