Porto parado

No movimento
lento
das barcaças
amarradas
o dia,
sonolento,
vai inventando as variações das nuvens…


Mário Quintana

Um comentário sobre “Porto parado

  1. Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
    e a eternidade das mãos.
    Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
    lâmpadas, todas as coisas.
    As coisas que são uma só no plural dos nomes.
    – E nós estamos dentro, subtis, e tensos
    na música.

    Esta linguagem era o disposto verão das musas,
    o meu único verão.
    A profundidade das águas onde uma mulher
    mergulha os dedos, e morre.
    Onde ela ressuscita indefinidamente.
    – Porque uma mulher toma-me
    em suas mãos livres e faz de mim
    um dardo que atira. – Sou amado,
    multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
    e doado às coisas mínimas.

    Na treva de uma carne batida como um búzio
    pelas cítaras, sou uma onda.
    Escorre minha vida imemorial pelos meandros
    cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
    dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
    E de repente eu sou uma torre queimada
    pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
    E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
    – Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
    e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
    todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

    Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
    Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
    acendo-lhe as falangetas,
    faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
    Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
    Sou eterno, amado, análogo.
    Destruo as coisas.

    Toda a água descendo é fria, fria.
    Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
    sóis que se quebram entre os dedos,
    as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
    da carne,
    tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
    e terrivelmente belo
    – não é nada que se diga com um nome.
    Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

    E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
    lírio a lírio todo o sangue interior,
    e a vida que se toca de uma escoada
    recordação.

    Toda a juventude é vingativa.
    Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
    Um dia acorda com toda a ciência, e canta
    ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
    pelos frutos,
    ou a lenta iluminação da morte como espírito

    nas paisagens de uma inspiração.
    A mulher pega nessa pedra tão jovem,
    e atira-a para o espaço.
    Sou amado. – E é uma pedra celeste.

    Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
    de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
    desse quente silêncio.
    Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
    Depois levanta-se com os olhos imensos
    e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
    aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
    Amam-me; multiplicam-me.
    Só assim eu sou eterno.

    H.Helder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s