ABBA – I Have A Dream

“I have a dream

a song to sing

to help me cope

with anything

if you see the wonder

of a fairy tale

you can take the future

even if you fail”

Um feliz 2011 a todos que frequentam essa página.

Anúncios

Amo-te

Amo-te quando em largo, alto e profundo
Minha alma alcança quando, transportada
Sente, alongando os olhos deste mundo
Os fins do ser, a graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
à luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não podem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas,
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
e a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.

Elizabeth B. Browning

Dez coisas que levei anos para aprender, Autor desconhecido

1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom, não pode ser uma boa pessoa.
2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.
3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.
4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.
5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida.
6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite.
7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria "reuniões".
8. Há uma linha muito tênue entre "hobby" e "doença mental".
9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito.
10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de que um amador solitário construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.

Um feliz 2011 a todos que acompanham essa página.

Don’t Worry Be Happy – Bobby McFerrin

Não Se Preocupe, Seja Feliz

Aqui está uma pequena canção que escrevi

Talvez você queira cantá-la nota por nota

Não se preocupe, seja feliz

Em toda vida existem problemas

Mas enquanto se preocupa você os duplica

Não se preocupe, seja feliz

Não há lugar onde descansar a cabeça

Alguém veio e levou sua cama

Não se preocupe, seja feliz

Seu senhorio diz que o aluguel atrasou

Ele terá que questionar em juízo

Não se preocupe, seja feliz

Veja como estou feliz

Não se preocupe, seja feliz

Aqui está meu telefone

Me ligue quando

Se preocupar

Não se preocupe

Seja feliz

Não tem dinheiro e nem estilo

Não tem garota para fazê-lo sorrir

Não se preocupe, seja feliz

Pois quando você se preocupa

Seu rosto enruga

E isso deixará

Todos deprimidos

Todos deprimidos

Seja feliz, ponha um sorriso

Em seu rosto não deprima a todos

Não se preocupe, seja feliz

Não importando o problema

Isso passará, não se preocupe

Seja feliz, eu não estou preocupado

O último dia do ano

O último dia do ano

não é o último dia do tempo.

Outros dias virão

e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.

Beijarás bocas, rasgarás papéis,

farás viagens e tantas celebrações

de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,

que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, os irreparáveis uivos do lobo, na solidão.

O último dia do tempo

não é o último dia de tudo.

Fica sempre uma franja de vida

onde se sentam dois homens.

Um homem e seu contrário,

uma mulher e seu pé,

um corpo e sua memória,

um olho e seu brilho,

uma voz e seu eco,

e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.

Mereceste viver mais um ano.

Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.

Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,

mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,

e de copo na mão

esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.

O recurso da dança e do grito,

o recurso da bola colorida,

o recurso de Kant e da poesia,

todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.

O corpo gasto renova-se em espuma.

Todos os sentidos alerta funcionam.

A boca está comendo vida.

A boca está entupida de vida.

A vida escorre da boca,

lambuza as mãos, a calçada.

A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E

— ó delicioso vôo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mário Quintana

Fascinação

A vez primeira que te ouvi dos lábios
Uma singela e doce confissão,
E que travadas nossas mãos, eu pude
Ouvir bater teu casto coração,

Menos senti do que senti na hora
Em que, humilde – curvado ao teu poder,
Minha ventura e minha desventura
Pude, senhora, nos teus olhos ler.]

Então, como por vínculo secreto,
Tanto no teu amor me confundi,
Que um sono puro me tomou da vida
E ao teu olhar, senhora, adormeci.

É que os olhos, melhor que os lábios, falam
Verbo sem som, à alma que é de luz.
– Ante a fraqueza da palavra humana –
O que há de mais divino o olhar traduz.

Por ti, nessa união íntima e santa,
Como a um toque de graça do Senhor,
Ergui minh’alma que dormiu nas trevas,
E me sagrei na luz do teu amor.

Quando a tua voz puríssima – dos lábios,
De teus lábios já trêmulos correu,
Foi alcançar-me o espírito encantado
Que abrindo as asas demandara o céu.

Mas, se é certo que a baça mão da morte
A outra vida melhor nos levará,
Em Deus, minh’alma adormeceu contigo,
Em Deus, contigo um dia acordará.

Machado de Assis

Os últimos dias

Que a terra há de comer.
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço:
pare um momento; continue.

Descubra em seu movimento
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de vôo.

Prazer de ouvir música;
sobre o papel deixar que a mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
certos objetos, diferentes a uma luz nova.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como vivem, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instante
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem na certa um cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estátua: é um torso
de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte, e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas;
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entrentanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena amplo fulgurante, facho lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento, amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de justiça, revolta e sono, adeus,
adeus, vida aos outros legada.

Carlos Drummond de Andrade

Pudor

Quando fores sentindo que o fulgor
Do teu Ser se corrompe e a adolescência
Do teu gênio desmaia e perde a cor,
Entre penumbras e deliquescência,

Faze a tua sagrada penitência,
Fecha-te num silêncio superior,
Mas não mostres a tua decadência
Ao mundo que assistiu teu esplendor!

Foge de tudo para o teu nadir!
Poupa ao prazer dos homens o teu drama!
Que é mesmo triste para os olhos ver

E assistir, sobre o mesmo panorama,
A alegoria matinal subir
E a ronda dos crepúsculos descer…

Raul de Leoni

a

Flor da mocidade

Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.

Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.

Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.

Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.

Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.

Machado de Assis

No Turbilhão

No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões…

N’uma espiral, de estranhas contorsões,
E d’onde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições…

— Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!…

Antero de Quental

A CASA DEMOLIDA.

Seriam ao todo umas trinta fotografias. Já nem me lembrava mais delas, e talvez que ficassem para sempre ali, perdidas entre papéis inúteis que sabe lá Deus por que guardamos.
Encontrá-las foi, sem dúvida, pior e, se algum dia imaginasse que havia de passar pelo momento que passei, não teria batido fotografia nenhuma. Na hora, porém, achara uma boa idéia tirar os retratos, única maneira — pensei — de conservar na lembrança os cantos queridos daquela casa onde nasci e vivi os primeiros vinte e quatro felizes anos de minha vida.
Como se precisássemos de máquina fotográfica para guardar na memória as coisas que nos são caras!
Foi nas vésperas de sair, antes de retirarem os móveis, que me entregara à tarefa de fotografar tudo aquilo, tal como era até então. Gastei alguns filmes, que, mais tarde revelados, ficaram esquecidos, durante anos, na gaveta cheia de papéis, cartas, recibos e outras inutilidades.
Esta era a escada, que rangia no quinto degrau, e que era preciso pular para não acordar Mamãe. Precaução, aliás, de pouca valia, porque ela não dormia mesmo, enquanto o último dos filhos a chegar não pulasse o quinto degrau e não se recolhesse, convencido que chegava sem fazer barulho.
A idéia de fotografar este canto do jardim deveu-se — é claro — ao banco de madeira, cúmplice de tantos colóquios amorosos, geralmente inocentes, que eram inocentes as meninas daquele tempo. Ao fundo, quase encostado ao muro do vizinho, a acácia que floria todos os anos e que a moça pedante que estudava botânica um dia chamou de "linda árvore leguminosa ornamental". As flores, quando vinham, eram tantas, que não havia motivo de ciúmes, quando alguns galhos amarelos pendiam para o outro lado do muro. Mesmo assim, ao ler pela primeira vez o soneto de Raul de Leoni, lembrei-me da acácia e lamentei o fato de ela também ser ingrata e ir florir na vizinhança.
Isto aqui era a sala de jantar. A mesa grande, antiga, ficava bem ao centro, rodeada por seis cadeiras, havendo ainda mais duas sobressalentes, ao lado de cada janela, para o caso de aparecerem visitas. Quando vinham os primos recorria-se à cozinha, suas cadeiras toscas, seus bancos… tantos eram os primos!
Nas paredes, além dos pratos chineses — orgulho do velho — a indefectível "Ceia do Senhor", em reprodução pequena e discreta, e um quadro de autor desconhecido. Tão desconhecido que sua obra desde o dia da mudança está enrolada num lençol velho, guardada num armário, túmulo do pintor desconhecido.
Além das três fotografias — da escada, do jardim e da sala de jantar — existem ainda uma de cada quarto, duas da cozinha, outra do escritório de Papai. O resto é tudo do quintal. São quinze ao todo e, embora pareçam muitas, não chegam a cumprir sua missão, que, afinal, era retratar os lugares gratos à recordação.
O quintal era grande, muito grande, e maior que ele os momentos vividos ali pelo menino que hoje olha estas fotos emocionado. Cada recanto lembrava um brinquedo, um episódio. Ah Poeta, perdoe o plágio, mas resistir quem há-de? Gemia em cada canto uma tristeza, chorava em cada canto uma saudade. Agora, se ainda morasse na casa, talvez que tudo estivesse modificado na aparência, não mais que na aparência, porque, na lembrança do menino, ficou o quintal daquele tempo.
Rasgo as fotografias. De que vale sofrer por um passado que demoliram com a casa? Pedra por pedra, tijolo por tijolo, telha por telha, tudo se desmanchou. A saudade é inquebrantável, mas as fotografias eu também posso desmanchar. Vou atirando os pedacinhos pela janela, como se lá na rua houvesse uma parada, mas onde apenas há o desfile da minha saudade. E os papeizinhos vão saindo a voejar pela janela deste apartamento de quinto andar, num prédio construído onde um dia foi a casa.
Olha, Manuel Bandeira: a casa demoliram, mas o menino ainda existe.

Sérgio Porto

Nu

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos
Brilha o teu umbigo.
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus seios exiguos
– Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –
Brilham.) Ah teus seios!

Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos

Ficam nus também;
Teu olhar mais longo,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,

Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular!
Baixo até o mais fundo

De teu ser, lá onde
Me sorri tua alma,
Nua, nua, nua.

Manuel Bandeira

A mais dolorosa das histórias

Silêncio
Façam silêncio
Quero dizer-vos minha tristeza
Minha saudade e a dor

A dor que há no meu canto
Oh, silenciai
Vós que assim vos agitais
Perdidamente em vão

Meu coração vos canta
A mais dolorosa das histórias
Minha amada partiu
Partiu
Oh, grande desespero de quem ama
Ver partir o seu amor

Vinicius de Moraes

A Cristo crucificado, de autor desconhecido.

"Não me move, meu Deus, para querer-te

O céu que me hás um dia prometido:

E nem me move o inferno tão temido

Para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-t…e

Cravado nessa cruz e escarnecido.

Move-me no teu corpo tão ferido

Ver o suor de agonia que ele verte.

Moves-me ao teu amor de tal maneira,

Que a não haver o céu ainda te amara

E a não haver o inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira;

Que se o que ouso esperar não esperara,

O mesmo que te quero te quiser.

Tradução é de Manuel  Bandeira



Indecisão amorosa

– Então me digo:
"Não vou mais vê-la
e no dia seguinte
quero tê-la.
Então me digo:

– "É a última vez"
e me resigno.
Mas quando anoitece
sou eu quem ligo.

– "Começo a esquecê-la",
me repito.
E numa esquina
invento vê-la.

De novo afirmo:
Melhor parar
e aí começo
a desesperar.

O tempo todo
a estou deixando
e mais a deixo
partido
ao seu amor regresso
e partindo
vou ficando.

Afonso Romano de Sant’Anna

Eu me perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra
Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca

Um navio da costa se afastou
Sem me levar

Sophia de Mello Breyner

Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Alvares de Azevedo

A canção

Era a flor da morte
E era uma canção…
Tão linda que só se poderia ler dançando.
E que nada dizia
Em sua graça ingênua

Dos subterrâneos êxtases e horrores em que estavam mergulhadas as suas raízes…
Mas estava fragilmente pintada sobre o véu do silêncio
Onde a morte jazia com os seus cabelos esparsos
Com os seus dedos sem anéis
Com os seus lábios imóveis

E que talvez houvessem desaprendido para sempre até as sílabas com que outrora pronunciavam meu nome…
Onde a morta jazia, na sua misteriosa ingratidão!
Era uma pobre canção,
Ingênua e frágil,
Que nada dizia…

Mario Quintana

O testemunho

I – Ser
Num campo de silêncio,
onde pastam manhãs,
estou – sempre que sou.
Quis-me o campo por senda:
em meu lúcido passo,
entanto, lá não vou.
Atendo a um chamamento
feroz, tímido e brando:
são vozes maduras.
Toda recusa é vã:
asas me erguem, e sou.
Ser é resposta. E dói.
É um campo de silêncio:
oh! palpitante berço
e pasto roçagante
de infinitas manhãs
que se cantam nascidas
para a noite do mundo.
De silêncio, e contudo
ali se escuta a dor
crescer, fingida em relva.
Essa relva me sabe.
O coração é a boca
que se crispa a seu travo.
Pasto dor e silêncio
no campo onde sou.

II – Ter
Dor sofrida é salário.
O amargo que mastigo
transmuda-se na moeda
com que me cumpro e compro
o segredo fecundo
adormecido há invernos
na boca das auroras.
Para erguê-las ao campo
de silêncio onde pastam
– e de onde me chamaram -,
antes entrego as mãos
às lâminas de brasa
que me buscam, ferozes:
matutinos orvalhos,
serenos de idas tardes,
sepultos semivivos.
Com essa dor se cunha
a moeda em cuja efígie
vê-se o perfil dos anjos.
Meu salário é meu júbilo:
ao regressar-me, esplendem
alvíssaras profundas
no momento em que entrego
ao mundo – envolta em cânticos –
humilde sempremanhã.

III – Amar
No campo de silêncio
onde, existindo, sou,
não me retardo. Tardo
a ser, e quando sou
– sou pouco. O muito é a dor.
As têmporas estalam.
O tempo que ficou
e, aquém de mim, me espera
reclama o existir turvo.
Então, perdido, torno,
a caminho transbordo,
transvio-me de mim:
quando chego, sou pouco.
Crestam-me a vida vã
saudades de ter sido.
A dor é eco longínquo
de grito soterrado.
O ser é estrela extinta,
lua de treva em céu
já desabado, pedra
lavada pela chuva.
Permaneço, contudo,
e comigo a amargura,
quando o amor é o caminho
que em mim se faz e faz-me
correr ao campo branco
onde alvoradas sonham,
onde me espera o pasto
onde a fome fareja
a dor antiga, eterna:
dor esplêndida e dura
– dor de ser e de amar.
Porque de amar, perdura.
E trago dessa viagem
uma treva mais doce
para a noite do mundo.
Às vezes é uma aurora
que me aclara também:
e vejo em amargor
a face que me coube,
a face dessa noite
noite tão noite e fria
que é minha e de meu mundo,
ai, mundo meu não mundo,
perdido, em pranto, e pouco.
O muito em mim, e grande,
e sofredor grandioso
– só mesmo o coração:
pois nele cabe Deus.

Thiago de Mello

Roxo

Deixa que o levem, agora,
que a mulher cristã da sala
já quer ir embora…

Ela desceu dos teus olhos de choro,
magnética e profunda, como um rastro
de ametistas mortas…

Passou pelas olheiras fundas,
pousou nos ramalhetes de saudades,
tocou nas fitas das coroas, longas
como equimoses…

E agora, vê: vai passeando,
de leve, pelos lábios, pelo rosto,
pelo corpo,
pelos dedos, duros do teu esposo morto…
Ela quer ir embora…
Deixa que o levem, agora…

Guimarães Rosa

Quase epitáfio

O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.
Eu não tenho nada.

Amei o desejo
com o corpo todo.
Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.

Eugénio de Andrade

As fontes

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um vôo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Sophia de Mello Breyner

O filho do homen

O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo
Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.

A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.

O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.

Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.

 

Vinicius de Moraes

Dia de Natal

Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

Fernão Capelo Gaivota, Richard Bach

Este livro conta a história de uma gaivota que não se conforma em passar a vida em busca de alimento, disputando um peixe com o resto do bando…

Fernão quer mais, quer alçar largos vôos, aprender, evoluir…

Sendo assim, passa seus dias e noites tentando, e tentando mais uma vez, até a exaustão, a perfeição do vôo…

Sendo diferente de todos os outros…..

“A maior parte das gaivotas não se preocupava em aprender mais do que os simples fatos do vôo – como ir à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar, mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar…

– Por que, Fernão, por que? – perguntava-lhe a mãe.

– Por que é que lhe custa tanto ser como o resto do bando?… Por que não come?…

– … Eu só quero saber,… é tudo (respondia ele)

… Há tanto que aprender!

… Em vez da monótona labuta de procurar peixes junto dos barcos de pesca, temos uma razão para estarmos vivos! Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! Podemos aprender a voar!

Certa vez, as gaivotas reunidas o esperavam, e ele é chamado ao centro, o que poderia significar duas coisas: grande vergonha ou grande honra, e pensava consigo mesmo:

“… não quero honras… Só quero partilhar o que descobri, mostrar a todos esses horizontes que estão à nossa frente…

Mas, o Mais Velho, em nome da dignidade e tradição das gaivotas, profere o veredicto: Fernão é expulso, desterrado para uma vida solitária, acusado de ser irresponsável…

Irresponsabilidade? Meus irmãos! Quem é mais responsável do que uma gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na vida? Passamos mil anos lutando por cabeças de peixe, mas agora temos uma razão para viver, para aprender, para descobrir, para sermos livres!…

Mas seus argumentos não surtiram efeito…

Fernão Gaivota passou o resto de seus dias sozinho, mas voou muito além dos Penhascos Longínquos. A solidão não o entristecia. Entristecia-o que as outras gaivotas se tivessem recusado a acreditar na glória do vôo que as esperava. Recusaram-se a abrir os olhos e a ver.

Aprendia cada vez mais… voou através de nevoeiros cerrados e subiu acima deles para céus estonteantes de claridade… enquanto qualquer outra gaivota ficava em terra, conhecendo apenas neblina e chuva…

O que outrora desejara para o bando tinha-o agora só para si. Aprendera a voar e não lamentava o preço que pagara por isso. Fernão Gaivota descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz.

Tempos depois …

…As duas gaivotas que surgiram junto às suas asas eram puras como a luz das estrelas…

– Muito bem. Quem são vocês?

– Nós somos do seu bando, Fernão. Somos suas irmãs… Viemos para levar você para mais alto, para levá-lo para casa…

E Fernão Capelo Gaivota elevou-se com as duas gaivotas brilhantes como estrelas para desaparecer num céu perfeitamente escuro.

Enquanto se afastava da terra e ultrapassava as nuvens, em formação com as duas gaivotas, notou que o seu próprio corpo se tornava tão brilhante como os delas. Em realidade, era o mesmo Fernão Capelo Gaivota que sempre vivera por detrás dos olhos dourados. Só a forma exterior se modificara…

…A lembrança da sua vida na terra sumia-se….

Nos dias que se seguiram, Fernão verificou que neste lugar havia tanto para aprender acerca do vôo como houvera na vida que deixara para trás. Mas com uma diferença.

Aqui as gaivotas pensavam como ele. Para cada uma delas o mais importante na vida era olhar em frente e alcançar a perfeição…

– Onde estão os outros, Henrique?… Por que somos tão poucos aqui? No lugar de onde eu vim havia…

– … milhares e milhares de gaivotas. Eu sei – Henrique abanou a cabeça …

– A única resposta que encontro, Fernão, é que você é um daqueles pássaros que se encontram num milhão.

Quase todos nós percorremos um longo caminho…

Tem alguma idéia de por quantas vidas tivemos que passar até chegarmos a ter a primeira intuição de que há na vida algo mais do que comer…?

Mil vidas, Fernão, dez mil!

E depois mais cem vidas até começar a aprender que há uma coisa chamada perfeição, e ainda outras cem para nos convencermos de que o nosso objetivo na vida é encontrar essa perfeição… escolhemos o nosso próximo mundo através daquilo que aprendemos neste…

…Nunca deixem de aprender, de treinar e de lutar por compreender cada vez e melhor o perfeito e invisível princípio de toda a vida…

Vê mais longe a gaivota que voa mais alto.

Um Feliz Natal a Todos…

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —

Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —

De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

 

 

Vinicius de Moraes

Estâncias

O que eu adoro em ti não são teus olhos,
teus lindos olhos cheios de mistério,
por cujo brilho os homens deixariam
da terra inteira o mais soberbo império.

O que eu adoro em ti não são teus lábios,
onde perpétua juventude mora,
e encerram mais perfumes do que os vales
por entre as pompas festivais da aurora.

O que eu adoro em ti não é teu rosto
perante o qual o marmor descorara,
e ao contemplar a esplêndida harmonia
Fídias, o mestre, seu cinzel quebrara.

O que eu adoro em ti não é teu colo,
mais belo que o da esposa israelita,
torre de graças, encantado asilo,
aonde o gênio das paixões habita.

O que eu adoro em ti não são teus seios,
alvas pombinhas que dormindo gemem,
e do indiscreto vôo duma abelha
cheias de medo em seu abrigo tremem.

O que eu adoro em ti, ouve, é tu’alma,
pura como o sorrir de uma criança,
alheia ao mundo, alheia aos preconceitos,
rica de crenças, rica de esperança.

São as palavras de bondade infinda
que sabes murmurar aos que padecem,
os carinhos ingênuos de teus olhos
onde celestes gozos transparecem!…

Um não sei quê de grande, imaculado,
que faz-me estremecer quando tu falas,
e eleva-me o pensar além dos mundos
quando, abaixando as pálpebras, te calas.

E por isso em meus sonhos sempre vi-te
entre nuvens de incenso em aras santas,
e das turbas solícitas no meio
também contrito hei-te beijado as plantas.

E como és linda assim! Chamas divinas
cercam-te as faces plácidas e belas,
um longo manto pende-te dos ombros
salpicado de nítidas estrelas!

Na doida pira de um amor terrestre
pensei sagrar-te o coração demente…
Mas ao mirar-te deslumbrou-me o raio…
tinhas nos olhos o perdão somente!

Fagundes Varela

Natal, e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido…

Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave…

Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira

As festas anuais

O ano é marcado, por um lado, pela vilegiatura de Verão, e por outro pelas festas da Igreja. A vilegiatura aristocrática generaliza-se na classe burguesa como férias de Verão. Assiste-se ao nascimento da ideologia do repouso e do lazer e a vida escolar vai ter que se adaptar a ela, prolongando as férias.
Seja-se ou não crente, vá-se ou não à igreja, é do calendário cristão que se depende. O ano desenrola-se segundo as festas litúrgicas, do Natal ao Dia de Todos-os-Santos, do nascimento de Cristo ao dos fiéis defuntos. Estas festas litúrgicas, que são passagens obrigatórias do ano, tomam-se mais ou menos ocasião para as festas familiares. A forma mantém-se a mesma, mas ganha outro sentido. O Natal, por exemplo, será dissociado do nascimento de Jesus em Belém, para se tornar cada vez mais a festa das crianças. Assim, a família investe nas festas cristãs para se auto-celebrar.
 

Pinheiro de Natal
O pinheiro de Natal vem dos países escandinavos. Os suecos trouxeram-no durante a guerra dos Trinta Anos (primeira metade do século XVII) para a Alemanha, onde só se popularizou no início do século XIX. Ainda em 1795, Goethe, que se encontra em Leipzig em casa de um amigo, se espanta por ver na casa uma árvore de Natal (no entanto, o hábito de montar nas casas um pinheiro de Natal é atestado pelos usos da cidade de Estrasburgo em 1605…).
Em 1840 o costume alemão é introduzido simultaneamente em Inglaterra e em França. Em Inglaterra pelo príncipe Alberto, marido da rainha Vitória. Em Paris pela princesa Helena de Mecklemburgo, duquesa de Orleães, e por famílias protestantes da Alsácia e da Alemanha. Sob o Segundo Império, favorecida pela imperatriz Eugénia, a tradição do pinheiro de Natal instala-se. Os alsacianos e lorenos que emigram após a derrota de 1870 contribuem para a difundir. Para Littré e Larousse, a «Árvore de Natal» não passa de um «grande ramo» de pinheiro ou de azevinho, enfeitado e guarnecido com rebuçados e brinquedos destinados às crianças.
No final do século o costume parece ter sido realmente «nacionalizado»: todos os anos se mandam aos missionários da Gronelândia, assim como aos colonos de África, árvores de Natal completamente enfeitadas! Nas famílias são quase iguais às que conhecemos.
 

O presépio
Em 1863 Littré não fala de presépio, nem nas igrejas nem nas casas. Larousse, alguns anos mais tarde, só nas igrejas os menciona, vivos e falantes, e isto para criticar longamente os presépios provençais. São irreverentes, diz ele, já que misturam sagrado e profano e fazem rir os fiéis. Apesar disso há um progresso: o anjo tenta falar em francês e já não em dialecto. É altura de acabar com as velhas tradições…
No entanto, os presépios instalados nas casas católicas durante o Natal deviam ser numerosos, a acreditar em Monsenhor Chabot, em 1906. Vendem-se efectivamente mais de trinta mil por ano, preços entre 20 e 3.000 francos. O presépio comporta sete ou oito personagens de base.
Os presépios marselheses, com os seus santões de argila de origem italiana, têm direito a um desenvolvimento particular. Isto porquanto, além das personagens sagradas tradicionais, lhes juntam personagens profanas, como o amolador, o tamborileiro, o moleiro, o aprendiz de padeiro, etc.. A modernidade introduz-se neles sob a forma de casas de quatro ou cinco andares, que se iluminam à noite com uma vela, e de locomotivas a vapor…
 

O exemplo alemão
Antes de o pinheiro de Natal ter sido importado para França, corria um discurso sobre este costume alemão. Fala-se, curiosamente, com um tom de pena, como se o pinheiro tivesse sido uma tradição francesa caída em desuso. La Gazette des ménages lamenta, a 23 de Dezembro de 1830, que em França, e sobretudo em Paris, «a geração actual conserve pouco apego pelos velhos usos», ao contrário da Alemanha, modelo das tradições domésticas.
Em Dezembro de 1849 Le Journal des jeunes filies evoca os costumes alemães com a mesma emoção, lamentando que os franceses não saibam explorar a atmosfera mágica: na Alemanha as consoadas «descem do céu», trazidas pelo Menino Jesus ou pelo «Cristo Filho». A França deveria seguir o modelo alemão e fazer das festas de fim de ano a oportunidade de reunir as gerações à volta do lar especialmente em casa dos avós.
Os discursos de 1830 e 1849 são idênticos. A propósito das festas do final do ano glorificam a vida privada. Logo a seguir a duas revoluções, opõe-se a instabilidade da coisa pública à estabilidade da vida familiar: «As alegrias da família, conclui o jornalista em 1849, são o único lugar e a única felicidade que as revoluções não poderão nunca roubar-nos».
 

A tranquilidade das festas em família
Em 1866 Gustave Droz consagra um capítulo de Monsieur, Madame et Bébé ao Dia de Ano Novo em família. Nessa manhã são sete horas quando Bébé arranha a porta dos pais para lhes desejar «bom ano». O pai chama-o para o leito conjugal, a criada vem acender o fogo, e nesta doce atmosfera chega o momento das prendas. E Gustave Droz reivindica, glorifica esta felicidade conjugal como o que há de mais precioso. Todo o dia é marcado por encantadores quadros de família.

O primeiro dia do ano é assim um concentrado de todos os prazeres familiares, onde a família se retempera antes de começar o novo ano. Em 1866 não há já necessidade de utilizar a referência alemã. Droz faz a sua descrição como uma situação de facto. Há que pensar que quanto mais se avança no século XIX mais a certeza de que o lar traz uma felicidade preciosa e insubstituível se encontra ancorada nos espíritos. As crianças tomam-se os actores principais da festa.

Réveillon e consoada
O Réveilion é «uma refeição extraordinária que se faz a meio da noite. Particularmente a que se faz na noite de Natal» (Littré, 1869). O verbo réveillonner não existe. Da noite de São Silvestre não se fala. Não encontrei alusão alguma a festas ou refeições familiares na noite de 31 de Dezembro. Flaubert, na sua Correspondance, lembra–se de ter esperado uma vez a meia-noite a fumar, e uma outra a pensar na China.
Nas famílias católicas vai-se à missa da meia-noite, e no regresso ceia-se. Como é hábito dispensar os criados na noite de Natal, a refeição é reduzida. Comporta dois pratos tradicionais, a sopa-creme com baunilha, comida com filhós, e a morcela grelhada, e pratos trios, como peru trufado ou, para a sobremesa, confeitos e pastéis com açúcar cristalizado.

Para o Natal fabricavam-se bolos de todos os géneros, conforme as províncias, filhós, bolachas, tortas, mas não há vestígios do tronco de Natal que conhecemos. No século XIX, o tronco de Natal não passa de um grande pedaço de lenha que se põe no fogo na noite de 24 de Dezembro, para que se mantenha aceso toda a noite, vestígio de uma velha tradição do campo, onde se ficava acordado toda a noite de Natal para se assistir à missa da aurora.
De origem católica, o réveilion generaliza-se como festa profana na segunda metade do século, de tal forma que em 1908 os Usages du siécle podem afirmar: «Toda a gente festeja o réveilion». Os crentes festejam após a missa da meia-noite, os profanos, esses habituaram-se a ir ao teatro e a festejar em seguida. Já não há necessidade de um pretexto religioso para celebrar o Natal. A reunião familiar ou de amigos toma-se a única razão de ser da festa. Manteve-se na ementa da ceia de réveilion o peru e a morcela grelhada, mas a sopa-creme foi substituída por um caldo quente. Uma moda nos chega de Inglaterra: o pudding, símbolo do Christmas. Certas revistas dão a receita, caso da Fémina, a 1 de Janeiro de 1903 (outro uso inglês que tenta passar para os nossos costumes: o do abraço sob o visco; Fémina ilustra-o com uma fotografia, a 15 de Dezembro de 1903).
As consoadas, em princípio, são prendas que se dão no primeiro dia de Janeiro, segundo uma antiga tradição. Tomam a forma de gratificações obrigatórias aos criados, ao porteiro, ao carteiro… que transformam o primeiro dia do ano num dia de corveia ruinosa. Os jornais divertem-se com isso. Em Janeiro de 1830 La Mode publica um provérbio (peça em um acto) intitulado: «O dia de Ano Bom, ou as prendinhas mantêm a amizade». Põe em cena um homem perseguido por todos aqueles — do criado de quarto à esposa — que esperam as suas consoadas.
Mas, e de forma mais lata, as consoadas designam as prendas que se oferecem durante todo o período das festas de fim de ano. Alguns, como Madame de Grandmaison em 1892, tentam definir uma repartição: no Natal, prendas para as crianças; no primeiro dia do ano, consoadas para os adultos. Na realidade a distinção é difícil, porque por vezes se dão também prendas aos adultos por ocasião do Natal e às crianças igualmente no Ano Novo. Todas acabam por se chamar, indistintamente, «consoadas».

Sapatinho de Natal e prendas
Na noite de Natal as crianças colocam os seus sapatos diante da chaminé, esperando encontrá-los cheios na manhã do dia seguinte. Pelo Menino Jesus? Pelo Pai Natal? Parece que as duas personagens coexistiram, dando depois o segundo, a pouco e pouco, lugar ao primeiro.
O dicionário Robert de nomes próprios diz que o Pai Natal apareceu na Europa na segunda metade do século XIX. Teria vindo da América e seria uma criação de origem comercial. Que o comércio contribuiu para o sucesso da personagem não há a mínima dúvida, mas não a inventou. Seria necessário pensar antes em São Nicolau (santa Claus), que se festeja a 6 de Dezembro e que, nos países nórdicos, traz prendas às crianças bem comportadas — enquanto o seu associado, o padre Fouettard, deixa vergastas para os desobedientes. É provável que esta personagem tenha sido importada por imigrantes escandinavos e alemães para os Estados Unidos, aí se «comercializando».
Assim sendo, mesmo se no início do século não tinha a estatura que mais tarde adquiriu, o Pai Natal, tal como o conhecemos, estava já bem implantado em Paris: na Histoire de ma vie George Sand conta os natais da sua primeira infância (tinha seis anos em 1810): «O que não esqueci foi a crença absoluta que eu tinha na descida pelo tubo da chaminé do pequeno Pai Natal, bom velhinho de barba branca, que, à meia-noite, vinha pôr no meu sapatinho uma prenda que eu aí encontraria ao acordar. Meia-noite! Essa hora fantástica que as crianças não conhecem, e que lhes é mostrada como o termo impossível da sua vigília! Que esforços incríveis eu fazia para não adormecer antes da chegada do velhinho! Tinha ao mesmo tempo uma grande vontade e um grande medo de o ver: mas nunca conseguia manter–me acordada até lá, e no dia seguinte o meu primeiro olhar era para o meu sapato, junto à lareira. Que emoção me causava o embrulho de papel branco, porque o Pai Natal era extremamente limpo e nunca deixava de empacotar cuidadosamente a sua oferta. Eu corria, descalça, para me apoderar do meu tesouro. Nunca era uma dádiva verdadeiramente magnífica, porque não éramos ricos. Era um bolinho, uma laranja, ou, muito simplesmente, uma bela maçã vermelha. Mas parecia-me tão precioso que mal ousava comê-lo […]».

O Pai Natal nada tem a ver com o nascimento de Cristo, e a Igreja Católica opôs-se durante muito tempo a esta personagem. Entre os crentes era o Menino Jesus quem trazia as prendas às crianças na noite de Natal. Segundo Francisque Sarcey (Annales de 22 de Dezembro de 1889), as crianças «vêem-no atravessar o ar, comprimindo no peito mãos cheias de bolos e de brinquedos: sentem-no acima deles, muito bom e muito justo; e dizem que com Ele é preciso portar-se bem, senão… os sapatos ficarão vazios». Mas esta imagem não se impôs realmente, e a Igreja, que não conseguia impedir a progressão do Pai Natal de manto vermelho, barba branca e grande saco, recuperou-o, fazendo dele o fiel mensageiro do Menino Jesus e o fundador de uma moral simples da retribuição.
No mês de Dezembro, os jornais abrem tradicionalmente uma rubrica para as consoadas. Sugerem aos leitores ideias para prendas, muitas das quais são especificamente femininas: canapés, «ouvragères» (pequenos móveis contendo o necessário para a costura), «esses pequenos nadas de toucador», papéis de carta de cor, perfumados e encerados, cartões de visita com ornamentos de fantasia. Fala-se, a propósito de tal ou tal objecto, de «bonita prenda para oferecer a uma mulher»; nunca tal se dirá de um objecto destinado a um homem. A categoria das prendas tipicamente masculinas não existe no século XIX. Quando muito, são citados, aqui e ali, objectos necessários «para Homens e para Senhoras». O que não significa que os homens não recebessem prendas, mas não se falava nisso.
Para as crianças, em 1836, a prenda mais requintada é um teatrinho: «Um espectáculo asiático que representa uma dança de corda simulada por pequenas personagens de papel que se fazem mover sem ajuda aparente». Outros brinquedos são propostos porque procuram reproduzir a realidade: o moinho com água verdadeira, os pássaros que cantam, as bonecas «casadoiras» dotadas de enxovais completos. Durante muito tempo as bonecas mantêm-se um valor certo. Os ursos de peluche aparecem no início do século XX. Teddy, o urso americano, data de 1903; Martin, o urso francês, de 1906.
Segundo o Larousse du XIX’ siêcle, se as prendas destinadas às crianças seguem os caprichos da moda, a tendência recente é cultural: «Os livros belos e bons tendem progressivamente a substituir as caras inutilidades, nesta solenidade do primeiro de Janeiro». Há que ter em conta o entusiasmo do dicionário pela pedagogia e pelo progresso, mas é verdade que, de uma ponta do século à outra, os jornais aconselham a oferta de livros e fornecem bibliografias (ver, por exemplo, La Mêre de familie, em Dezembro de 1834, e, em Dezembro de 1880, La Femnie et la Farnille, journal des jeunes personnes).
As meninas que mantêm um diário anotam as prendas que receberam ou recebem dos seus próximos. As prendas que os pais dão às crianças por ocasião das festas de fim do ano não são apenas uma fonte de prazer imediato, são também um investimento no futuro: as crianças lembrar-se-ão, terão capitalizado prazeres e guardá-los-ão na sua memória. Assim se fabrica a nostalgia dos adultos, que, por sua vez, a transmitirão aos seus filhos.

Votos e visitas de Ano Novo
Como troca das consoadas que recebem os filhos por ocasião do Ano Novo apresentam votos aos pais. Escreve Ehsabeth Arnghi a 29 de Dezembro de 1877: «Também nós fazemos consoadas para o papá, Pierre, Amélie e eu aprendemos juntos Le Petit Savoyard, e escrevemo-lo numa bela folha; depois aprendi um fragmento a duas mãos, e um outro a quatro mãos, que vou tocar com a mamã; Amélie aprendeu um fragmento a quatro mãos que vai tocar comigo».
No primeiro dia do ano devem apresentar-se os votos aos parentes próximos: pai, mãe, tios e tias, irmãos e irmãs. A véspera é reservada aos avós e aos superiores. Os oito dias seguintes são para os primos e outras pessoas aparentadas, a quinzena para os íntimos, o mês inteiro para os simples conhecimentos. Eis o que representa um número considerável de visitas a fazer e de cartões de votos a escrever.
É por isso, para evitar deslocar-se demasiado, que as pessoas se contentam muitas vezes em mandar, quer por um criado, quer pelos serviços de uma empresa que é paga para tal, entregar um cartão a casa das pessoas a quem se apresentam votos. Le Figaro de 24 de Dezembro de 1854 sublinha o paradoxo deste costume parisiense. As pessoas que recebem estes cartões afectam desprezar «esta atenção a trezentos francos a centena». Mas se alguém se dispensa de o fazer eles mesmos dirão: «Fulano não sabe viver: nem sequer me mandou um cartão no dia de Ano Novo!».

“Os ritos da vida privada burguesa”
por Anne Martin-Fugier
História da vida privada
Sob a direcção de Philippe Ariès e George Duby
Vol. 4 “Da Revolução à Grande Guerra”
Edições Afrontamento
1990

Poema

Podemos falar dos sentimentos, descrever
as impressões que nos ameaçam, e revelar o vazio
que se descobre na ausência um do outro: nada,
porém, é tão inquietante como a dúvida,
o não saber de ti, ouvir o desânimo na tua voz,
agora que a tarde começa a descer e, com ela,
todas as sombras da alma. É verdade que o amor não é
apenas um registo de memórias. É no presente
que temos de o encontrar: aí, onde a tua imagem
se tornou mais real do que tu própria,
mesmo que nada te substitua. Então, é
porque as palavras são supérfluas; mas como viver
sem elas? Como encontrar outra forma de te dizer
que o amor é esta coisa tão estranha, dar o que nunca
se poderá ter, e ter o que está condenado
a perder-se? A não ser que guardemos dentro de nós,
num canto de um e outro a que só nós chegamos,
sabendo que esse pouco que nos pertence é
tudo o que cabe neste sentimento.

Nuno Júdice

Auto-Retrato Falado

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.

Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,

aves, pessoas humildes, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar

entre pedras e lagartos.

Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto

meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou

abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que

fui salvo.

Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.

Os bois me recriam.

Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço

coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.

Manoel de Barros

Tristeza no céu

No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Porque fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação,
e plumas caem. Todas as hipóteses: a graça, a eternidade,
o amor caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus.

Carlos Drummond de Andrade

A flor de maracujá

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do Sabiá,

Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!
Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,

Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá.

Pelas tranças da mãe-d’água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,

Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá.
Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,

Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová!

Pela lança ensangüentado
Da flor do maracujá!
Por tudo que o céu revela!
Por tudo que a terra dá

Eu te juro que minh’alma
De tua alma escrava está!!..
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em – a –
Mas ouve meus juramentos,

Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!

Fagundes Varela

Corridinho

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.

O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.

Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Adélia Prado

O Primeiro Filho

Entre tanta miséria e tantas coisas vis
          Deste vil grão de areia,
Ainda tenho o condão de me sentir feliz
          Com a ventura alheia.

À minha noite triste, à noite tormentosa,
          Onde busco a verdade,
Chegou com asas d’oiro a canção cor-de-rosa
          Da tua felicidade.

És pai, viste nascer um fragmento d’aurora
          Da tua alma, de ti…
Oh, momento divino em que o sorriso chora,
          E em que o pranto sorri!

Que ventura radiante! oh que ventura infinda!
          Olímpicos amores
Ter frutos em Abril com o vergel ainda
          Carregado de flores!

Deslumbramento!… ver num berço o teu futuro
          Sorrindo ao teu presente!…
Ter a mulher e a mãe: juntar o beijo puro
          Com o beijo inocente!…

Eu que vou, javali de flanco ensanguentado,
          Pelos rudes caminhos
Ajoelho quando escuto à beira dum valado
          Os murmúrios dos ninhos!

Em tudo que alvorece há um sorriso d’esperança,
          Candura imaculada!…
E quer seja na flor, quer seja na criança
          Sente-se a madrugada.

Quando, como um aroma, o hálito da infância
          Passa nos lábios meus
Vejo distintamente encurtar-se a distância
          Entre a minh’alma e Deus.

A mão para apontar o azul, mão cor-de-rosa
          Que aconselha e domina,
Será tanto mais forte e tanto mais bondosa
          Quanto mais pequenina.

Guerra Junqueiro

Para onde vai a minha vida e quem a leva?

Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?
O meu destino tem um sentido e tem um jeito,

A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala
Não me compreendo nem no que, compreeendendo, faço.

Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.
Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?

Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha
Senão com um uso não meu dos meus passos, senão

Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?
Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!

Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…"

Fernando Pessoa

Quando era jovem

Quando era jovem, eu a mim dizia:
Como passam os dias, dia a dia,
E nada conseguido ou intentado!
Mais velho, digo, com igual enfado:

Como, dia após dia, os dias vão,
Sem nada feito e nada na intenção!
Assim, naturalmente, envelhecido,
Direi, e com igual voz e sentido:

Um dia virá o dia em que já não
Direi mais nada.
Quem nada foi nem é não dirá nada.

Fernando Pessoa

Struggle for life

Sim, bem sei que o tablado em que figuro
Longe está bem de mim léguas e léguas.
Minhas pupilas viam longe… e eu cego-as;
Mas sei que finjo achar o que procuro.

Sei que o meu sonho é imenso e anseia ar puro,
Mas, no meu gabinete, o meço a réguas.
Sei que devo aguardar, velar sem tréguas,
Mas busco o sono e embrulho-me no escuro.

Sei que este meu aspecto dúbio, fez-mo
A vida em que o meu Ser supremo e belo
E os meus gestos indómitos não cabem.

Sei que sou a paródia de mim mesmo.
Sei tudo… E para quê?, porque sabê-lo?
Viver é entrar no rol dos que o não sabem!

José Régio