Maldição

Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha alma se abrirá como um vulcão.

E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão…

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!…

Olavo Bilac

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Tuas Mãos

Com tuas mãos eu sonho noite e dia, 

porque, com arte mágica e eloqüente, 

me souberam dizer, furtivamente, 

o que jamais tua boca me diria. 

Quisera ter meus lábios e desejos 

em tuas mãos, que são duas estrelas, 

e, em milagre de amor, senti-las, vê-las 

inteiramente presas por meus beijos. 

Mãos divinais que eu amo e prezo tanto; 

mãos de luz e de seda, que meu canto 

há de imortalizar! Ó mãos gloriosas! 

De vós um grande bem quero esperar: 

cerrai meus olhos, lindas mãos piedosas, 

no momento em que a morte me chegar! 

Ovídio Fernández Rios 

Poeta uruguaio (1882-1963)