Obscured By Clouds

Agosto 25, 2008

Poética I

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 2:37 am

 

De manhã escureço
De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo

Do sul cativo

O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:

Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:

– Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes

Agosto 12, 2008

Invocação à mulher única

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 12:08 am

Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu
Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais… jamais… (que o poema receba as minhas lágrimas!…)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua…A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oporturna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias – mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
Não me deixes morrer!… eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir… – as viagens remontam à vida!… e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura.
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!

Vinicius de Moraes

Agosto 1, 2008

Acende uma lua no céu

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 12:41 am

Acende uma lua no céu
E muitas estrelas no olhar
E deixa-te linda e sem véu
Envolta num brando dossel de luar

Semeia de flores teu chão
E abre a janela aos perfumes do ar
E esquece tua porta entreaberta
Porque na hora certa

Verás teu poeta surgir
E entrar e abraçar-te chorando
E amar-te até quando
Tiver que partir.

Vinícius de Moraes

Julho 9, 2008

Quatro sonetos de meditação

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 1:11 pm

I

Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.
Outra carne vírá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viver unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.
Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento
Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia.

II

Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce.
Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.
Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos
E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

III

O efêmero. Ora, um pássaro no vale
Cantou por um momento, outrora, mas
O vale escuta ainda envolto em paz
Para que a voz do pássaro não cale.
E uma fonte futura, hoje primária
No seio da montanha, irromperá
Fatal, da pedra ardente, e levará
À voz a melodia necessária.
O efêmero. E mais tarde, quando antigas
Se fizerem as flores, e as cantigas
A uma nova emoção morrerem, cedo
Quem conhecer o vale e o seu segredo
Nem sequer pensará na fonte, a sós…
Porém o vale há de escutar a voz.

IV

Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.
Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.

Vinicius de Moraes

Junho 14, 2008

Sentimento de Amigo

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 3:37 am
Tenho amigos que não sabem
o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto
e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor.
Eis que permite que o objeto dela
se divida em outros afetos,
enquanto o amor tem intrínseco o ciúme,
que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor,
que tivessem morrido todos os meus amores,
mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem
o quanto são meus amigos e o quanto minha vida
depende de suas existências…
A alguns deles não procuro,
basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja
a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade,
não posso lhes dizer o quanto gosto deles.
Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica
e não sabem que estão incluídos
na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,
embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro,
noto que eles não tem noção de como me são necessários.
De como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital,
porque eles fazem parte do mundo que eu,
tremulamente construí,
e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam,
eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é,
em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos,
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer…
Se alguma coisa me consome e me envelhece
é que a roda furiosa da vida não me permite
ter sempre ao meu lado, morando comigo,
andando comigo, falando comigo, vivendo comigo,
todos os meus amigos, e,
principalmente os que só desconfiam ou
talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

 

Vinícius de Moraes

Maio 31, 2008

Dialética

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:23 am

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

Vinícius de Moraes

 

Maio 3, 2008

RECEITA DE MULHER

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 8:39 pm

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

 

Vinícius de Moraes

Maio 2, 2008

Canção

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:58 am

Não leves nunca de mim

A filha que tu me deste

A doce, úmida, tranqüila

Filhinha que tu me deste

Deixe-a, que bem me persiga

Seu balbucio celeste.

Não leves; deixa-a comigo

Que bem me persiga, a fim

De que eu não queira comigo

A primogênita em mim

A fria, seca, encruada

Filha que a morte me deu

Que vive desdentada

Do leite que não é seu

E que de noite me chama

Com a voz mais triste que há

E pra dizer que me ama

E pra chamar-me de pai.

Não deixes nunca partir

A filha que tu me deste

A fim de que eu não prefira

A outra, que é mais agreste

Mas que não parte de mim.

 

Vinicius de Moraes

Abril 9, 2008

Menino de Ilha

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:32 am

Às vezes, no calor mais forte, eu pulava de noite a janela com pés de gato e ia deitar-me junto ao mar. Acomodava-me na areia como uma cama fofa e abria as pernas aos alíseos e ao luar: e em breve as frescas mãos da maré cheia vinham coçar meus pés com seus dedos de água.

Era indizivelmente bom. Com um simples olhar podia vigiar a casa, cuja janela deixava apenas encostada; mas por mero escrúpulo. Ninguém nos viria nunca fazer mal. Éramos gente querida na ilha, e a afeição daquela comunidade pobre manifestava-se constantemente em peixe fresco, cestas de caju, sacos de manga-espada. E em breve perdia-me naquela doce confusão de ruídos… o sussurro da maré montante, uma folha seca de amendoeira arrastada pelo vento, o gorgulho de um peixe saltando, a clarineta de meu amigo Augusto, tuberculoso e insone, solando valsas ofegantes na distância. A aragem entrava-me pelos calções, inflava-me a camisa sobre o peito, fazia-me festas nas axilas, eu deixava a areia correr de entre meus dedos sem saber ainda que aquilo era uma forma de cortar o tempo. Mas o tempo ainda não existia para mim; ou só existia nisso que era sempre vivo, nunca morto ou inútil.

Quando não havia luar era mais lindo e misterioso ainda. Porque, com a continuidade da mirada, o céu noturno ia desvendando pouco a pouco todas as suas estrelas, até as mais recônditas, e a negra abóbada acabava por formigar de luzes, como se todos os pirilampos do mundo estivessem luzindo na mais alta esfera. Depois acontecia que o céu se aproximava e eu chegava a distinguir o contorno das galáxias, e estrelas cadentes precipitavam-se como loucas em direção a mim com as cabeleiras soltas e acabavam por se apagar no enorme silêncio do Infinito. E era uma tal multidão de astros a tremeluzir que, juro, às vezes tinha a impressão de ouvir o burburinho infantil de suas vozes. E logo voltava o mar com o seu marulhar ilhéu, e um peixe pulava perto, e um cão latia, e uma folha seca de amendoeira era arrastada pelo vento, e se ouvia a tosse de Augusto longe, longe. Eu olhava a casa, não havia ninguém, meus pais dormiam, minhas irmãs dormiam, meu irmão pequeno dormia mais que todos. Era indizivelmente bom.

Havia ocasiões em que adormecia sem dormir, numa semiconsciência dos carinhos do vento e da água no meu rosto e nos meus pés. É que vinha-me do Infinito uma tão grande paz e um tal sentimento de poesia que eu me entregava não a um sono, que não há sono diante do Infinito, mas a um lacrimoso abandono que acabava por raptar-me de mim mesmo. E eu ia, coisa volátil, ao sabor dos ventos que me levavam para aquele mar de estrelas, sem forma e corpo e ouvindo o breve cochicho das ondas que vinham desaguar nas minhas pernas.

Mas - como dizê-lo? - era sempre nesses momentos de perigosa inércia, de mística entrega, que a aurora vinha em meu auxílio. Pois a verdade é que, de súbito, eu sentia a sua mão fria pousar sobre minha testa e despertava do meu êxtase. Abria os olhos e lá estava ela sobre o mar pacificado, com seus grandes olhos brancos, suas asas sem ruído e seus seios cor-de-rosa, a mirar-me com um sorriso pálido que ia pouco a pouco desmanchando a noite em cinzas. E eu me levantava, sacudia a areia do meu corpo, dava um beijo de bom-dia na face que ela me entregava, pulava a janela de volta, atravessava a casa com pés de gato e ia dormir direito em minha cama, com um gosto de frio em minha boca.

 

Vinicius de Moraes

Abril 7, 2008

Copacabana

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 3:20 am

Esta é Copacabana, ampla laguna

Curva e horizonte, arco de amor vibrando

Suas flechas de luz contra o infinito.

Aqui meus olhos desnudaram estrelas

Aqui meus braços discursaram à lua

Desabrochavam feras dos meus passos

Nas florestas de dor que percorriam.

Copacabana, praia de memórias!

Quantos êxtases, quantas madrugadas

Em teu colo marítimo!

– Esta é a areia

Que eu tanto enlameei com minhas lágrimas

– Aquele é o bar maldito. Podes ver

Naquele escuro ali? É um obelisco

De treva – cone erguido pela noite

Para marcar por toda a eternidade

O lugar onde o poeta foi perjuro.

Ali tombei, ali beijei-te ansiado

Como se a vida fosse terminar

Naquele louco embate. Ali cantei

À lua branca, cheio de bebida

Ali menti, ali me ciliciei

Para gozo da aurora pervertida.

Sobre o banco de pedra que ali tens

Nasceu uma canção. Ali fui mártir

Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo

Aqui encontrarás minhas pegadas

E pedaços de mim por cada canto.

Numa gota de sangue numa pedra

Ali estou eu. Num grito de socorro

Entreouvido na noite, ali estou eu.

No eco longínquo e áspero do morro

Ali estou eu. Vês tu essa estrutura

De apartamento como uma colmeia

Gigantesca? em muitos penetrei

Tendo a guiar-me apenas o perfume

De um sexo de mulher a palpitar

Como uma flor carnívora na treva.

Copacabana! ah, cidadela forte

Desta minha paixão! a velha lua

Ficava de seu nicho me assistindo

Beber, e eu muita vez a vi luzindo

No meu copo de uísque, branca e pura

A destilar tristeza e poesia.

Copacabana! réstia de edifícios

Cujos nomes dão nome ao sentimento!

Foi no Leme que vi nascer o vento

Certa manhã, na praia. Uma mulher

Toda de negro no horizonte extremo

Entre muitos fantasmas me esperava:

A moça dos antúrios, deslembrada

A senhora dos círios, cuja alcova

O piscar do farol iluminava

Como a marcar o pulso da paixão

Morrendo intermitentemente. E ainda

Existe em algum lugar um gesto alto,

Um brilhar de punhal, um riso acústico

Que não morreu. Ou certa porta aberta

Para a infelicidade: inesquecível

Frincha de luz a separar-me apenas

Do irremediável. Ou o abismo aberto

Embaixo, elástico, e o meu ser disperso

No espaço em torno, e o vento me chamando

Me convidando a voar… (Ah, muitas mortes

Morri entre essas máquinas erguidas

Contra o Tempo!) Ou também o desespero

De andar como um metrônomo para cá

E para lá, marcando o passo do impossível

À espera do segredo, do milagre

Da poesia.

Tu, Copacabana,

Mais que nenhuma outra foste a arena

Onde o poeta lutou contra o invisível

E onde encontrou enfim sua poesia

Talvez pequena, mas suficiente

Para justificar uma existência

Que sem ela seria incompreensível.

 

Vinicius de Moraes

Abril 3, 2008

Poética I

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 3:56 am

 

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

 

Vinicius de Moraes

Março 29, 2008

Invocação à mulher única

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 7:11 pm

Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito

Tu, que perpetuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu
Tédio escuro, mal da vida – fonte! jamais… jamais… (que o poema receba as minhas lágrimas!…)

Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio

E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda

E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.

Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua…A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência.

De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento afirmações do bem: dúvida (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oporturna que a caridade Dúvida, madrasta do gênio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!

Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase

Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! tu que deitas o teu sangue

Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias – mulher!

Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.

Não me deixes morrer!… eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto da carne

Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne

Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!

Não me deixes partir… – as viagens remontam à vida!… e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura.

A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia

Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – por onde eu iria caminhando

Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia

No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!

 

Vinicius de Moraes

Março 18, 2008

Eu Não Existo Sem Você - Tom Jobim / Vinícius de Moraes

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:40 am

 

 

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste

Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham prá você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você

 

Março 12, 2008

A brusca poesia da mulher amada

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 12:29 am

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente…

Eles foram vistos caminhando de noite para o amor

– oh, a mulher amada é como a fonte!

A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo

A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido

Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?

Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios

E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados…

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias

Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

 

Vinicius de Moraes

Fevereiro 10, 2008

Valsinha

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 6:05 am

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vízinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz

 

Vinicius de Moraes

Fevereiro 7, 2008

A esposa

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 12:20 am

 

Às vezes, nessas noites frias e enevoadas
Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
Essa estranha visão de mulher calma
Surgindo do vazio dos meus olhos parados
Vem espiar minha imobilidade.

E ela fica horas longas, horas silenciosas
Somente movendo os olhos serenos no meu rosto
Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.
Nada diz, nada pensa, apenas olha - e o seu olhar é como a luz
De uma estrela velada pela bruma.
Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem
Mas que não vencem o olhar perdido longe.
Nada pensa. Virá e agasalhará minhas mãos frias
Se sentir frias suas mãos.

Quando a porta ranger e a cabecinha de criança
Aparecer curiosa e a voz clara chamá-la num reclamo
Ela apontará para mim pondo o dedo nos lábios
Sorrindo de um sorriso misterioso
E se irá num passo leve
Após o beijo leve e roçagante…

Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente…
Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.

 

Vinicius de Moraes

Fevereiro 3, 2008

Soneto do caju

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 6:04 am

Amo na vida as coisas que têm sumo

E oferecem matéria onde pegar

Amo a noite, amo a música, amo o mar

Amo a mulher, amo o álcool e amo o fumo.

Por isso amo o caju, em que resumo

Esse materialismo elementar

Fruto de cica, fruto de manchar

Sempre mordaz, constantemente a prumo.

Amo vê-lo agarrado ao cajueiro

À beira-mar, a copular com o galho

A castanha brutal como que tesa:

O único fruto – não fruta – brasileiro

Que possui consistência de caralho

E carrega um culhão na natureza.

 

Vinicius de Moraes

Dezembro 24, 2007

O filho do homen

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 6:38 pm

O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo
Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.

A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.

O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.

Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.

 

Vinicius de Moraes

Novembro 17, 2007

Poemas para todas as mulheres

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:55 am

No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos…
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!

 

Vinicius de Moraes

Setembro 12, 2007

Marinha

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 12:59 am

Na praia de coisas brancas

Abrem-se às ondas cativas

Conchas brancas, coxas brancas

Águas-vivas.

Aos mergulhares do bando

Afloram perspectivas

Redondas, se aglutinando

Volitivas.

E as ondas de pontas roxas

Vão e vêm, verdes e esquivas

Vagabundas, como frouxas

Entre vivas!

 

Vinicius de Moraes

Agosto 26, 2007

Um poema de amor para domingo

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 7:55 am

 

Ausência

 

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

 

Vinícius de Moraes

Agosto 22, 2007

Soneto de devoção

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 6:31 pm

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios

Esta mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria

Esta mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela

Esta mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez… - mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

Vinicius de Moraes

Julho 30, 2007

Soneto do amor maior

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 8:59 pm

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

 

Vinicius de Moraes

Julho 5, 2007

Eu Não Existo Sem Você

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 6:12 pm

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor só é bem grande se for triste

Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Pois todos os caminhos me encaminham prá você
Assim como o oceano só é belo com o luar
Assim como a canção só tem razão se se cantar

Assim como uma nuvem só acontece se chover
Assim como o poeta só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, eu não existo sem você

 

Vinicius de Moraes

Junho 30, 2007

Vinícius de Moraes - Soneto de Fidelidade

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:03 am

Junho 6, 2007

A Volta da mulher morena

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:28 am

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da mulher morena
Reza para a velhice roer dentro da mulher morena
Que a mulher morena está encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!

Vinícius de Moraes

Junho 1, 2007

Poemas para todas as mulheres

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:28 am

 

 

No teu branco seio eu choro.

Minhas lágrimas descem pelo teu ventre

E se embebedam do perfume do teu sexo.

Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado

Confuso, criança para te conter!

Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!

Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!

Homem sou belo

Macho sou forte, poeta sou altíssimo

E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.

Ai! teus cabelos recendem à flor da murta

Melhor seria morrer ou ver-te morta

E nunca, nunca poder te tocar!

Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços

Anjo, sinto o calor do vento nas espumas

Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos…

Correi, correi, ó lágrimas saudosas

Afogai-me, tirai-me deste tempo

Levai-me para o campo das estrelas

Entregai-me depressa à lua cheia

Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos

Que eu não posso mais, ai!

Que esta mulher me devora!

Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!

 

Vinicius de Moraes

Maio 29, 2007

Dialética

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:02 am

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

 

Vinicius de Moraes

Maio 25, 2007

O sacrifício da Aurora

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:27 am

 

Um dia a Aurora chegou-se

Ao meu quarto de marfim

E com seu riso mais doce

Deitou-se junto de mim

Beijei-lhe a boca orvalhada

E a carne não tinha sangue

A boca sabia a nada.

Apaixonei-me da Aurora

No meu quarto de marfim

Todo o dia à mesma hora

Amava-a só para mim

Palavras que me dizia

Transfiguravam-se em neve

Era-lhe o peso tão leve

Era-lhe a mão tão macia.

Às vezes me adormecia

No meu quarto de marfim

Para acordar, outro dia

Com a Aurora longe de mim

Meu desespero covarde

Levava-me dia afora

Andando em busca da Aurora

Sem ver Manhã, sem ver Tarde.

Hoje, ai de mim, de cansado,

Há dias que até da vida

Durmo com a Noite, ausentado

Da minha Aurora esquecida…

É que apesar de sombria

Prefiro essa grande louca

À Aurora, que além de pouca

É fria, meu Deus, é fria!

 

Vinicius de Moraes

Maio 22, 2007

Poética II

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:41 am

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!

 

Vinicius de Moraes

Maio 15, 2007

Elegia de Taormina

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:24 am

A dupla profundidade do azul

Sonda o limite dos jardins

E descendo até a terra o transpõe.

Ter o Etna, coberto de neve, ao horizonte da mão,

Considerado das ruínas do templo grego,

Descansa.

Ninguém recebe conscientemente

O carisma do azul.

Ninguém esgota o azul e seus enigmas.

Armados pela história, pelo século,

Aguardando o desabar do azul, o desfecho da bomba,

Nunca mais distinguiremos

Beleza e morte limítrofes.

Nem mesmo debruçados

Sobre o mar de Taormina.

Oh, intolerável beleza,

Oh, pérfido diamante,

Ninguém, depois da iniciação, dura

No teu centro de luzes contrárias.

Sob o signo trágico vivemos

Mesmo quando na alegria

Levantamos o pão e o vinho.

Oh, intolerável beleza

Que sem a morte se oculta.

 

Vinicius de Moraes

Maio 7, 2007

Cântico

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:12 am

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu.
Tu és a estrela
Sem nome, és a namorada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar?
Tu Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante… a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas…
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

Vinícius de Moraes

Maio 3, 2007

Agonia

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:41 am

 

No teu grande corpo branco depois eu fiquei.
Tinha os olhos lívidos e tive medo.
Já não havia sombra em ti - eras como um grande deserto de areia
Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem noites.
Na minha angústia eu buscava a paisagem calma
Que me havias dado tanto tempo
Mas tudo era estéril e mostruoso e sem vida
E teus seios eram dunas desfeitas pelo vendaval que passara.
Eu estremecia agonizando e procurava me erguer
Mas teu ventre era como areia movediça para os meus dedos.
Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma
Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía como a voragem.
Depois foi o sono, o escuro, a morte.
Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente
Vinha cheio do pavor das tuas entranhas.

 

Vinícius de Moraes

Abril 19, 2007

O rio

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:57 am

Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

 

Vinicius de Moraes

Março 28, 2007

O poeta na madrugada

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:10 am

 

Quando o poeta chegou à cidade

A aurora vinha clareando o céu distante

E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.

Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora

E ele cantou a beleza da nova madrugada.

As mulheres beijaram a fronte do poeta

E rogaram o seu amor.

O poeta sorriu.

Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava

E disse que a visão da beleza era da poesia

O poeta tem a alegria que vive na luz

E tem a mocidade que nasce da luz.

As mulheres seguiram o poeta

Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne

O poeta amou a carne das mulheres

Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.

O poeta quando ama

É como a flor que murcha sem seiva

Porque o amor do poeta

É a seiva do mundo

E se o poeta amasse

Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.

Quando a nova madrugada raiou no céu distante

O poeta já tinha partido

E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios

Falavam de ardentes promessas de amor.

 

Vinícius de Moraes

Março 16, 2007

Gilda

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:09 am

Nos abismos do infinito
Uma estrela apareceu
E da terra ouviu-se um grito:
Gilda, Gilda

Era eu, maravilhado
Ante a sua aparição
Que aos poucos fui levado
Nos véus de um bailado
Pela imensidão
Aos caprichos de seu rastro
Como um pobre astro
Morto de paixão

Gilda, Gilda
Gilda e eu

E depois nós dois unidos
Como Eurídice e Orfeu
Fomos sendo conduzidos
Gilda e eu
Pelas mágicas esferas
Que se perdem pelo céu
Em demanda de outras eras
Velhas primaveras
Que o tempo esqueceu
Pelo espaço que nos leva
Pela imensa treva
Para as mãos de Deus

Gilda, Gilda
Gilda e eu.

 

Vinicius de Moraes

Março 8, 2007

Poética I

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 7:00 am

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

 

Vinicius de Moraes

 

Março 7, 2007

Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 6:00 am

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

 

Vinicius de Moraes

Março 2, 2007

Soneto de Florença

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:05 am

Florença… que serenidade imensa
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença

Das coisas que passaram mas que urgem…
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem
No meio do caminho da descrença…

Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada

Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada…

 

Vinicius de Moraes

Março 1, 2007

Canção para o grande amor

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 5:27 am

Despedi o grande amor de mim
Dizendo assim: grande amor
Não se esqueça de voltar
Porque a dor do amor que teve fim
Que foi ruim, sei que sim
Outro amor há de apagar
E há de ser sempre assim:
Minha casa aberta
E na mesa posta um talher a mais
Um cinzeiro a mais
E no seu lugar a mesma mulher a esperar
A mesma mulher pronta pra dizer
Entre, por favor, quando alguém surgir
Quando alguém chegar
Pode ser o amor, pode ser a dor, pode ser
Preciso ter muitas rosas para receber
O grande amor
Quando for
Sua hora de voltar

 

Vinicius de Moraes

Fevereiro 23, 2007

O infinito de Leopardi

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:46 am

Sempre cara me foi esta colina
Erma, e esta sebe, que de tanta parte
Do último horizonte, o olhar exclui.
Mas sentado a mirar, intermináveis
Espaços além dela, e sobre-humanos
Silêncios, e uma calma profundíssima
Eu crio em pensamentos, onde por pouco
Não treme o coração. E como o vento
Ouço fremir entre essas folhas, eu
O infinito silêncio àquela voz
Vou comparando, e vêm-me a eternidade
E as mortas estações, e esta, presente
E viva, e o seu ruído. Em meio a essa
Imensidão meu pensamento imerge
E é doce o naufragar-me nesse mar.

 

Vinicius de Moraes

Fevereiro 13, 2007

Soneto do Amigo

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:14 am

Enfim, depois de tanto erro passado “
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo”
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com os olhos que contem o olhar antigo”
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo. “

Um bicho igual à mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover “
E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer “
E o espelho de minha alma multiplica…

Vinícius de Moraes

Soneto do Amigo

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:09 am

Enfim, depois de tanto erro passado “
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo”
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com os olhos que contem o olhar antigo”
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo. “

Um bicho igual à mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover “
E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer “
E o espelho de minha alma multiplica…

Vinícius de Moraes

Fevereiro 12, 2007

Allegro

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:19 am

Sente como vibra

Doidamente em nós

Um vento feroz

Estorcendo a fibra

Dos caules informes

E as plantas carnívoras

De bocas enormes

Lutam contra as víboras

E os rios soturnos

Ouve como vazam

A água corrompida

E as sombras se casam

Nos raios noturnos

Da lua perdida.

 

Vinicius de Moraes

Fevereiro 9, 2007

A brusca poesia da mulher amada (III)

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:51 am

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido
herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a
bilirrubina Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias,

preciso perder cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos  ventos
Em pós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas… Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo… Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

 

Vinicius de Moraes

Fevereiro 6, 2007

Soneto de Devoção

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:56 am

 

Essa mulher que se arremessa, fria  

e lúbrica aos meus braços, e nos seios 

me arrebata e me beija e balbucia 

versos, votos de amor e nomes feios, 

essa mulher, flor de melancolia 

que se ri dos meus pálidos receios, 

a única entre todas a quem dei 

os carinhos que nunca a outra daria, 

essa mulher que a cada amor proclama 

a miséria e a grandeza de quem ama 

e guarda a marca dos meus dentes nela. 

essa mulher e um mundo! - uma cadela 

talvez… - Mas na moldura de uma cama 

nunca mulher nenhuma foi tão bela. 

 

Vinícius de Moraes  

Fevereiro 1, 2007

Para uma menina com uma flor

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 6:30 am

Vinicius de Moraes

 

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

Texto Completo 

 

Janeiro 15, 2007

A brusca poesia da mulher amada (II)

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:32 am

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos
astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher
amada
É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

 

Vinicius de Moraes

Janeiro 11, 2007

O verbo no Infinito

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:16 am

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito…

Vinicius de Moraes

Janeiro 5, 2007

Pela luz dos olhos teus

Arquivado em: Vinicius de Moraes — kavorka @ 4:22 am

Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus

Resolvem se encontrar

Ai que bom que isso é meu Deus

Que frio que me dá o encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus só p’ra me provocar

Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus

Que a luz dos olhos meus já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará

Pela luz dos olhos teus

Eu acho meu amor que só se pode achar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

 

Vinicius de Moraes

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