Palavras no mar

Escrita nas ondas
a palavra Encanto
balança os náufragos,
embala os suicidas.

Lá dentro, os navios
são algas e pedras
em total olvido.

Há também tesouros
que se derramaram
e cartas de amor
circulando frias
por entre medusas.

Verdes solidões,
merencórios prantos,
queixumes de outrora,
tudo passa rápido
e os peixes devoram
e a memória apaga
e somente um palor
de lua embruxada
fica pervagando
no mar condenado.

O último hipocampo
deixa-se prender
num receptáculo
de coral e lágrimas
– do Oceano Atlântico
ou de tua boca,
triste por acaso,
por demais amarga.

A palavra Encanto
recolhe-se ao livro,
entre mil palavras
inertes à espera.

Carlos Drummond de Andrade

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