Flores do Mal: LXXXI – “Spleen”

E quando pesa o céu, tal tampa grave e baça,
No espírito a gemer e em que só o tédio existe,
E do horizonte enfim todo o círculo abraça,
Vertendo um dia negro e mais que as noites triste;
E quando a terra muda em úmida enxovia,
Em que a esperança é assim morcego pelos murros,
Onde sua asa vibra em medrosa agonia,
Roçando a testa por forros os mais impuros;
E quando a chuva alonga estas linhas tamanhas,
Sempre a imitar as grades de vasta cadeia,
E o calado tropel das infames aranhas
Em nosso coração estende a sua teia,
Os sinos se dispõem com loucura a saltar,
Lançando para o céu o seu vagido horrente,
Espírito que vai errante, sem ter lar,
E começa a gemer tão obstinadamente.
– E os carros funerais, sem música ou tambor,
Lentos passam por mim e a esperança destarte
Vencida, chora; e a angústia estorce-se de dor,
Sobre o meu crânio implanta o seu negro estandarte.

Charles Baudeleire

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