A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mario Quintana
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Um comentário sobre “A Rua dos Cataventos

  1. Por tudo que fomos.
    Por tudo o que não conseguimos ser.
    Por tudo que se perdeu.
    Por termos nos perdido.
    Pelo que queríamos que fosse e não foi.
    Pela renúncia.
    Por valores não dados.
    Por erros cometidos.
    Acertos não comemorados.
    Palavras dissipadas.
    Versos brancos.
    Chorei pela guerra cotidiana.
    Pelas tentativas de sobrevivência.
    Pelos apelos de paz não atendidos.
    Pelo amor derramado.
    Pelo amor ofendido e aprisionado.
    Pelo amor perdido.
    Pelo respeito empoeirado em cima da estante.
    Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa.
    Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados.
    Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa.
    Por tudo que foi e voou.
    E não volta mais, pois que hoje é já outro dia.
    Chorei.
    Apronto agora os meus pés na estrada.
    Ponho-me a caminhar sob sol e vento.
    Vou ali ser feliz e já volto.
    Caio Fernando Abreu

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