Soneto – XC

PENSEI morrer, senti de perto o frio,
E de quanto vivi só a ti deixava:
Tua boca era meu dia e minha noite terrestres
E tua pele a república fundada por meus beijos.

Nesse instante terminaram os livros,
A amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
A casa transparente que tu e eu construímos:
Tudo deixou de ser, menos teus olhos.

Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
É simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
Mas quando a morte vem tocar a porta

Há teu olhar apenas para tanto vazio,
Só tua claridade para não seguir sendo,
Só teu amor para fechar a sombra.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

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