Soneto LXIII, Cem Sonetos de amor

Não sé pelas terras desertas onde a pedra salina
É como a rosa única, é flor pelo mar enterrada,
Andei; mas pela margem de rios que cortam a neve.
As amargas alturas das cordilheiras conhecem meus passos.

Emaranhada, silvante região de minha pátria selvagem,
Lianas cujo beijo mortal se encadeia na selva,
Lamento molhado da ave que surge lançando seus calafrios,
Oh região de perdidas dores e pranto inclemente!

Não só são meus a pele venenosa do cobre
Ou o salitre estendido como estátua jazente e nevada,
Mas a vinha, a cerejeira premiada pela primavera,

São meus, e eu pertenço como átomo negro
Ás áridas terras e á luz do outono nas uvas,
A esta pátria metálica elevada por torres de neve.

Pablo Neruda

Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente…

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais…

Antero de Quental

José

Se coubessem mil coisas num só dia

E se ele não fosse um só, mas fosse mil

Pelos Faux mounnaieurs!!! Não haveria

Quem fizesse mais coisas no Brasil

Um romance, um besigue, um pensamento

Um cigarro, um cachorro, uma piada

Outro Besigue, gide, namorada

Resultado final: – padecimento!

O mundo muda e ele vai seguindo

Abafando os concursos que vêm vindo

Trabalhar! Trabalhar nunca foi bom…

Antes ir os cinemas percorrendo

Namorando, sofrendo, andando e lendo

Colocado entre Deus e entre Mammon

Vinícius de Morais

Corpo

Adorei teu corpo,
Tombei de joelhos.
Escostei a fronte,
O rosto, em teu ventre.

Senti o gosto acre
De santidade
Do corpo nu.

Absorvi a existência,
Vi todas as coisas numa coisa só,
Compreendi tudo desde o princípio do Mundo.

Dante de Milano