Casita

Como é doce e triste por vezes ouvir
Algum som antigo trazido à memória,
E ver, como em sonhos, algum rosto querido,
Trecho de paisagem, campo, rio ou vale,

Lembrança tão breve, triste e agradável,
Algo que recorde o tempo bom da infância.
Então em dor feliz as lágrimas brotam,
Esse choro subtil que na mente aguarda,

E tudo o já sentido – campo, rio e voz –
Toma outro alcance, na memória adornado,
E lento emerge em fantasiosa luz.
Mas, ai, eis que acordo p’los sonhos traído!

O que sinto e ouço apenas ilusão,
Porque o passado não pode regressar.
Estes campos não são os que eu conheci,

Os sons não são os que ouvi; tudo passou
E tudo o que é passado, ai, não volta mais.

Fernando Pessoa

A rosa desfolhada

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa

Teu toca-discos, nosso retrato
Um tempo descuidado
Tudo pisado, tudo partido
Tudo no chão jogado

E em cada canto
Teu desencanto
Tua melancolia
Teu triste vulto desesperado

Ante o que eu te dizia
E logo o espanto e logo o insulto
O amor dilacerado
E logo o pranto ante a agonia

Do fato consumado
Silenciosa
Ficou a rosa
No chão despetalada

Que eu com meus dedos tentei a medo
Reconstruir do nada:
O teu perfume, teus doces pêlos

A tua pele amada
Tudo desfeito, tudo perdido
A rosa desfolhada

Vinicius de Moraes