Soneto – LX

A ti fere aquele que quis fazer-me dano,
E o golpe do veneno contra mim dirigido
Como por uma rede passa entre meus trabalhos
E em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo

Não quero ver, no amor, na lua florescida
De tua fronte cruzar o ódio que me espreita,
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
Esquecida sua inútil coroa de facas.

Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
Onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
Onde canto a inveja maldiz, ri e rói.

E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
É um traje vazio que me segue coxeando
Como um espantalho de sorriso sangrento.

Pablo Neruda

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Quem és tu

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
A perfeição nasce do eco dos teus passos,

E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
A história da noite é o gesto dos teus braços,

O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Boda espiritual

Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
– Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.

Pende a tua cabeça. Eu amacio-a…afago-a
Ah, como a minha mão treme…Como ela é tua…
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra nágua.

Gemes quase a chorar. Súplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso…
Tua boca sem voz implora em um arquejo.

Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo…
E te amo como se ama um passarinho morto.

Manuel Bandeira

Navegar

Fiz de minha vida um navio
E dos meus sonhos fundo mar
Lancei meu navio na água
E deixei o vento levar.

A brisa que sopra mansa
Acalenta as ondas do mar
E por mais que ele balance
Seu controle há de voltar.

Voltar para as mãos seguras
Que norteiam o meu navegar
A seguir os caminhos às escuras
Sob a auréola do doce luar.

E a luz que o iluminar
Com o brilho do amanhecer
Certamente vai me mostrar
As espumas do meu viver.

Mas se um dia um recife aflorar
à frente desse navio
Não sei se vou suportar
Traçar mais esse desvio.

Cansei-me de navegar,cansei-me de tanto sofrer.
Se é pra viver nessa mágoa
Prefiro,em vez de aportar,
Abrir com as minhas mãos a água
Pra ver o meu navio naufragar.


Cecília Meireles