EM DESPEDIDA, PROIBINDO O PRANTO

Como esses santos homens que se apagam
    Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
    Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
    Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
    Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
    E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
    Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
    (Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
    Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
    Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
    Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
    Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
    Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
    Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
    Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
    Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
    E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
    Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
    Encontrar meu final em meu começo.
 

John Donne

Nascer do dia

Fica, doçura, não te levantes;
A luz que brilha vem dos teus olhos neste instante;
Não é o dia que se levanta, meu coração é que tropeça
Porque devemos tu e eu nos separar com pressa.
Fica, senão minhas alegrias perecem,
Ainda na infância, já se extinguem.

John Donne

O Êxtase

Onde, qual almofada sôbre o leito,

A areia grávida inchou para apoiar

A inclinada cabeça da violeta,

Nós nos sentamos, olhar contra olhar.

Nossas mãos duramente cimentadas

No firme bálsamo que delas vem,

Nossas vistas trançadas e tecendo

Os olhos em um duplo filamento;

Enxertar mão em mão é até agora

Nossa única forma de atadura

E modelar nos olhos as figuras

A nossa única propagação.

Como entre dois exércitos iguais,

Na incerteza, o Acaso se suspende,

Nossas almas (dos corpos apartadas

Por antecipação) entre ambos pendem.

E enquanto alma com alma negocia,

Estátuas sepulcrais ali quedamos

Todo o dia na mesma posição,

Sem mínima palavra, todo o dia.

Se alguém – pelo amor tão refinado

Que entendesse das almas a linguagem,

E por virtude desse amor tornado

Só pensamento – a elas se chegasse,

Pudera (sem saber que alma falava

Pois ambas eram uma só palavras),

Nova sublimação tomar do instante

E retornar mais puro do que antes.

Nosso Êxtase – dizemos – nos dá nexo

E nos mostra do amor o objetivo,

Vemos agora que não foi o sexo,

Vemos que não soubemos o motivo.

Mas que assim como as almas são misturas

Ignoradas, o amor reanima a alma

A misturada alma de quem ama,

Compondo duas numa e uma em duas.

Transplanta a violeta solitária:

A força, a cor, a forma, tudo o que era

Até aqui degenerado e raro

Ora se multiplica e regenera.

Pois quando o amor assim uma na outra

Interanimou duas almas,

A alma melhor que dessas duas brota

A magra solidão derrota,

E nós que somos essa alma jovem,

Nossa composição já conhecemos

Por isto: os átomos de que nascemos

São almas que não mais se movem.

Mas que distância e distração as nossas!

Aos corpos não convém fazermos guerra:

Não sendo nós, não convém fazermos guerra:

Inteligências, eles as esferas.

Ao contrário, devemos ser-lhes gratas

Por nos (a nós) haverem atraído,

Emprestando-nos forças e sentidos.

Escória, não, mas liga que nos ata.

A influência dos céus em nós atua

Só depois de se ter impresso no ar.

Também é lei de amor que alma não flua

Em alma sem os corpos transpassar.

Como o sangue trabalha para dar

Espíritos, que às almas são conformes,

Pois tais dedos carecem de apertar

Esse invisível nó que nos faz homens,

Assim as almas dos amantes devem

Descer às afeições e às faculdades

Que os sentidos atingem e percebem,

Senão um Príncipe jaz aprisionado.

Aos corpos, finalmente, retornemos,

Descortinando o amor a toda a gente;

Os mistérios do amor, a alma os sente,

Porém o corpo é as páginas que lemos.

Se alguém – amante como nós – tiver

Esse diálogo a um ouvido a ambos,

Que observe ainda e não verá qualquer

Mudança quando aos corpos nos mudamos.

John Donne

Elegia

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixe que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a  vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

John Donne

Elegia: Indo para o leito

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.

Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.

Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.

O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.

Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo

Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;

Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:

O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;

Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

 

John Donne

Preleção sobre a sombra

Espera, que uma preleção eu vou te ler,
Amor, sobre o amor e sua filosofia.
Nessas três horas de nosso lazer,
Aqui vagando, um par nos precedia

De sombras, que eram por nós mesmos projectadas;

Ora o sol está a pino sobre nós, tu vês,
E nossas sombras, sob nossos pés;
E tudo se reduz à brava claridade.
Assim, ao que nosso amor infante crescia,
Nossas sombras, o nosso disfarce, sumia

De nós e nossos medos; mas avança o dia.
Nenhum amor atinge o seu mais alto grau
Enquanto a vista alheia teme, como um mal.
A menos que o amor no zénite haja parado,
Produziremos novas sombras do outro lado.

Se as primeiras servem a nos ocultar,
Aos outros cegando; estas, a actuar
Atrás de nós, é qual a nós mesmos cegar.
Se nosso amor definha e declina no poente.
Tu a mim e eu a ti, falsamente,
Nossas ações deixamos se disfarcem
Entre nós. As sombras da manhã se desfazem;
Estas crescem sempre mais, todavia,
Pois, ai! se o amor se esvai, curto é o seu dia.
O amor é uma luz sempre crescente e constante;
Seu primeiro minuto após meio-dia é noite.

 

John Donne

Death, be not Proud

Death, be not proud, though some have called thee
Mighty and dreadful, for thou are not so;
For those whom thou think’st thou dost overthrow
Die not, poor Death, nor yet canst thou kill me.

From rest and sleep, which but thy pictures be,
Much pleasure; then from thee much more must flow,
And soonest our best men with thee do go,
Rest of their bones, and soul’s delivery.

Thou’art slave to fate, chance, kings, and desperate men,
And dost with poison, war, and sickness dwell,
And poppy’or charms can make us sleep as well

And better than thy stroke; why swell’st thou then?
One short sleep past, we wake eternally,
And death shall be no more; Death, thou shalt die.

John Donne

Preleção sobre a sombra

Espera, que uma preleção eu vou te ler,

Amor, sobre o amor e sua filosofia.

Nessas três horas de nosso lazer,

Aqui vagando, um par nos precedia.

De sombras, que eram por nós mesmos projetadas;

Ora o sol está a pino sobre nós, tu vês,

E nossas sombras, sob nossos pés;

E tudo se reduz à brava claridade.

Assim, ao que nosso amor infante crescia,

Nossas sombras, o nosso disfarce, sumiam

De nós e nossos medos; mas avança o dia.

Nenhum amor atinge o seu mais alto grau

Enquanto a vista alheia teme, como um mal.

A menos que o amor no zênite haja parado,

Produziremos novas sombras do outro lado.

Se as primeiras servem a nos ocultar,

Aos outros cegando; estas, a atuar

Atrás de nós, é qual a nós mesmos cegar.

Se nosso amor definha e declina no poente.

Tu a mim e eu a ti, falsamente,

Nossas ações deixamos que se disfarcem

Entre nós. As sombras da manhã se desfazem;

Estas crescem sempre mais, todavia,

Pois, ai! se o amor se esvai, curto é o seu dia.

O amor é uma luz sempre crescente e constante;

Seu primeiro minuto após meio-dia é noite.

John Donne

O Extase

Onde, qual almofada sôbre o leito,

A areia grávida inchou para apoiar

A inclinada cabeça da violeta,

Nós nos sentamos, olhar contra olhar.

Nossas mãos duramente cimentadas

No firme bálsamo que delas vem,

Nossas vistas trançadas e tecendo

Os olhos em um duplo filamento;

Enxertar mão em mão é até agora

Nossa única forma de atadura

E modelar nos olhos as figuras

A nossa única propagação.

Como entre dois exércitos iguais,

Na incerteza, o Acaso se suspende,

Nossas almas (dos corpos apartadas

Por antecipação) entre ambos pendem.

E enquanto alma com alma negocia,

Estátuas sepulcrais ali quedamos

Todo o dia na mesma posição,

Sem mínima palavra, todo o dia.

Se alguém – pelo amor tão refinado

Que entendesse das almas a linguagem,

E por virtude desse amor tornado

Só pensamento – a elas se chegasse,

Pudera (sem saber que alma falava

Pois ambas eram uma só palavras),

Nova sublimação tomar do instante

E retornar mais puro do que antes.

Nosso Êxtase – dizemos – nos dá nexo

E nos mostra do amor o objetivo,

Vemos agora que não foi o sexo,

Vemos que não soubemos o motivo.

Mas que assim como as almas são misturas

Ignoradas, o amor reanima a alma

A misturada alma de quem ama,

Compondo duas numa e uma em duas.

Transplanta a violeta solitária:

A força, a cor, a forma, tudo o que era

Até aqui degenerado e raro

Ora se multiplica e regenera.

Pois quando o amor assim uma na outra

Interanimou duas almas,

A alma melhor que dessas duas brota

A magra solidão derrota,

E nós que somos essa alma jovem,

Nossa composição já conhecemos

Por isto: os átomos de que nascemos

São almas que não mais se movem.

Mas que distância e distração as nossas!

Aos corpos não convém fazermos guerra:

Não sendo nós, não convém fazermos guerra:

Inteligências, eles as esferas.

Ao contrário, devemos ser-lhes gratas

Por nos (a nós) haverem atraído,

Emprestando-nos forças e sentidos.

Escória, não, mas liga que nos ata.

A influência dos céus em nós atua

Só depois de se ter impresso no ar.

Também é lei de amor que alma não flua

Em alma sem os corpos transpassar.

Como o sangue trabalha para dar

Espíritos, que às almas são conformes,

Pois tais dedos carecem de apertar

Esse invisível nó que nos faz homens,

Assim as almas dos amantes devem

Descer às afeições e às faculdades

Que os sentidos atingem e percebem,

Senão um Príncipe jaz aprisionado.

Aos corpos, finalmente, retornemos,

Descortinando o amor a toda a gente;

Os mistérios do amor, a alma os sente,

Porém o corpo é as páginas que lemos.

Se alguém – amante como nós – tiver

Esse diálogo a um ouvido a ambos,

Que observe ainda e não verá qualquer

Mudança quando aos corpos nos mudamos.


 

John Donne

Nenhum homem é uma ilha ….

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”. 

John Donne 

Elegia: Indo para o leito

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;

Até que eu lute, em luta o corpo jaz.

Como o inimigo diante do inimigo,

Canso-me de esperar se nunca brigo.

Solta esse cinto sideral que vela,

Céu cintilante, uma área ainda mais bela.

Desata esse corpete constelado,

Feito para deter o olhar ousado.

Entrega-te ao torpor que se derrama

De ti a mim, dizendo: hora da cama.

Tira o espartilho, quero descoberto

O que ele guarda quieto, tão de perto.

O corpo que de tuas saias sai

É um campo em flor quando a sombra se esvai.

Arranca essa grinalda armada e deixa

Que cresça o diadema da madeixa.

Tira os sapatos e entra sem receio

Nesse templo de amor que é o nosso leito.

Os anjos mostram-se num branco véu 

Aos homens.

Tu, meu anjo, és como o Céu

De Maomé.

E se no branco têm contigo

Semelhança os espíritos, distingo:

O que o meu Anjo branco põe não é

O cabelo mas sim a carne em pé. 

Deixa que minha mão errante adentre.

Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

Minha América! Minha terra à vista,

Reino de paz, se um homem só a conquista,

Minha Mina preciosa, meu império,

Feliz de quem penetre o teu mistério!

Liberto-me ficando teu escravo; 

Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém

De um corpo (como a alma sem corpo) semVestes.

As jóias que a mulher ostenta

São como as bolas de ouro de Atlanta:

O olho do tolo que uma gema inflama 

Ilude-se com ela e perde a dama.

Como encadernação vistosa, feita

Para iletrados a mulher se enfeita;

Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)

É dado lê-la. Eu sou um que sabe; 

Como se diante da parteira, abre-Te: atira, sim, o linho branco fora,

Nem penitência nem decência agora.

Para ensinar-te eu me desnudo antes:

A coberta de um homem te é bastante.

 

John Donne