Ferida exposta ao tempo

É forçoso dizer que me faz falta

o poema que existe e nunca li,

como se algures

brotassem coisas que não vi

e que distantes,

carentes,

dependessem de mim.

Algo como se o intocado fosse a sinfonia

inacabada, mais: rasgada

como o quadro nunca esboçado, perdido

na abatida mão do artista.

O ausente

é uma planta

que na distância se arvora

e é tão presente

quanto o passado que aflora.

E a literatura, mais que avenida ou praça

por onde cavalga a glória, é um

monumento,

sim, de dúbia estória: granito e rima,

alegoria ao vento, lugar onde carentes

e arrogantes

cravamos nosso nome de turista:

— estive aqui, desamado,

riscando a pedra e o tempo

expondo meu sangue e nome

com o coração trespassado.

Affonso Romano de Sant’Anna,

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