PALAVRAS

Há palavras verdadeiramente mágicas. O que há de
mais assustador nos monstros é a palavra "monstro". Se
eles se chamassem leques ou ventarolas, ou outro nome
assim, todo arejado de vogais, quase tudo se perderia do
fascinante horror de Frankenstein…

Mas há palavras infelizes. Umbigo, por exemplo. Um
dia Alvaro Moreyra me disse que umbigo era a palavra
mais engraçada da língua portuguesa. Engraçada, não!
Triste é que é. Por culpa sua, como jamais poderemos
cantar o umbigo da bem-amada? Eis aí um encanto para
sempre oculto.

Em compensação, temos a palavra "voluptuosidade",
tão sinuosa, tão espreguiçada, tão ela mesmo… Por
sinal que, como a suspeitasse de galicismo, propôs o
clérigo Bluteau, já no século XVIII, substituí-la por
"voluptade" – o que bem evidencia as castas virtudes do
saudoso frade.

E não sei ao certo quem era ela, nem o que ela fez,
mas tenho a certeza de que Dona Urraca foi uma das
princesas mais infelizes do mundo.

A palavra volutabro merecia ter outro significado.

E badulaques sempre me pareceu que fossem
crótalos de bispo.

Nem faltará algum leitor metido a profundo que
me julgue à tona das coisas ao me ver tão ocupado com
palavras. Escusado lembrar-lhe que a poesia é uma das
artes plásticas e que o seu material são as palavras, as
misteriosas palavras…

Mário Quintana

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