Razões de amor…

I

 

Gosto desse teu ar tristonho,

desse olhar de melancolia,

mesmo nos momentos de prazer e de sonho,

ou nos instantes de amor e de alegria…

 

Gosto dessa tua expressão de ternura

tão suave e feminina,

desse olhar de ventura

com um brilho úmido a luzir num profundo langor…

Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,

tu que dás sempre a impressão de quem precisa

de proteção e amor…

 

Desse teu ar de menina, desse teu ar

que te faz mais mulher

ao meu olhar…

 

Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso

com que falas, como se acariciasses

até as palavras que dizes;

de tua presença, que é assim como um quieto remanso,

um pedaço de sombra onde me abrigo

quando somos felizes…

 

 Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,

com que te encostas em meu peito

e te deixas ficar

entre ternuras e embaraços,

como se tudo ficasse, de repente, parado,

e teu mundo pudesse ser delimitado

pelos meus braços…

 

Gosto de ti assim, pequenina, macia,

quando te aperto contra mim e te sinto

minha

(inteiramente nua)

e tens um ar abandonado, como quem caminha

sonâmbula, por um estranho caminho

feito de céu e de lua…

 

II

 

Gosto de ti

desesperadamente:

 

dos teus cabelos de tarde

onde mergulho o rosto,

dos teus olhos de remanso

onde me morro e descanso;

dos teus seios de ambrósias,

brancos manjares trementes

com dois vermelhos morangos

para as minhas alegrias;

 

de teu ventre – uma enseada

 porto sem cais e sem mar –

branca areia à espera da onda

que em vaivém vai se espraiar;

de teus quadris, instrumento

de tantas curvas, convexo,

de tuas coxas que lembram

as brancas asas do sexo;

 

 do teu corpo só de alvuras

 das infinitas ternuras

de tuas mãos, que são ninhos

de aconchegos e carinhos,

 

mãos angorás, que parecem

que só de carícias tecem

esses desejos da gente…

 

Gosto de ti

desesperadamente;

gosto de ti, toda, inteira

nua, nua, bela, bela,

dos teus cabelos de tarde

aos teus pés de Cinderela,

(há dois pássaros inquietos

em teus pequeninos pés)

 gosto de ti, feiticeira,

tal como tu és…

 

 

J. G. de Araújo Jorge

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