Canção das Metades

 

Até agora, a maior metade atravessei
desta vida flutuante – eis a palavra mágica:
pois nos veda provar alegrias além
do que podemos ter! A metade da vida
é o período melhor a que alguém chega, quando
sabe andar devagar e, assim, anda em sossego.

Vasto mundo terás meio entre o céu e a terra;
mora a meio caminho entre a cidade e o campo,
tem lavouras a meio entre rios e montanhas;
sê meio intelectual, meio fidalgo e meio
comerciante; vive em meio aos que são nobres,
mas também em meio do povinho comum.
Seja tua casa meio ornada, meio simples
e, tendo móveis bons, pareça meio nua;
tuas roupas, meio antigas e meio novas;
as refeições, meio triviais, mas meio epicuristas.
Tem criados não muito astutos, nem estúpidos;
mulher não muito feia nem bela em excesso.

Sinto em meu coração que, assim, sou meio Buda,
quase meio bendito espírito taoísta.
Metade do que sou ao Pai do céu devolvo
e a outra metade deixo à minha descendência,
meio pensando em tudo o que é mister prover
para a posteridade e meio preocupado
em como responder a Deus, depois que o corpo
afinal repousar.

É mais destro em beber quem só meio ébrio fica,
e a flor ao entreabrir-se mais linda se revela;
mais firme é o navegar do barco a meia vela;
melhor trota o corcel de rédeas meio presas.

Quem tem meios demais, soma-lhes a ansiedade
quem de menos os tem, ganha sabor de posse.
Como a vida se faz de doçura e amargor,
quem só a metade prova é mais arguto e sábio.

Li Mi-an, poeta chinesa do século XVI

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