A pedra do reino

                                         A Ariano Suassuna

1.
Foi bem saber-se que o Sertão
não só fala a língua do não.
Para o Brasil, ele é o Nordeste
que, quando cada seca desce,
que quando não chove em seu reino,
segue o que algum remoto texto:
descer para a beira do mar
(que não se bebe e pouco dá).

2
Os escritores que do Brejo,
ou que da Mata, tem o sestro
de só dar a vê-lo no pouco,
no quando em que o vê, sertão-osso.
Para o litoral, o esqueleto
é o ser, o estilo sertanejo,
que pode dar uma estrutur
ao discurso que se discursa.

3
Tu, que conviveste o Sertão
quando no sim esquece o não,
e sabes seu viver ambíguo,
vestido de sola e de mitos,
a quem só o vê retirante,
vazio do que nele é cante,
nos deste a ver que nele o homem
não é só o capaz de sede e fome.

4
Sertanejo, nos explicaste
como gente à beira do quase,
que habita caatigas sem mel,
cria os romances de cordel:
o espaço mágico e o feérico,
sem o imediato e o famélico,
fantástico espaço suassuna,
que ensina que o deserto funda.

João Cabral de Melo

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