Acordar Tarde

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva – e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos – e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais – nada a fazer
irás sozinho vida dentro

os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Al berto

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Um comentário sobre “Acordar Tarde

  1. Esta mão que escreve a ardente melancolia
    da idade
    é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
    que à imagem do mundo aberta de têmpora
    a têmpora
    ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
    a sua queimadura desde os recessos negros
    onde
    se formam
    as estações até ao cimo,
    nas sedas que se escoam com a largura
    fluvial
    da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
    e o silêncio todo branco.
    Os dedos.
    A montanha desloca-se sobre o coração que se
    alumia: a língua
    alumia-se. O mel escurece dentro da veia
    jugular talhando
    a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
    a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
    obscuras, a lua
    tece as ramas de um sangue mais salgado
    e profundo. E o marfim amadurece na terra
    como uma constelação. O dia leva-o, a noite
    traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
    vivo. A idade que escrevo
    escreve-se
    num braço fincado em ti, uma veia
    dentro
    da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
    da figura cavada
    no espelho. Ou ainda a fenda
    na fronte por onde começa a estrela animal.
    Queima-te a espaçosa
    desarrumação das imagens. E trabalha em ti
    o suspiro do sangue curvo, um alimento
    violento cheio
    da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
    desde a raiz
    dos braços, a força
    manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
    fechada, a límpida
    ferida que me atravessa desde essa tua leveza
    sombria como uma dança até
    ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
    estação é lenta quando te acrescentas ne desordem,
    nenhum
    astro
    é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
    do teu vestido.
    As palavras que escrevo correndo
    entre a limalha. A tua boca como um buraco
    luminoso,
    arterial.
    E o grande lugar anatómico em que pulsas como
    um lençol lavrado.
    A paixão é voraz, o silêncio
    alimenta-se
    fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
    toda
    no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
    Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que
    crescem
    nos quartos.
    É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
    entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
    relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
    pelo meio
    o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
    um pouco loucas
    engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
    A doçura mata.
    A luz salta às golfadas.
    A terra é alta.
    Tu és o nó de sangue que me sufoca.
    Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
    da madeira fria. És uma faca cravada na minha
    vida secreta. E como estrelas
    duplas
    consanguíneas, luzimos de um para o outro
    nas trevas

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