Soneto XCV

OS QUE se amam como nós? Busquemos
As antigas cinzas do coração queimado
E ali que tombem um por um nossos beijos
Até que ressuscite a flor desabitada.
Amemos o amor que consumiu seu fruto
E desceu á terra com rosto e poderio:
Tu e eu somos a luz que continua,
Sua inquebrantável espiga delicada.
Ao amor sepultado por tanto tempo frio,
Por neve e primavera, por esquecimento e outono,
Acerquemos a luz de uma nova maça,
Do frescor aberto por uma nova ferida,
Como o amor antigo que caminha em silêncio
Por uma eternidade de bocas enterradas.

Pablo Neruda

Soneto XCIV

SE MORRO sobrevive-me com tanta força pura
Que despertes a fúria do pálido e do frio,
De sul a sul levanta teus olhos indeléveis,
De sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
Não quero que pereça minha herança de alegria,
Não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
Que passaras nela através dos muros
E penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
Que eu sem vida te verei viver
E se sofres, meu amor, morrerei outra vez.

Pablo Neruda

Soneto XCIII

SE ALGUMA VEZ, teu peito se detém,
Se algo deixa de andar ardendo por tuas veias,
Se tua voz em tua boca se vai sem palavra,
Se tuas mãos se esquecem de voar e dormem.
Matilde, amor, deixa teus lábios entreabertos
Porque esse último beijo deve durar comigo,
Deve ficar imóvel para sempre em tua boca
Para que assim também me acompanhe em minha morte.
Morrei beijando tua louca boca fria
Abraçando o cacho perdido de teu corpo,
E buscando a luz de teus olhos fechados.
E assim quando a terra receber nosso abraço
Iremos confundidos numa única morre
A viver para sempre de um beijo a eternidade.

Pablo Neruda

Soneto XCII

AMOR MEU se morro e tu não morres,
Amor meu, se morres e não morro,
Não demos á dor mais território:
Não há extensão como a que vivemos.
Pó no trigo, areia nas areias,
O tempo, a água errante, o vento vago
Nos transportou como grão navegante.
Podemos não encontrar no tempo.
Esta campina em que nos achamos,
Oh pequeno infinito! Devolvemos.
Mas este amor, amor, não terminou,
E assim como não teve nascimento
Morte não tem, é como um longo rio,
Só muda de terras e de lábios.

Pablo Neruda

Soneto XCI

A IDADE nos cobre como a garoa,
Interminável e árido é o tempo,
Uma pluma de sal toca teu rosto,
Uma goteira corroeu minha roupa:
O tempo não distingue entre minhas mãos
Ou um vôo de laranjas nas tuas:
Fere com neve ou enxadão a vida:
A vida tua que é a vida minha.
A vida minha que te dei se enche
De anos, como o volume de um cacho.
Regressarão as uvas á terra.
E ainda lá embaixo o tempo segue sendo,
Esperando, chovendo sobre o pó,
Ávido de apagar até a ausência.

Pablo Neruda

A poesia

A poesia é branca:
sal de água envolta em gotas,
enruga-se e amontoa-se,
é preciso estender a pele deste planeta,

é preciso engomar o mar com a sua brancura
e vão e vêm as mãos ,
alisam as sagradas superfícies
e assim se engedram as coisas:

dia a dia fazem as mãos o mundo,
une-se o fogo ao aço,
chegam o linho, o algodão e o cotim

da faina das lavandarias
e nasce da luz uma pomba:
a pureza regressa da espuma.

Pablo Neruda

Farewell

1
Desde o fundo de ti, e ajoelhado
um menino triste, como eu, nos olha.
Pela vida que arderá nas suas veias
teriam que amarrar-se nossas vidas.
Por essas mãos, filhas das tuas,
teriam que matar as minhas mãos.
Pelos seus olhos abertos na terra
verei nos teus lágrimas um dia.

2
Eu não o quero, Amada.
Para que nada nos amarre
que nada nos una.
Nem a palavra que perfumou tua boca
nem o que disseram as palavras.
Nem a festa de amor que não tivemos,
nem os soluços junto à janela.

3
(Amo o amor dos marinheiros
que beijam e partem.
Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.
Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e partem.
Uma noite deitam-se com a morte
no leito do mar.

4
Amo o amor que se reparte
em beijos, leite e pão.
Amor que pode ser eterno
ou que pode ser fugaz.
Amor que quer libertar-se
para voltar a amar.
Amor divinizado que se chega
amor divinizado que se vai.)

5
Já não se encantarão meus olhos nos teus,
já não abrandará junto a ti minha dor.
Mas onde quer que vá levarei o teu rosto
e onde quer que vás levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos demos
uma volta no caminho por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te amar,
do que colher no teu jardim o que eu semeei.
Vou-me embora. Estou triste: estou sempre triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
… Do teu coração diz-me adeus um menino.
E eu digo-lhe adeus.

Pablo Neruda

Ritual das minhas pernas

Longamente fiquei a olhar minhas longas pernas,
com uma ternura infinita e curiosa, com a minha costumeira paixão,
como se tivessem sido as pernas de uma mulher divina
profundamente afundada no abismo do meu tórax:
pois, na verdade, quando o tempo, o tempo passa,
sobre a terra, sobre o teto, sobre minha impura cabeça,
pois passa, o tempo passa, e na minha cama não sinto à noite
que uma mulher está respirando,
dormindo nua a meu lado,
aí, estranhas, obscuras coisas ocupam o lugar da ausente,
viciosos, melancólicos, pensamentos
semeiam pesadas possibilidades no meu quarto,
e olho assim as minhas pernas como se fossem de outro corpo
e forte e docemente estivessem agarradas a minhas entranhas.

Como talos ou femininas, adoráveis coisas,
sobem dos joelhos, cilíndricas e espessas,
com um turvo e compacto material de existência:
como brutais, gordos braços de deusa,
ou árvores monstruosamente vestidas de seres humanos,
como fatais, imensos lábios sedentos e tranqüilos,
são aí a melhor parte de meu corpo:
o inteiramente substancial, sem complicado conteúdo
de sentidos ou traquéias ou intestinos ou gânglios:
nada mais que o puro, o doce e o espesso da minha própria vida,
nada mais que a forma e o volume existindo,
guardando a vida, no momento, de maneira completa.

As pessoas passam pelo mundo atualmente
sem se lembrar sequer que possuem um corpo e nele a vida,
e tem-se medo, tem-se medo neste das palavras que designam o corpo,
e fala-se favoravelmente da roupa,
de calças se pode falar, de ternos,
e de roupa íntima de mulher (de meias e ligas de “senhora”),
como se pelas ruas fossem os enfeites e as roupas vazios por completo
e um escuro e obsceno guarda-roupas ocupasse o mundo.

Têm existência as roupas, cor, forma, destino,
e profundo lugar nos nossos mitos, lugar demais,
móveis demais e quartos demais há no mundo,
e o meu corpo entre e sob tantas coisas abatido,
com um pensamento fixo de escravidão e de correntes.

Bem, os meus joelhos, como nós,
particulares, funcionários, evidentes,
separam as metades das minhas pernas de uma forma seca:
e na realidade, dois mundos diferentes, dois sexos diferentes
não são tão diferentes como as duas metades das minhas pernas.

Do joelho até o pé, uma forma dura,
mineral, friamente útil, aparece,
uma criatura de osso e persistência,
e os tornozelos não passam do propósito nu,
a exatidão e o necessário dispostos em definitivo.

Sem sensualidade, curtas e duras, e masculinas,
são aí as minhas pernas, e dotadas
de grupos musculares como animais complementários,
e aí também uma vida, uma sólida, sutil, aguda vida
sem vacilar aparece, aguardando e atuando.

Nos meus pés coceguentos,
e duros como o sol, e abertos como flores,
e perpétuos, magníficos soldados
na guerra gris do espaço,
tudo termina, a vida termina definitivamente nos meus pés,
o estrangeiro e o hostil aí começam:
os nomes do mundo, e o fronteiriço e o remoto,
o substantivo e o adjetivo que não cabem no meu coração
com densa e fria constância aí se originam.

Sempre,
produtos manufaturados, meias, sapatos,
ou simplesmente ar infinito,
haverá entre meus pés e a terra,
extremado o insulado e solitário do meu ser,
algo tenazmente suposto entre a minha vida e a terra,
algo abertamente invencível e inimigo.

 

Pablo Neruda

LIVRO DAS PERGUNTAS

I
Porque é que os imensos aviões
não passeiam com os seus filhos?
Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?
Porque é que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?
Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco nocturno de farinha?

II
Se já morri e não me dei conta
a quem perguntarei a hora?
De onde tira tantas folhas
a Primavera de França?
Onde pode viver um cego
perseguido por abelhas?
Se se acabar o amarelo
com que é que vamos fazer o pão?

III
Diz-me, a rosa está nua,
ou só tem esse vestido?
Porque é que as árvores escondem
o esplendor das suas raízes?
Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?
Haverá algo mais triste no mundo
que um comboio imóvel na chuva?

IV
Quantas igrejas tem o céu?
Porque não atacará o tubarão
as impávidas sereias?
Conversará o fumo com as nuvens?
É verdade que as esperanças
se devem regar com orvalho?

V
Que guardas na tua bossa?
perguntou o camelo à tartaruga.
E a tartaruga perguntou:
E tu, que conversas tens com as laranjas?
Terá mais folhas uma pereira
que em Busca do Tempo Perdido?
Porque se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?

Pablo Neruda

 

Soneto – XC

PENSEI morrer, senti de perto o frio,
E de quanto vivi só a ti deixava:
Tua boca era meu dia e minha noite terrestres
E tua pele a república fundada por meus beijos.

Nesse instante terminaram os livros,
A amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
A casa transparente que tu e eu construímos:
Tudo deixou de ser, menos teus olhos.

Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
É simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
Mas quando a morte vem tocar a porta

Há teu olhar apenas para tanto vazio,
Só tua claridade para não seguir sendo,
Só teu amor para fechar a sombra.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto – LXXXIX

QUANDO eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:
Quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
Passar uma vez mais sobre mim seu viço:
Sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
Quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
Que cheires o amor do mar que amamos juntos
E que sigas pisando a areia que pisamos.

Quero que o que amo continue vivo
E a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
Por isso segue tu florescendo, florida,

Para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
Para que passeie minha sombra por teu pêlo,
Para que assim conheçam a razão de meu canto.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto – LXXXVIII

O MÊS de março voltou com sua luz escondida
E deslizaram peixes imensos pelo céu,
Vago vapor terrestre progride sigiloso,
Uma por uma caem ao silencio as coisas.

Por sorte nesta crise de atmosfera errante
Reuniste as vidas do mar com as do fogo,
O movimento cinza da nave de inverno,
A forma que o amor imprimiu á guitarra.

Oh amor, rosa molhada por sereias e espumas,
Fogo que dança e sobe a invisível escada
E desperta no túnel da insônia ao sangue

Para que se consumam as ondas no céu,
Esqueça o mar seus bens e leões
E caia o mundo dentro das redes escuras.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

LXXXVI

OH CRUZ DO SUL, oh trevo de fósforo fragrante,
Com quatro beijos, hoje penetrou tua formosura
E atravessou a sombra e meu chapéu:
A lua ia redonda pelo frio.

Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
De escarcha azul, serenidade do céu,
Espelho, apareceste e completou-se a noite
Com tuas quatro adegas tremulas de vinho.

Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
Cruz verde, perrexil da sombra radiante,
Vaga-lume á unidade do céu condenado,

Descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto LXXXV

DO MAR para as ruas corre a vaga névoa
Como o bafo de um boi enterrado no frio;
E longas línguas de água se acumulam cobrindo
O mês que a nossas vidas prometeu ser celeste.

Adiantado outono, favo silvante de folhas,
Quando sobre os povoados palpita teu estandarte
Cantam mulheres loucas despedindo os rios,
Os cavalos relincham para a Patagônia.

Há uma trepadeira vespertina em teu rosto
Que cresce silenciosa pelo amor transportada
Até as ferraduras crepitantes do céu.

Me inclino sobre o fogo de teu corpo noturno
E não apenas teus seios amo mas o outono
Que esparge pela névoa seu sangue ultramarino.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto LXXXIV

UMA VEZ MAIS, amor, a rede do dia extingue
Trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
E á noite entregamos o trigo vacilante
Que o meio-dia obteve da luz e a terra

Só a lua no meio de sua página pura
Sustém as colunas do estuário do céu,
A habitação adota a lentidão do ouro
E vão e vão tuas mãos preparando a noite.

Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
De impenetráveis águas na sombra do céu
Que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,

Até que só sejamos um só espaço escuro,
Uma taça em que a cinza celeste tomba,
Uma gota no pulso de um lento e longo rio.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto – LXXXII

AMOR MEU, ao fechar esta porta noturna
Te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
Fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
Estende-te em meu sangue como num amplo rio.

Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
No saco de cada dia do passado,
Adeus a cada raio de relógio ou laranja,
Saúde, oh sombra, intermitente companheira!

Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
Uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
Somos o matrimonio da noite no sangue.

Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
Mas é teu coração o que reparte
Em meu peito os dons da aurora.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto – LXXXI

JÁ ÉS minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
E junto a mim és pura como o âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
Só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados
E deixaram cair suaves sinais sem rumo
Teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,

Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
À noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
E já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

LXXXVII

AS TRES AVES do mar, três raios, três tesouras,
Cruzam pelo céu frio para Antofagasta,
Por isso ficou o ar tremuloso,
Tudo tremeu como bandeira ferida.

Solidão dá-me o sinal de tua incessante origem,
O apenas caminho dos pássaros cruéis,
E a palpitação que sem dúvida precede
O mel, a música, o mar, o nascimento.

(Solidão sustentada por um constante rosto
como uma grave flor sem cessar estendida
até abraçar a pura multidão do céu)

Voavam asa frias do mar, do Arquipélago,
Para a areia do Noroeste do Chile.
E a noite fechou seu celeste ferrolho.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

LXXXVI

OH CRUZ DO SUL, oh trevo de fósforo fragrante,
Com quatro beijos, hoje penetrou tua formosura
E atravessou a sombra e meu chapéu:
A lua ia redonda pelo frio.

Então com meu amor, com minha amada, oh diamantes
De escarcha azul, serenidade do céu,
Espelho, apareceste e completou-se a noite
Com tuas quatro adegas tremulas de vinho.

Oh palpitante prata de peixe polido e puro,
Cruz verde, perrexil da sombra radiante,
Vaga-lume á unidade do céu condenado,

Descansa em mim, fechemos teus olhos e os meus.
Por um minuto dorme com a noite do homem.
Acende em mim teus quatro números constelados.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

LXXXV

DO MAR para as ruas corre a vaga névoa
Como o bafo de um boi enterrado no frio;
E longas línguas de água se acumulam cobrindo
O mês que a nossas vidas prometeu ser celeste.

Adiantado outono, favo silvante de folhas,
Quando sobre os povoados palpita teu estandarte
Cantam mulheres loucas despedindo os rios,
Os cavalos relincham para a Patagônia.

Há uma trepadeira vespertina em teu rosto
Que cresce silenciosa pelo amor transportada
Até as ferraduras crepitantes do céu.

Me inclino sobre o fogo de teu corpo noturno
E não apenas teus seios amo mas o outono
Que esparge pela névoa seu sangue ultramarino.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

LXXXIV

UMA VEZ MAIS, amor, a rede do dia extingue
Trabalhos, rodas, fogos, estertores, adeuses,
E á noite entregamos o trigo vacilante
Que o meio-dia obteve da luz e a terra

Só a lua no meio de sua página pura
Sustém as colunas do estuário do céu,
A habitação adota a lentidão do ouro
E vão e vão tuas mãos preparando a noite.

Oh amor, oh noite, oh cúpula fechada por um rio
De impenetráveis águas na sombra do céu
Que destaca e submerge suas uvas tempestuosas,

Até que só sejamos um só espaço escuro,
Uma taça em que a cinza celeste tomba,
Uma gota no pulso de um lento e longo rio.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

LXXXIII

É BOM, amor, sentir-te perto de mim na noite,
Invisível em teu sonho, seriamente noturna,
Enquanto eu desenrolo minhas preocupações
Como se fossem redes confundidas.

Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
Mas teu corpo assim abandonado respira
Buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
Como uma planta que se duplica na sombra.

Erguida, serás outra que viverá amanha,
Mas das fronteiras perdidas na noite,
Deste ser e não ser em que nos encontramos

Algo fica acercando-nos da luz da vida
Como se o selo da sombra assinalasse
Com fogo suas secretas criaturas.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

LXXXII

AMOR MEU, ao fechar esta porta noturna
Te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
Fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
Estende-te em meu sangue como num amplo rio.

Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
No saco de cada dia do passado,
Adeus a cada raio de relógio ou laranja,
Saúde, oh sombra, intermitente companheira!

Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
Uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
Somos o matrimonio da noite no sangue.

Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
Mas é teu coração o que reparte
Em meu peito os dons da aurora.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

LXXXI

JÁ ÉS minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
E junto a mim és pura como o âmbar dormido.

Nenhuma mais, amor dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
Só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.

Já tuas mãos abriram os punhos delicados
E deixaram cair suaves sinais sem rumo
Teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,

Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
À noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
E já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

O Vento na Ilha

Vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como ele corre o
mundo
para levar-me longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite erma,
enquanto a chuva rompe
contra o mar e a terra
sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me longe.

Como tua fronte na minha,
tua boca em minha boca,
atados nossos corpos
ao
amor
que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopando na sombra,
enquanto eu, protegido
sob teus grandes olhos,
por esta noite só
descansarei, meu amor.

Pablo Neruda

Soneto LXXX

De viagens e dores eu regressei, amor meu,
A tua voz, a tua mão voando na guitarra,
Ao fogo que interrompe com beijos o outono,
Á circulação da noite no céu.

Para todos os homens peço pão e reinado,
Peço terra para o lavrador sem ventura,
Que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.

Por isso toca a valsa da serena lua,
A barcarola na água da guitarra
Até que se dobre minha cabeça sonhando:

Que todos os desvelos de minha vida teceram
Esta ramagem onde tua mão vive e voa
Custodiando a noite do viageiro dormido.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

SonetoLXXIX

De noite, amada, amarra teu coração ao meu
E que eles no sonho derrotem as trevas
Como um duplo tambor combatendo no bosque
Contra o espesso muro das folhas molhadas.

Noturna travessia, brasa negra do sonho
Interceptando o fio das uvas terrestres
Com a pontualidade de um trem descabelado
Que sombra e pedras frias sem cessar arrancasse.

Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
Á tenacidade que em teu peito bate
Com as asas de um cisne submergido,

Para que ás perguntas estreladas do céu
Responda nosso sonho com uma só chave,
Com uma só porta fechada pela sombra.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto LXXVII

Hoje é hoje com o peso de todo o tempo ido,
Com as asas de tudo o que será amanhã,
Hoje é o Sul do mar, a velha idade da água
É a composição de um novo dia.

Á tua boca elevada á luz ou á lua
Se acresceram as pétalas de um dia consumido,
E ontem vem trotando por sua rua sombria
Pura que recordemos teu rosto que morreu.

Hoje, ontem e amanhã se comem caminhando,
Consumimos um dia como uma vaca ardente.
Nosso gado espera com seus dias contados,

Mas em teu coração pôs sua farinha o tempo,
Meu amor construiu um forno com barro de Temuco:
Tu és o pão de cada dia para minha alma.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

 

Soneto LXXVI

Diego Rivera com a paciência do osso
Buscava a Esmeraldo do bosque na pintura
Ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
Recolhia a luz do mundo em teu retrato.

Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
A centelha de tuas pupilas desbocadas,
Tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
E em tua pele estival, tua boca de melancia.

Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
Por fogo, por amor, por estirpe araucana,
E sobre os dois rostos dourados da greda

Te cobriu com o casco de um incêndio bravio
E ali secretamente ficaram enredados meus olhos
Em tua torre total: tua cabeleira.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto LXXV

Esta é a casa, o mar e a bandeira.
Errávamos por outros longos muros.
Não achávamos a porta nem o som
Desde a ausência como desde mortos.

E ao fim a casa abre seu silêncio,
Entramos a pisar o abandono,
Os momentos mortos, o adeus vazio,
A água que chorou no encanamento.

Chorou, chorou a casa noite e dia,
Gemeu com as aranhas*, entreaberta,
Se desgastou desde seus olhos negros,

E agora de repente a revolvemos viva,
A povoamos e não nos reconhece:
Tem que florescer, e não se acorda.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

*Aranhas – pequenas carruagens puxadas por cavalos

Soneto LXXIV

O caminho molhado pela água de agosto
Brilha como se fosse cortado em lua cheia,
Em plena claridade da maça,
Em metade da fruta do outono.

Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
Cresce com frios sonhos, sons e pescados.
O vapor das ilhas combate a comarca,
Palpita o mar sobre a luz do Chile.

Tudo se reconcentra como o metal, se escondem
As folhas, o inverno mascara sua estirpe
E só cegos somos, sem cessar, somente.

Somente sujeitos ao leito sigiloso
Do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
Adeus, da natureza caem as lágrimas.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto LXXIII

Recordarás talvez aquele homem afilado
Que da escuridão saiu como uma faca
E, antes de que soubéssemos,sabia:
Viu a fumaça e decidiu que vinha do fogo.

A pálida mulher de cabeleira negra
Surgiu como um peixe do abismo
E entre os dois alçaram ao encontro do amor
Uma máquina armada de dentes numerosos.

Homem e mulher talaram montanhas e jardins,
Desceram aos rios, ascenderam pelos muros,
Subiram pelos montes sua atroz artilharia.

O amor soube então que se chamava amor.
E quando levantei meus olhos a teu nome
Teu coração logo dispôs de meu caminho.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto LXXII

Amor meu, o inverno regressa a seus quartéis,
Estabelece a terra seus dons amarelos
E passamos a mão sobre um país remoto,
Sobre a cabeleira da geografia.

Ir-nos! Hoje! Adiante, rodas, naves, sinos,
Aviões acerados pelo diurno infinito
Para o olor nupcial do arquipélago,
Por longitudinais farinhas de usufruto!

Vamos, levanta-te, e endiadema-te e sobe
E desce e corre e trina com o ar e comigo
Vamo-nos aos trens da Arábia ou Tocopilla,

Sem mais que transmigrar para o pólen longínquo,
A povoados lancinantes de farrapos e gardênias
Governados por pobres monarcas sem sapatos.

Pablo Neruda, Cem sonetos de Amor

Soneto LXXI, cem sonetos de amor

De pena em que cruza suas ilhas o amor
E estabelece raízes que logo rega o pranto,
E ninguém pode, ninguém pode evadir os passos
Do coração que corre calado e carniceiro.

Assim tu e eu buscamos um vazio, outro planeta
Onde não tocasse o sal tua cabeleira,
Onde não crescessem dores por minha culpa,
Onde viva o pão sem agonia.

Um planeta enredado por distâncias e folhagens,
Um páramo, uma pedra cruel e desabitada,
Com nossas próprias mãos fazer um ninho duro.

Queríamos, sem dano nem ferida nem palavra,
E não foi assim o amor, senão uma cidade louca
Onde as pessoas empalidecem nas sacadas.

Pablo Neruda

Brincas todos os dias com a luz do Universo.

Brincas todos os dias com a luz do Universo.

Sutil visitadora, chegas na flor e na água.

És mais do que a pequena cabeça branca que aperto

como um cacho entre as mãos todos os dias.

Com ninguém te pareces desde que eu te amo.

Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.

Quem escreve o teu nome com letras de fumo

entre as estrelas do sul?

Ah, deixa-me lembrar como eras então,quando ainda não existias.

Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.

O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.

Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.

Aqui despe-se a chuva.

Passam fugindo os pássaros.

O vento. O vento.

Eu só posso lutar contra a força dos homens.

O temporal amontoa folhas escuras

e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.

Tu estás aqui. Ah tu não foges.

Tu responder-me-ás até ao último grito.

Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.

Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha

pelos teus olhos.

Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,

e tens até os seios perfumados.

Enquanto o vento triste galopa matando borboletas

eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.

Quanto te haverá doído acostumares-te a mim,

à minha alma selvagem e só,

ao meu nome que todos escorraçam.

Vimos arder tantas vezes a estrela d’alva beijando-nos os olhos

e sobre as nossas cabeças destorcem-se os crepúsculos

em leques rodoiantes.



As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.

Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.

Creio-te mesmo dona do Universo.



Vou trazer-te das montanhas flores alegres, “copihues”,

avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.

Quero fazer contigoo que a primavera faz com as cerejeiras.



Pablo Neruda

Soneto LXX, cem sonetos de amor

Talvez ferido vou sem ir sangrento
Por algum dos raios de tua vida
E a meia selva me detém a água:
A chuva que tomba com seu céu.

Então toco o coração chovido:
Ali sei que teus olhos penetraram
Pela região externa de minha pena
E um sussurro de sombra surge só:

Quem é? Quem é? Mas não teve nome
A folha ou a água escura que palpita
A meia selva, surda, no caminho,

E assim, amor meu, soube que fui ferido
E ninguém falava ali senão a sombra,
A noite errante, o beijo da chuva.

Pablo Neruda

Soento LXIX, cem sonetos de amor

Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
Sem que vás cortando o meio-dia
Como uma flor azul, sem que caminhes
Mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

Sem essa luz que levas na mão
Que talvez outros não verão dourada,
Que talvez ninguém soube que crescia
Como a origem rubra da rosa,

Sem que sejas, enfim, sem que viesses
Brusca, incitante, conhecer minha vida,
Aragem de roseira, trigo do vento,

E desde então sou porque tu és,
E desde então, sou e somos
E por amor serei, serás, seremos.

Pablo Neruda

Soneto LXVIII, cem sonetos de amor.

A menina de madeira não chegou caminhando:
Ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
Velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
Seu olhar tinha tristeza de raízes.
Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
O ir e ser e andar e voltar pela terra,
O dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.
A menina coroada pelas antigas ondas
Ali fitava com seus olhos derrotados:
Sabia que vivemos numa rede remota
De tempo e água e ondas e sons e chuva,
Sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Essa é a história da moça de madeira.

Pablo Neruda

Soento LXVII, cem sonetos de amor

A grande chuva do Sul cai sobre a Ilha Negra
Como uma só gota transparente e pesada,
O mar abre suas folhas frias e a recebe,
A terra apreende o úmido destino de uma taça.

Alma minha, dá-me em teus beijos a água
Salobre destes meses, o mel do território,
A fragrância molhada por mil lábios do céu,
A paciência sagrada do mar no inverno.

Algo nos chama, todas as portas se abrem sós,
Relata a água um longo rumor ás janelas,
Cresce o céu para baixo tocando as raízes,

E assim tece e destece sua rede celeste o dia
Com tempo, sal, sussurros, crescimentos, caminhos,
Uma mulher, um homem e o inverno na terra.

Pablo Neruda

Soneto LXVI, Cem sonetos de amor

Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te espero
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.

Nessa história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor a sangue e fogo.

Pablo Neruda

Soneto LXV, cem sonetos de amor

Matilde, onde estás? Notei, para baixo,
Entre gravata e coração, acima,
Certa melancolia intercostal:
Era que de repente estavas ausente.

Fez-me falta a luz de tua energia
E olhei devorando a esperança,
Olhei o vazio que é sem ti uma casa,
Não ficam senão trágicas janelas.

De puro taciturno o teto escuta
Cair antigas chuvas desfolhadas,
Plumas, o que a noite aprisionou:

E assim te espero como casa só
E voltarás a ver-me e habitar-me.
De outro modo me doem as janelas.

Pablo Neruda

Soneto LXIII, Cem Sonetos de amor

Não sé pelas terras desertas onde a pedra salina
É como a rosa única, é flor pelo mar enterrada,
Andei; mas pela margem de rios que cortam a neve.
As amargas alturas das cordilheiras conhecem meus passos.

Emaranhada, silvante região de minha pátria selvagem,
Lianas cujo beijo mortal se encadeia na selva,
Lamento molhado da ave que surge lançando seus calafrios,
Oh região de perdidas dores e pranto inclemente!

Não só são meus a pele venenosa do cobre
Ou o salitre estendido como estátua jazente e nevada,
Mas a vinha, a cerejeira premiada pela primavera,

São meus, e eu pertenço como átomo negro
Ás áridas terras e á luz do outono nas uvas,
A esta pátria metálica elevada por torres de neve.

Pablo Neruda

Soneto LXII, Cem sonetos de amor

Ai de mim, aí de nós, bem-amada,
Só quisemos apenas amor, amar-nos,
E entre tantas dores se dispôs
Somente a nós dois ser malferidos.

Quisemos o tu e o eu para nós,
O tu do beijo, o eu do pão secreto,
E assim era tudo, eternamente simples,
Até que o ódio entrou pela janela.

Odeiam os que não amaram nosso amor,
Nem outro nenhum amor, desventurados
Como as cadeiras de um salão perdido,

Até que em cinza se enredaram
E o rosto ameaçante que tiveram
Se apagou no crepúsculo apagado.

Pablo Neruda

Soneto – LX

A ti fere aquele que quis fazer-me dano,
E o golpe do veneno contra mim dirigido
Como por uma rede passa entre meus trabalhos
E em ti deixa uma mancha de óxido e desvelo

Não quero ver, no amor, na lua florescida
De tua fronte cruzar o ódio que me espreita,
Não quero que em teu sonho deixe o rancor alheio
Esquecida sua inútil coroa de facas.

Onde vou vão atrás de meus passos amargos,
Onde rio um trejeito de horror copia minha cara,
Onde canto a inveja maldiz, ri e rói.

E é essa, amor, a sombra que a vida me tem dado:
É um traje vazio que me segue coxeando
Como um espantalho de sorriso sangrento.

Pablo Neruda

Em Pleno Mês de Junho

Em pleno mês de Junho
me aconteceu uma mulher,
melhor uma laranja.
Está confuso o panorama
Bateram à porta
era uma lufada,
um látego de luz,
uma tartaruga ultravioleta,
a via com lentidão de telescópio,
como se fosse ou habitasse
esta vestidura de estrela,
e por erro do astrônomo
houvesse entrado em minha casa.

Pablo Neruda

Todos

Eu talvez eu não sei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
― que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?

Não cresci, não cresci, segui morrendo?

Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.

Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos
e onde eu estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.

Porque buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?

Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo mundo.

Pablo Neruda

Soneto LIX

Pobres poetas a quem a vida e a morte
Perseguiram com a mesma tenacidade sombria
E logo são cobertos por impassível pompa,
Entregues ao rito e ao dente funerário.

Eles-obscuros como pedrinhas – agora
Detrás dos cavalos arrogantes, estendidos
Vão, governados ao fim pelos intrusos,
Entre os acompanhantes, a dormir em silencio.

Antes e já seguros de que está morto o morto
Fazem das exéquias um festim miserável
Com pavões, porcos e outros oradores.

Espreitavam sua morte e então a ofenderam:
Só porque sua boca esta fechada
E já não pode contestar seu canto.

Pablo Neruda, cem sonetos de amor

Poema VI

Te recordo como eras no último outono.
Eras a boina cinza e o coração em calma.
Em teus olhos pelejavam as chamas do crepúsculo.
E as folhas caiam na água de tua alma.

Apegada a meus braços como uma trepadeira,
as folhas recolhiam tua voz lenta e em calma.
Figueira de estupor em que minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre minha alma.

Sinto viajar teus olhos e é distante o outono:
boina cinza, voz de pássaro e coração de casa
fazia onde emigravam meus profundos anseios
e caiam meus beijos alegres como brasas.

Céu desde um navio. Campo desde os cerros.
Tua recordação é de luz, de fumaça, de tanque em calma!
Mais além de teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam em tua alma.

Pablo Neruda

LVIII

Entre os espadões de ferro literário
Passo eu como um marinheiro remoto
Que não conhece as esquinas e que canta
Porque sim, porque como se não fosse por isso.

Dos atormentados arquipélagos trouxe
Meu acordeão com borrascas, aragem de chuva louca,
E um costume lento de coisas naturais:
Elas determinaram meu coração silvestre.

Assim quando os dentes da literatura
Trataram de morder meus honrados talões,
Eu passei, sem saber, cantando com o vento

Para os almazéns chuvosos de minha infância,
Para os bosques frios do Sul indefinível,
Para onde minha vida se completou com teu aroma.

Pablo Neruda, cem sonetos de amor


Soneto – LVII

Mentem os que disseram que eu perdi a lua,
Os que profetizaram meu porvir de areia,
Asseveraram tantas coisas com línguas frias:
Quiseram proibir a flor do universo.

“Já não cantará mais o âmbar insurgente
Da sereia, não tem senão povo.”
E mastigavam seus incessantes papéis
Patrocinando para minha guitarra o esquecimento.

Eu lhes lancei aos olhos as lanças deslumbrantes
De nosso amor cravando teu coração e o meu,
Eu reclamei o jasmim que deixavam tuas pegadas,

Eu me perdi de noite sem luz sob tuas pálpebras
E quando me envolveu a claridade
Nasci de novo, dono de minha própria treva.

Pablo Neruda, Cem sonetos de amor