Dentro da casa

Dentro da casa o mar ressoa como no interior de um búzio.
Quando abro as gavetas a minha roupa cheira a maresia como um molho de algas.
Profundos os espelhos reflectem demoradamente os dias.
E em frente das janelas o mar brilha como inumeráveis espelhos quebrados.
Os móveis são escuros e finos, sem verniz, encerados.
O chão é esfregado, as paredes caiadas.
Em todas as coisas está inscrita uma limpeza de sal.
A exaltação marinha habita o ar.
A casa é aberta e secreta, veemente e serena.
Nela o menor ruído-tinir de loiça, degrau que range, respiração do vento, comboio que ao longe passa- é escutado.
A casa está atenta a cada coisa.
Todos os dias a renovam.
A mais leve nuvem que passa ensombra o vidro dos espelhos.
Nela cada dia é único e precioso como se contivesse a totalidade do tempo.
No brilho da mesa, na transparência do copo há como que uma intensidade repousada.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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