Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia

Eu ontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.
Chorámos, rimos, cantámos.
Fallou-me do seu destino,

Do seu fado…
Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!
Deserto de aguas sem fim.
Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?…

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado…
Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.

«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
– Ó voz moribunda e dôce

Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte…»
. . . . . . . . . . . . . . . .
E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!

António Botto

Manhã dos outros!

Manhã dos outros! Ó sol que dás confiança
Só a quem não confia!
É só à dormente, e não à morta, ‘sperança
Quq acorda o teu dia.
A quem sonha de dia e sonha de noite, sabendo
Todo sonho é vão,
Mas sonha sempre, só para sentir-se vivendo
E a ter coração,
A essas raias sem o dia que trazes, ou somente
Como alguém que vem
Pela rua, invisível ao nosso olhar consciente,
Por não ser-nos ninguém.

Fernando Pessoa

Curitibas

Conheço esta cidade
como a palma da minha pica.

Sei onde o palácio
sei onde a fonte fica.

Só não sei da saudade
a fina flor que fabrica.

Ser, eu sei. Quem sabe,
esta cidade me significa.

Paulo Leminsky