Saudação a Walt Whitman

No meu verso canto comboios, canto automóveis, canto vapores,

Mas no meu verso, por mais que o ice, ha só ritmos e ideias,

Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,

Não há a realidade da pedra mais nula da rua,

Da pedra que por acaso ninguém olha ao pisar

Mas que pode ser olhada, pegada na mão, pisada,

E os meus versos são como ideias que podem não ser compreendidas.

O que eu quero não é cantar o ferro: é o ferro.

O que eu penso é dar só a vida do aço — e não o aço —

O que me enfurece em todas as emoções da inteligência

É não trocar o meu ritmo que imita a água cantante

Pelo frescor real da água tocando-me nas mãos,

Pelo som visível do rio onde posso entrar e molhar-me,

Que pode deixar o meu fato a escorrer,

Onde me posso afogar, se quiser,

Que tem a divindade natural de estar ali sem literatura.

Merda! Mil vezes merda para tudo o que eu não posso fazer.

Que tudo, Walt — […] ? — que é tudo, tudo, tudo?

Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus

Para ter poemas escritos a Universo e a Realidades por nossa carne

E ter ideias-coisas e o pensamento Infinito!

Para ter estrelas reais dentro do meu pensamento-ser

Nomes-números nos confins da minha emoção-a-Terra.

 

Alvaro de Campos

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