Nesta vida

Nesta vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.

Mar sou: baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu.
E só me encontro quando de mim fujo.
Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera
alma que em mim estava?
Atava pelos braços corporais,
Não podia
ser mais.

Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem
bem olhou,
A Presença Real sob o disfarce
Da minha alma presente sem intento.

Fernando Pessoa

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