Tudo que sinto, tudo quanto penso

Tudo que sinto, tudo quanto penso,

sem que eu o queira se me converteu

numa vasta planície, um vago extenço

onde há só nada sob o nulo céu.

 

Não existo senão para saber

que não existo, e, como a recordar,

vejo boiar a inércia do meu ser

no meu ser sem inércia, inútil mar.

 

Sargaço fluído de uma hora incerta,

quem me dará que o tenha por visão?

Nada, nem o que tolda a descoberta

como o saber que existe o coração.

 

Fernando Pessoa

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