Despedidas

Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!

Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant’anna

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Sou um dos 999.999 poetas do país, Fragmento 1

Introdução sócio-individual do tema

Sou um dos 999.999 poetas do país
que escrevem enquanto caminhões descem pesados de cereais
e celulose
ministros acertam o frete dos pinheiros
carreados em navios alimentados com o óleo
que o mais pobre pagará.
(- Estes são dados sociais
de que não quero falar, embora
tenha aprendido em manuais
que o escritor deve tomar o seu lugar na História
e o seu cotidiano alterar.)
Sou um dos 999.999 poetas do país
com mãe de olhos verdes e pai amulatado
ela – a força de áries na azáfama da casa
a decisão do imigrante que veio se plantar
ele – capitão de milícias tocando flauta em meio
às balas
lendo salmos em Esperanto sobre a mesa
domingueira.
(- Estes são sinais particulares
que não quero remarcar, embora
tenha aprendido em manuais
que o que distingüe a escrita do homem
são seus traços pessoais que ninguém pode
imitar.)

Affonso Romano de Sant’Anna

Catando os cacos do caos

Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
…………..- como se fosse flor.

Catar os restos e ossos
da utopia
…………..como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.

Catar a verdade contida
em cada concha da mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
………….- do dia cão.

Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.

Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.

Catar os cacos de Dionísio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.

Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
………….- como era antes.

Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.

É um quebra-cabeça? ……….Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção.
…..Cacos de mim
…..Cacos do não
…..Cacos do sim
…..Cacos do antes
…..Cacos do fim.

Não é dentro
……nem fora
embora seja dentro e fora
…..no nunca e a toda hora
que violento
….o sentido nos deflora.

Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora.

Affonso Romano de Sant’Anna

Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e o omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant’Anna

Vai, ano velho

Vai, ano velho, vai de vez,
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um,
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum, pra trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,
a casa e o coração.
Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.

Vem, Ano Novo, vem veloz,
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nossso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso,
e sacia em nós a fome
– de utopia.

Vem na areia da ampulheta com a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se
se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.
Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.
Entre flores de urânio
é permitido sonhar.

Affonso Romano de Sant’Anna

Ferida exposta ao tempo

É forçoso dizer que me faz falta

o poema que existe e nunca li,

como se algures

brotassem coisas que não vi

e que distantes,

carentes,

dependessem de mim.

Algo como se o intocado fosse a sinfonia

inacabada, mais: rasgada

como o quadro nunca esboçado, perdido

na abatida mão do artista.

O ausente

é uma planta

que na distância se arvora

e é tão presente

quanto o passado que aflora.

E a literatura, mais que avenida ou praça

por onde cavalga a glória, é um

monumento,

sim, de dúbia estória: granito e rima,

alegoria ao vento, lugar onde carentes

e arrogantes

cravamos nosso nome de turista:

— estive aqui, desamado,

riscando a pedra e o tempo

expondo meu sangue e nome

com o coração trespassado.

Affonso Romano de Sant’Anna,

Limitações do flerte

 

 

Que fim levaram aquelas

que flertamos nos bares,

esquinas e aeroportos?

Não aquelas que levamos

ao restaurante, parques

e camas, mas aquelas tocadas

num leve aceno, de longe,

corpo fluindo e morrendo

na ponte aérea do instante.

 

Mas por que pensar nas distantes

que nem tocamos na mão ou fronte?

Preferimos jogar com a ausente?

É essa a nossa concreta fonte?

Como se vê, não adianta, não se aprende.

A gente aqui pensando nas que flertamos

de leve, em dois minutos intensos,

entre um sorriso e o gesto frustro,

enquanto, perto, pisamos brutos

o calcanhar da que está junto,

ou pulamos na jugular

da que nos cobre de frutos,

olhando por sobre os muros,

as que ondeiam seus bustos

sobre a linha do horizonte.

 

– Amar com os olhos é mais fácil

e anônimo? – É mais fútil? É declarar

por telefone, apenas com um fio

de voz que enrosca os corpos e mentes,

ou melhor, numa vaga prolação, sem dormente

ou trilho que leve o trem-passageiro

ao outro corpo-estação.

 

Mas como é vegetativo esse amar plantado,

esgalhando o olhar furtivamente. A isso,

prefiro carnívoras plantas que se abraçam

e num sufoco se esmigalham deixando ao chão

sementes em que piso, convertendo a morte havida

em refluir de raízes.

Flertar é texto-antigo, é bordar caligrafias

quando há guerras e telegramas. Flertar é prefácio

e eu quero logo desfolhar o livro. Flertar é usar binóculos

devastando camarotes oblíquos

quando o drama está no palco

– e em nossos corpos aflitos.

 

Amar assim tão voyeurista, é tão perverso

como amar só por carta, com a caneta em riste e triste,

é pior que conhecer estrela só na foto,

é apenas vê-la de luneta, correr atrás de um cometa.

É chamar a fêmea sem macho

na pradaria. É cear ante um retrato

e uma cadeira vazia em frente.

 

Isto de amar de longe, só com os olhos,

não é sequer ir à caça. É ir à exposição

de animal de raça. É ver decoração em loja,

olhar por trás da vitrina um feriado que passa.

 

É coisa de telegrafista ou coisa de mau amador

de rádio, ouvindo só os ruídos

do outro lado da antena e cama.

 

Não é tocar de ouvido partitura desconhecida,

o músico, nisso, é o contrário, vai mais fundo

pois pega com as mãos e arpeja

a música com os dedos.

 

E eu tenho essa mania de amar como o invasor

pulando os muros de Roma, como o astronauta

se acolchoando na câmara, como o casulo

se entre-tecendo no claro-e-escuro,

enfim, como a gavinha da barroca parreira

crescendo a sede das vinhas.

 

Um amar estabanado, como a criança quebrando

o delicado brinquedo e derramando a alma

dos bichos sobre o tapete do medo.

 

Comigo é assim:

 

ficar olhando não basta. Vou logo

precipitando borrasca e estrela.

Que se cuide o olhar alheio quando

olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil,

peço café e pijama, e fico pastando

com esse olhar de boi manso

no breve espaço da cama.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

Indecisão amorosa

– Então me digo:
"Não vou mais vê-la
e no dia seguinte
quero tê-la.
Então me digo:

– "É a última vez"
e me resigno.
Mas quando anoitece
sou eu quem ligo.

– "Começo a esquecê-la",
me repito.
E numa esquina
invento vê-la.

De novo afirmo:
Melhor parar
e aí começo
a desesperar.

O tempo todo
a estou deixando
e mais a deixo
partido
ao seu amor regresso
e partindo
vou ficando.

Afonso Romano de Sant’Anna

Amor e Medo

Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.

Affonso Romano de Sant´anna

Carta aos mortos

Amigos, nada mudou em essência.

Os salários mal dão para os gastos,

As guerras não terminaram

E há vírus novos e terríveis,

Embora o avanço da medicina.

Volta e meia um vizinho

Tomba morto por questões de amor.

Há filmes interessantes, é verdade,

E como sempre, mulheres portentosas

Nos seduzem com suas bocas e pernas,

Mas em matéria de amor

Não inventamos nenhuma posição nova.

Alguns cosmonautas ficam no espaço

Seis meses ou mais, testando a engrenagem

E a solidão.

Em olimpíada há recordes previstos

E nos países, avanços e recuos sociais.

Mas nenhum pássaro mudou seu canto

Com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,

Relemos o Quixote, e a primavera

Chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas

Se perderam.

Ninguém mais coloca cadeiras na calçada

Ou toma a fresca da tarde,

Mas temos máquinas velocíssimas

Que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros

E a formação das galáxias

Não avançamos nada.

Roupas vão e voltam com as modas.

Governos fortes caem, outros se levantam,

Países se dividem

E as formigas e abelhas continuam

Fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,

Discutimos futebol na esquina

Morremos em estúpidos desastres

E volta e meia

Um de nós olha o céu quando estrelado

Com o mesmo pasmo das cavernas.

E cada geração, insolente,

Continua a achar

Que vive no ápice da história.

Affonso Romano de Sant’Anna

Desejos

Disto eu gostaria:
ver a queda frutífera dos pinhões sobre o gramado
e não a queda do operário dos andaimes
e o sobe-e-desce de ditadores nos palácios.

Disto eu gostaria:
ouvir minha mulher contar:
-Vi naquela árvore um pica-pau em plena ação,
e não:-Os preços do mercado estão um horror!

Disto eu gostaria:
que a filha me narrasse:
-As formigas neste inverno estão dando tempo às flores,
e não:-Me assaltaram outra vez no ônibus do colégio.

Disto eu gostaria:
que os jornais trouxessem notícias das migrações
dos pássaros
que me falassem da constelação de Andrômeda
e da muralha de galáxias que, ansiosas, viajam
a 300 km por segundo ao nosso encontro.

Disto eu gostaria:
saber a floração de cada planta,
as mais silvestres sobretudo,
e não a cotação das bolsas
nem as glórias literárias.

Disto eu gostaria:
ser aquele pequeno inseto de olhos luminosos
que a mulher descobriu à noite no gramado
para quem o escuro é o melhor dos mundos.

Affonso Romano de Sant’Anna

Indecisão amorosa

– Então me digo:
"Não vou mais vê-la
e no dia seguinte
quero tê-la.

Então me digo:
– "É a última vez"
e me resigno.
Mas quando anoitece
sou eu quem ligo.
– "Começo a esquecê-la",
me repito.

E numa esquina
invento vê-la.
De novo afirmo:
Melhor parar
e aí começo
a desesperar.

O tempo todo
a estou deixando
e mais a deixo
partido
ao seu amor regresso
e partindo
vou ficando.

Afonso Romano de Sant’Anna

Limitações do flerte

Que fim levaram aquelas
que flertamos nos bares,
esquinas e aeroportos?
Não aquelas que levamos
ao restaurante, parques
e camas, mas aquelas tocadas
num leve aceno, de longe,
corpo fluindo e morrendo
na ponte aérea do instante.

Mas por que pensar nas distantes
que nem tocamos na mão ou fronte?
Preferimos jogar com a ausente?
É essa a nossa concreta fonte?
Como se vê, não adianta, não se aprende.

A gente aqui pensando nas que flertamos
de leve, em dois minutos intensos,
entre um sorriso e o gesto frustro,
enquanto, perto, pisamos brutos
o calcanhar da que está junto,
ou pulamos na jugular
da que nos cobre de frutos,
olhando por sobre os muros,
as que ondeiam seus bustos
sobre a linha do horizonte.

– Amar com os olhos é mais fácil
e anônimo? – É mais fútil? É declarar
por telefone, apenas com um fio
de voz que enrosca os corpos e mentes,
ou melhor, numa vaga prolação, sem dormente
ou trilho que leve o trem-passageiro
ao outro corpo-estação.

Mas como é vegetativo esse amar plantado,
esgalhando o olhar furtivamente. A isso,
prefiro carnívoras plantas que se abraçam
e num sufoco se esmigalham deixando ao chão
sementes em que piso, convertendo a morte havida
em refluir de raízes.

Flertar é texto-antigo, é bordar caligrafias
quando há guerras e telegramas. Flertar é prefácio
e eu quero logo desfolhar o livro. Flertar é usar binóculos
devastando camarotes oblíquos
quando o drama está no palco
– e em nossos corpos aflitos.

Amar assim tão voyeurista, é tão perverso
como amar só por carta, com a caneta em riste e triste,
é pior que conhecer estrela só na foto,
é apenas vê-la de luneta, correr atrás de um cometa.
É chamar a fêmea sem macho
na pradaria. É cear ante um retrato
e uma cadeira vazia em frente.

Isto de amar de longe, só com os olhos,
não é sequer ir à caça. É ir à exposição
de animal de raça. É ver decoração em loja,
olhar por trás da vitrina um feriado que passa.

É coisa de telegrafista ou coisa de mau amador
de rádio, ouvindo só os ruídos
do outro lado da antena e cama.
Não é tocar de ouvido partitura desconhecida,
o músico, nisso, é o contrário, vai mais fundo
pois pega com as mãos e arpeja
a música com os dedos.

E eu tenho essa mania de amar como o invasor
pulando os muros de Roma, como o astronauta
se acolchoando na câmara, como o casulo
se entre-tecendo no claro-e-escuro,
enfim, como a gavinha da barroca parreira
crescendo a sede das vinhas.

Um amar estabanado, como a criança quebrando
o delicado brinquedo e derramando a alma
dos bichos sobre o tapete do medo.
Comigo é assim:
ficar olhando não basta. Vou logo
precipitando borrasca e estrela.

Que se cuide o olhar alheio quando
olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil,
peço café e pijama, e fico pastando
com esse olhar de boi manso
no breve espaço da cama.

Affonso Romano de Sant’Anna

A solidão do corpo

Na solidão,
o corpo pode gritar
ou fincar-se como um mastro,
que nem a dor e o alíseo vento
lhe trarão de volta a chave.

Nada há de pélagos e escarpas
no senho do que se esculpiu de trevas,
antes,
é liso e verde como um fruto inteiro.
Parece que dorme.
Há desalinho nos braços e cabelos.

As partes
despojadas sobre o branco pasto do lençol.
Parece de pedra
com sua andadura móvel nas calçadas
e um senho opaco em meio às roupas.

Um corpo só,
é como fruto na pirâmide:
– não vinga.
Se queima em seus desertos
e arde suas dormências,
mas não conhece reflexo.

É opaco
como se alheio às artimanhas nos telhados,
aos veludos na calçada
e alheio à luva sobre a chave.

Um corpo só,
é duro como a rocha
que não se penetra de espadas,
que não se penetra de falas,
que não se penetra de asas.

A um corpo só,
nem raios lhe abrem o riso,
nem seus cabelos dão ninhos.
Um corpo só,
é quando amadurece a própria morte.

Affonso Romano de Sant’Anna

O Amor e o Outro

Não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.

Do meu jeito amo
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.

Affonso Romano de Sant’Anna

Limites do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.

É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.

Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

– ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

Affonso Romano de Sant’Anna

Limites do amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,

te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,

sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

– ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar.

Affonso Romano de Sant’Anna

Desejos

Disto eu gostaria:
ver a queda frutífera dos pinhões sobre o gramado
e não a queda do operário dos andaimes
e o sobe-e-desce de ditadores nos palácios.

Disto eu gostaria:
ouvir minha mulher contar:
-Vi naquela árvore um pica-pau em plena ação,
e não:-Os preços do mercado estão um horror!

Disto eu gostaria:
que a filha me narrasse:
-As formigas neste inverno estão dando tempo às flores,
e não:-Me assaltaram outra vez no ônibus do colégio.

Disto eu gostaria:
que os jornais trouxessem notícias das migrações
dos pássaros
que me falassem da constelação de Andrômeda
e da muralha de galáxias que, ansiosas, viajam
a 300 km por segundo ao nosso encontro.

Disto eu gostaria:
saber a floração de cada planta,
as mais silvestres sobretudo,
e não a cotação das bolsas
nem as glórias literárias.

Disto eu gostaria:
ser aquele pequeno inseto de olhos luminosos
que a mulher descobriu à noite no gramado
para quem o escuro é o melhor dos mundos.

Affonso Romano de Sant’Anna

Limites do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,

te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.

Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:
– ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

Affonso Romano de Sant’Anna

Confluência

Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:
no corpo teu, o meu desejo
– é ancorada errância.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

Despedidas

 

Começo a olhar as coisas

como quem, se despedindo, se surpreende

com a singularidade

que cada coisa tem

de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha

a meio metro de mim, tão íntimo,

essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,

a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas

daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas

quanto mais habito a noite!

Nada mais é gratuito, tudo é ritual

Começo a amar as coisas

com o desprendimento que só têm

os que amando tudo o que perderam

já não mentem.

 

Affonso Romano de Sant´Anna

O Duplo

Debaixo de minha mesa
tem sempre um cão faminto
-que me alimenta a tristeza.

Debaixo de minha cama
tem sempre um fantasma vivo
-que perturba quem me ama.

Debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
-pensando que eu sou ele.

 
Debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta
-e alguém calado que grita.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

O Amor e o Outro

Não amo

melhor

nem pior

do que ninguém.

Do meu jeito amo

Ora esquisito, ora fogoso,

às vezes aflito

ou ensandecido de gozo.

Já amei

até com nojo.

Coisas fabulosas

acontecem-me no leito. Nem sempre

de mim dependem, confesso.

O corpo do outro

é que é sempre surpreendente.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

Poemas para a amiga

Contemplo agora
o leito que vazio
se contempla.
Contemplo agora
o leito que vazio
em mim se estende
e se me aproximo
existe qualquer coisa
trescalando aroma em mim.

Onde o teu corpo, amante-amiga,
onde o carinho
que compungido em recebia
e aquela forma que tranquila
ainda ontem descobrias?

Agora eu te diria
o quanto te agradeço o corpo teu
se o me dás ou se o me tomas,
e o recolhendo em mim,
em mim me vais colhendo,
como eu que tomo em ti
o que de ti me vais doando.

Eu muito te agradeço este teu corpo
quando nos leitos o estendias e o me davas,
às vezes, temerosa,
e, ofegante, às vezes,
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste)
em que extasiado ao contemplá-lo
em mim me conturbei
– (o percebeste) me aguardaste
e nos olhos te guardei.

Eu muito te agradeço, amante-amiga,
este teu corpo que com fúria eu possuía,
corpo que eu mais amava
quanto mais o via,
pequeno e manso enigma
que eu decifrei como podia.

Agora eu te diria
o que não soubeste
e nunca o saberias:
o que naquele instante eu te ofertava
nunca a mim eu já doara
e nunca o doaria.

Nele eu fui pousar
quando cansado e dúbio,
dele eu fui tomar
quando ofegante e rubro,
dele e nele eu revivia
e foi por ele que eu senti
a solidão, e o amor
que em mim havia.

Teu corpo quando amava
me excedia,
e me excedendo
com o amor foi me envolvendo,
e nesse amor absorvente
de tal forma absorvendo,
que agora que o não tenho
não sei como permaneço nesta ausência
em que tuas formas se envolveram,
tanto o amor
e a forma do teu corpo
no meu corpo se inscreveram.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

Intervalo Amoroso

O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?

 

Affonso Romano de Sant’Anna

Arte-final

Não basta um grande amor

para fazer poemas.

E o amor dos artistas, não se enganem,

não é mais belo

que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente

se aplica a escrever com o corpo

o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é a letra,

e outra o ato,

– quem toma uma por outra

confunde e mente.

Affonso Romano de Sant’Anna

Silêncio Amoroso

Deixa que eu te ame em silêncio.

Não pergunte, não se explique, deixe

que nossas línguas se toquem, e as bocas

e a pele

falem seus líquidos desejos.

Deixa que eu te ame sem palavras

a não ser aquelas que na lembrança ficarão

pulsando para sempre

como se amor e vida

fossem um discurso

de impronunciáveis emoções.

Affonso Romano de Sant’ Anna