O amor

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.

Eugénio de Andrade

Canção dos romances perdidos

Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem…
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela…

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz…
Aquela última estrela

E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos…
De onde fugiram todos os retratos…

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!…

Mario Quintana

Imagem

Tão brando é o movimento
das estrelas,da lua,
das nuvens e do vento,
que se desenha a tua
face no firmamento.

Desenha-se tão pura
como nunca a tiveste,
nem nenhuma criatura.
Pois é sombra celeste
da terrena aventura.

Como um cristal se aquieta
minha vida no sono,
venturosa e completa.
E teu rosto aprisiono
em grave luz secreta.

Teu silêncio em meu peito
de tal maneira existe,
reconhecido e aceito,
que chego a ficar triste
de vê-lo tão perfeito.

E não pergunto nada.
Espero que amanheça,
e a cor da madrugada
pouse na tua cabeça
uma rosa encarnada.


Cecilia Meireles