Colheita

 

Houve uma altura em que me preocupava
com o significado das palavras; o seu
sentido tinha de corresponder a qualquer coisa de
compreensível, como se tudo no mundo tivesse
uma explicação. Por vezes, no entanto, havia imagens
que não tinham qualquer correspondência
com a realidade: flores abstractas cujas pétalas
eu colhera num campo da memória, uma a uma,
para as colar em cada verso. E essa contradição
entre o que eu queria dizer e o
que estava escrito, em que não havia
uma relação imediata com o pensamento,
inquietava-me. Porém, ao descobrir que
essa inquietação faz parte do poema, pus
de parte o significado, e limpei de pétalas a
página. Fiquei com as palvras no seu campo
de significações, verdes como as folhas
da primavera; e ao passar sobre os ramos da
frase, arranhando-me nas suas consoantes mais
ásperas, e respirando o ar fresco das vogais,
percebi que o sentido se encontra no gesto
em que lanço à terra a semente do acaso,
para que dela nasçam arbustos
em cujos ramos se abrigam os pássaros
que cantam nesta estrofe.

Nuno Júdice

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