Eles estavam sentados juntos…

Eles estavam sentados juntos e ele a olhava com uma expressão de suave tolerância a mesma que costumava manter diante das crises nervosas dela, crises de egoísmo, de autocensura, de pânico. A todos seus dramáticos comportamentos ele respondia com inabalável bom humor e paciência. Ela sempre se enfurecia sozinha irritava-se sozinha, suportava sozinha suas intensas convulsões emocionais, as quais ele nunca participara… Possivelmente, tratava-se de um símbolo de tensão que não ocorria entre eles sexualmente, ele recusava todos os seus primitivos e violentos desafios e hostilidades, recusava-se a entrar com ela nessa arena emocional e a reagir a sua necessidade de ciúmes, temores e conflitos, talvez se ele tivesse aceitado seus desafios e jogado o jogo que ela gostava de jogar, talvez então ela poderia ter sentido sua presença como um pacto bem maior do que meramente físico. Mas o marido de lilith não conhecia os prelúdios do desejo sexual, não conhecia nenhum dos estimulantes que certas naturezas selvagens reclamam e desse modo, em vez de responder- lhe tão logo visse seus cabelos se eriçarem, seu rosto mais vivido, seus olhos como duas tochas de fogo, seu corpo inquieto e impaciente como o de um cavalo que aguardasse o inicio da corrida, ele se refugiava atrás do muro da compreensão objetiva, dessa tranqüila e irritante aprovação, com a  qual as pessoas olham para um animal no zoológico e riem de suas mesmices, sem penetrar no seu interior. Era isso que deixava Lilith em um estado de isolamento na verdade, como um animal selvagem em pleno deserto.

Quando ela se enfurecia e sua temperatura subia, o marido deixava de existir. ele mais parecia uma branda divindade que a velasse dos céus e aguardasse que sua fúria se extinguisse por si mesma, e, se ele, feito um animal igualmente primitivo, surgisse na outra extremidade do deserto encarando-a com a mesma tensão energética nos cabelos, na pele e nos olhos, e surgisse com o mesmo corpo selvagem, pisando fortemente e procurando um único pretexto para dar o bote, enlaça-se furiosamente, sentir o calor e a forca do seu oponente, então eles poderiam rolar juntos pelo chão e as mordidas poderiam tornar se outras espécie e a luta se transformaria em uma abraço e os puxões de cabelos fariam com que suas bocas seus dentes e línguas se unissem e devido a fúria, seus órgãos genitais se roçariam mutuamente soltando faíscas e os dois corpos sentiriam a necessidade de penetrar um no outro para por fim nessa formidável tensão.

Anais Nin, Delta de Venus.

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