Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais
e ficamos repousando no fundo do mar.
O mar onde tudo recomeça…
Onde tudo se refaz…
Até que, um dia, nós criaremos asas.
E andaremos no ar como se anda em terra.
Mario Quintana
Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais
e ficamos repousando no fundo do mar.
O mar onde tudo recomeça…
Onde tudo se refaz…
Até que, um dia, nós criaremos asas.
E andaremos no ar como se anda em terra.
Mario Quintana
Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova…
Mário Quintana
Deixa-me ser o que sou,
o que sempre fui,
um rio que vai fluindo.
E o meu destino é seguir…seguir para o mar.
O mar onde tudo recomeça…
Onde tudo se refaz…
Mário Quintana
Tão bom viver dia a dia…
A vida, assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…
Mario Quintana
"Vocês se lembram quando a gente se perdia no campo e soltava a rédea ao cavalo e ele voltava direitinho para casa? Pois até hoje, quando não me lembro onde guardei uma coisa, desisto de quebrar a cabeça, afrouxo o espírito e eis que ele conduz meu passo e minha mão sonâmbula ao lugar exato. Quanto a saber qual dos dois, espírito e corpo, é o cavaleiro e o cavalo, é questão acadêmica. Só sei que isso não me acontece agora na vastidão do campo, mas dentro de uma casa, de uma sala, de um móvel…"
Mario Quintana, "A vaca e o hipogrifo"
Eu gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra
Como quando escrevo o teu nome no meio da página
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso, também, em tantas coisas… em ninhos.
Não sei por que vazios em meio de uma estrada
Deserta…
Penso em súbitos cometas anunciadores de um Mundo Novo
E – imagina! –
Penso em meus primeiros exercícios de álgebra,
Eu que tanto, tanto os odiava…
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores,
amores,
Nos olhos-flores das menininhas – isso mesmo! O mundo
Era um livro de figuras
Oh! os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras
em suas altas torres,
Os meus dragões
Horrendos
Mas tão coloridos…
E – já então – o trovoar dos versos de Camões:
"Que o menor mal de todos seja a morte!"
Ah, prometo àqueles meus professores desiludidos que na
próxima vida eu vou ser um grande matemático
Porque a matemática é o único pensamento sem dor…
Prometo, prometo, sim… Estou mentindo? Estou!
Tão bom morrer de amor! E continuar vivendo…
Mario Quintana
Quando eu era pequenino Quem é ele e quem sou eu, Quase que nos devoramos… (Pelas encostas do tempo Mário Quintana
Atirava rimas ao poema
Como ossos a um cãozinho…
Eu cresci. Ele cresceu. Agora…
Que não mais nos conhecemos?
Quando, agora, a sós ficamos,
Nous hurlons de nous trouver ensemble:
Mas vem a aurora apagadora de lampiões
E vem, pé ante pé, a hora
Burguesa e triste do café
Soluçam rimas de outrora…)
E fica tudo para o próximo
Round!
Quando eu morrer e no frescor de lua Quero é ficar com alguns poemas tortos Eu levarei comigo as madrugadas, E um dia a morte há de fitar com espanto Mário Quintana
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua…
Nada mais quero com nenhum de vós!
Que andei tentando endireitar em vão…
Que linda a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!…
Pôr-de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas…
Os fios de vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto…
Quando a luz estender as roupas nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo de nossas duas almas,
Chamarem nossos corpos nus,entrelaçados,
Seremos, na manhã, duas máscaras calmas e felizes,
De grandes olhos claros e rasgados…
Depois,volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de vôos encantados!…
E as rosas da cidade inda serão mais rosas.
Serão todas felizes sem saber porque.
Até os cegos,os entrevadinhos… E
Vestidos contra o azul de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas,
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cataventos!
Mario Quintana
Sábias agudezas… refinamentos…
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre…
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Mario Quintana
O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.
A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa
Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre…
Todas as horas são horas extremas!
Mario Quintana
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Sua palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para os ouvir…
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente de puro, ao
vento da Poesia…
como uma pobre lanterna que incendiou!
Mario Quintana
Das utopias
Se as coisas são inatingíveis… ora!
não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!
Da inquieta esperança
Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu… quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.
Dos milagres
O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo…
Nem mudar água pura em vinho tinto…
Milagre é acreditarem nisso tudo!
A Verdadeira Arte de Viajar
A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.\
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali…
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!
Quando desperto mansamente agora
é todo um sonho azul minha janela
e nela ficam presos esses olhos
amando-te no céu que faz lá fora.
Tu me sorris em tudo, misteriosa…
e a rua que – tal como outrora – desço,
a velha rua, eu mal a reconheço
em sua graça de menina-moça…
Riso na boca e vento no cabelo,
delas vem vindo em bando…E ao vê-lo
por um acaso olha-me a mais bela.
Sabes eu amo-te a perder de vista…
E bebo então, com uma saudade louca,
teu grande olhar azul nos olhos dela!
Mario Quintana
Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar… Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar…
e voar…
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!
Mario Quintana
Dizem-se amigas… Beijam-se… Mas qual!
Haverá quem nisso creia?
Salvo se uma das duas, por sinal,
For muito velha, ou muito feia…
Mario Quintana
"As coisas que não conseguem ser
olvidadas continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo do sempre onde as
datas não datam. Só no mundo do nunca
existem lápides… Que importa se –
depois de tudo – tenha "ela" partido,
casado, mudado, sumido, esquecido,
enganado, ou que quer que te haja
feito, em suma? Tiveste uma parte da
sua vida que foi só tua e, esta, ela
jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte da tua vida presente
e não do teu passado. E abrem-se no teu
sorriso mesmo quando, deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto
deves à ingrata criatura…
A thing of beauty is a joy for ever
disse, há cento e muitos anos, um poeta
inglês que não conseguiu morrer."
Mario Quintana
Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.
Mário Quintana
E eis que veio uma peste e acabou com todos os homens. Mas as coisas podiam chamar-se agora como bem quisessem. E houve por tudo um grande espreguiçamento de alívio. Mário Quintana
Mas em compensação ficaram as bibliotecas.
E nelas estava escrito o nome de todas as coisas.
E então o Pão de Açúcar se declarou Mancenilha.
E o hipopótamo só atendia por tico-tico.
E Nosso Senhor ficou para sempre livre da terrível campanha dos comunistas.
E das apologéticas de Tristão de Athayde.
“Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…"
Mario Quintana
O despertador é um objeto abjeto.
Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem
nós, para não parar.
E todas as manhãs nos chama freneticamente como
um velho paralítico a tocar a campanhinha atroz.
Nós
é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de
rodas.
Nós, os seus escravos.
Só os poetas
os amantes
os bêbados
podem fugir
por instantes
ao Velho…Mas que raiva dá no Velho quando
encontra crianças a brincar de roda
e não há outro jeito senão desviar delas a sua
cadeira de rodas!
Porque elas, simplesmente, o ignoram…
Mario Quintana
Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca…
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas inumeráveis que fazem os caminhos…
Em Deus, em ti, de novo…
Tua ternura tão simples…
Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço pela noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto junto de um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água límpida…
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca de um arroio!
Nunca ninguém sabe se estou louco para rir
ou para chorar.
Por isso o meu verso tem
Esse quase imperceptível tremor…
A vida é louca, o mundo é triste:
Vale a pena matar-se por isso?
Nem por ninguém!
Só se deve morrer de puro amor…
Mário Quintana
Oh! silêncio das salas de espera
Onde esse pobres guarda-chuvas lentamente escorrem…
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela…
Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos…
De onde fugiram todos os retratos…
E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!…
Mario Quintana
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
Mário Quintana
Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.
Mário Quintana
Quem faz um poema abre uma janela
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
— para que possas, enfim, profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Mário Quintana
Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!"
Mário Quintana
Meninazinha bonita dos olhos ingênuos e grandes,
uma vez na ciranda eu perdi tua mão…
Sinto ainda fugir-me à flor da pele, aflita,
sua desesperada e última pressão!
E a vida continuou, ora em lenta pavana.
ora numa quadrilha, em tonta confusão.
Quantas vezes julguei, mas foi sempre ilusão,
viver aquela hora, entre as horas bendita,
que uniu palma com palma e alma contra alma…
Mas que busco afinal, que miragem acalma
tão inquieta procura em um mundo já findo?
Porém, o mundo não é só o que se ve.
Talvez um dia eu morrerei sorrindo,
e só os anjos saberão por quê!
Mário Quintana
“Parece um sonho que ela tenha morrido!”
diziam todos… Sua viva imagem
tinha carne!… E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido…
E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar da viagem…
- até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!
Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora…
Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
“Parece um sonho que ela tenha vivido!”
Mario Quintana
Encontrei uma menina
que me perguntou se era verdade que iam demolir
aquele belíssimo pé de figueira.
Não, ela não disse belíssimo…
Foi por uma questão de ritmo que acrescentei aqui
esse adjetivo inútil.
Feliz de quem vive ainda no mundo dos substantivos:
o resto é literatura…
Sorri-lhe cumplicemente
(e tristemente)
porque me lembro que em meio ao quintal lá de casa
havia uma paineira enorme
(ultrapassava em altura o primeiro andar de meu
quarto)
Quando florescia, era uma glória!
Talvez fosse ela que impediu que meus sonhos de
menino solitário
tenham sido todos em preto-e-branco.
Uma glória… Até que um dia
foi posta abaixo
simplesmente
porque prejudicava o desenvolvimento das árvores
frutíferas.
Ora, as árvores frutíferas!
Bem sabes, meninazinha, que os nossos olhos também
precisam de alimento
Mario Quintana
Medo da nuvem
Medo Medo
medo da nuvem que vai crescendo
que vai se abrindo
que não se sabe
o que vai saindo
medo da nuvem Nuvem Nuvem
medo do vento
medo Medo
medo do vento que vai ventando
que vai falando
que não se sabe
o que vai dizendo
medo do vento Vento Vento
medo do gesto
mudo
medo da fala
surdo
que vai movendo
que vai dizendo
que não se sabe…
que bem sabe
que tudo é nuvem que tudo é é vento
nuvem e vento Vento Vento!
Mario Quintana
CANIBALISMO
Maneira exagerada de apreciar o seu semelhante.
AMIZADE
Quando o silêncio a dois não se torna incômodo.
AMOR
Quando o silêncio a dois se torna cômodo.
VERSO PERDIDO
…eu te amo a perder de vista…
Mário Quintana
O meu Anjo da Guarda de asas negras
tem uns olhos tão verdes como os teus.
E a mesma pele mate e… benza-o Deus!…
também teus lábios dolorosos…
Como o prendeste assim num sortilégio,
para ficares – sempre – junto a mim?!
Ou fui eu que inventei a tua aparência,
nesta longa loucura sem remédio…
Pois não só neste como no outro mundo
o quanto eu vejo se transforma em ti.
Sei lá se o Anjo entende uns tais mistérios…
Só sei que certa noite o pressenti…
Mas baixei os meus olhos incestuosos
E os meus lábios sacrílegos mordi!
Mário Quintana
O sono é uma viagem noturna:
o corpo horizontal no escuro
e no silêncio do trem, avança,
imperceptivelmente avança… Apenas
o relógio picota a passagem do tempo.
Sonha a alma deitada no seu ataúde:
lá longe
lá fora
no fundo do túnel,
há uma estação de chegada
(anunciam-na os galos agora)
há uma estação de chegada com a sua tabuleta ainda
toda orvalhada…
Há uma estação chamada…
AURORA!
Mário Quintana
Há um silêncio de antes de abrir-se um telegrama urgente
há um silêncio de um primeiro olhar de desejo
há um silêncio trêmulo de teias ao apanhar uma mosca
e o silêncio de uma lápide que ninguém lê .
Mário Quintana
Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
E só as amadas mortas amam eternamente…
Mário Quintana
Queridas unhinhas róseas… bocas
de úmida, fresca avidez
de onde todas as notas, loucas,
querem fugir de uma só vez…
Olhinhos de água tão pura
que nada há que os espante…
Sensível narina aflante…
Inquieta mão que procura…
Indeciso quadril, mas já
com aquele femíneo encanto…
Sobrancelhinhas: um veludo…
Orelhas, dedinhos… Ah,
nem queiras saber tudo quanto
elas prometem à vida…
Mario Quintana
"A gente pensa uma coisa,
acaba escrevendo outra
e o leitor entende uma terceira coisa…
e, enquanto se passa tudo isso,
a coisa propriamente dita
começa a desconfiar
que não foi propriamente dita!"
Mario Quintana
Ela é aquela Princesa Adormecida
no seu claro jazigo de cristal.
Aquela a quem, um dia – enfim – despertarás…
E o que esperavas ser teu suspiro final
é o teu primeiro beijo nupcial!
- Mas como é que eu te receava tanto
(no teu encantamento lhe dirás)
e como podes ser assim – tão bela?
!Nas tantas buscas, em que me perdi,
vejo que cada amor tinha um pouco de ti…
E ela, sorrindo, compassiva e calma:
- E tu, por que é que me chamavas Morte?
Eu sou, apenas, tua Alma…
Mario Quintana
Era a flor da morte
E era uma canção…
Tão linda que só se poderia ler dançando. Mas estava fragilmente pintada sobre o véu do silêncio que outrora pronunciavam meu nome…
E que nada dizia
Em sua graça ingênua
Dos subterrâneos êxtases e horrores em que estavam mergulhadas as suas raízes…
Onde a morte jazia com os seus cabelos esparsos
Com os seus dedos sem anéis
Com os seus lábios imóveis
E que talvez houvessem desaprendido para sempre até as sílabas com
Onde a morta jazia, na sua misteriosa ingratidão!
Era uma pobre canção,
Ingênua e frágil,
Que nada dizia…
Mario Quintana
A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapato
Mário Quintana (1906-1994), o poeta das coisas simples.
As fronteiras foram riscadas no mapa,
a Terra não sabe disso:
são para ela tão inexistentes
como esses meridianos com que os velhos sábios a recortavam
como se fosse um melão.
É verdade que vem sentindo há muito uns pruridos,
uma leve comichão que às vezes se agrava:
ela não sabe que são os homens…
Ela não sabe que são os homens com as suas guerras
e outros meios de comunicação.
Mário Quintana
Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar…
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras !
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço ?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar.
Mas nada, disso tudo, diz: "existo".
Porque apenas existem…
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar…
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação !
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos ?
Quem faz – em mim – esta interrogação ?
Mário Quintana
Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem mais sabia aonde ia…
Era um caminho
velhinho,
perdido…
Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.
O caminho agonizava, morria
sozinho…
Eu vi…
Porque são os passos que fazem os caminhos!
Mario Quintana
Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto…
que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.
Pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.
A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim…
Mario Quintana
Tenta esquecer-me…
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma… Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo…
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se…
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!
Mário Quintana
Quem ama inventa as coisas a que ama…
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava…
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbilhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressureições…
Um ritmo divino? Oh! simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho…
Ó! Meu pobre, meu grande amor distante,
nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado… e ter vivido o sonho!
Mário Quintana
Aquela única janela acesa
No casario
Sou eu
Aquele balão fantasticamente familiar
subindo
É a lua
Aquele grito súbito de mulher assassinada
É o rádio
Nós temos sentidos demais!
Por que não só a cor e o contato?
Que mais
Para o amor?
Palavras? Só as escritas,
Bastam as palavras escritas para um poema,
Sua música toda interior…
Quando muito uns pianíssimo sutis… Ah,
Tão sutis
Que não sabes nunca se os estás ouvindo
Ou só pensando neles…
Mario Quintana
As belas, as perfeitas máscaras de perfil severo
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade…
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula, insaciada…
Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos… A noite sobe como um balão…
Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos…
Soluçam os violoncelos… Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!
Mário Quintana
Aquela única janela acesa
No casario
Sou eu
Aquele balão fantasticamente familiar
subindo
É a lua
Aquele grito súbito de mulher assassinada
É o rádio
Nós temos sentidos demais!
Por que não só a cor e o contato?
Que mais
Para o amor?
Palavras? Só as escritas,
Bastam as palavras escritas para um poema,
Sua música toda interior…
Quando muito uns pianíssimo sutis… Ah,
Tão sutis
Que não sabes nunca se os estás ouvindo
Ou só pensando neles…
Mario Quintana