Canção do Vidro

E nada vibrou…
Não se ouviu nada…
Nada…
Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo…
Cuidado, amiga…
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre…
E é tão puro o silêncio agora!

Mário Quintana

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Ah, sim, a velha poesia…

Poesia, a minha velha amiga…
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma…
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas…)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Não estão ouvindo, lá fora, os grilos?
Sim, os grilos…
Os grilos são os poetas mortos.
Entrego-lhes grilos aos milhões um lápis verde
um retrato
amarelecido um velho ovo de costura
os teus pecados
as reivindicações as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger de dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos…
Pois bem,
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
tem por isso mesmo um sabor total: eternamente esse
gosto de nunca e de sempre.

Mario Quintana

Matinal

 

Entra o sol, gato amarelo, e fica
à minha espreita, no tapete claro.
Antes de abrir os olhos, sei que o dia
Virá olhar-me por detrás das árvores.

Ah! sentir-me ainda vivo sobre a face da Terra
enquanto a vida me devora…
Me espreguiço, entredurmo… O anjo da luz espera-me
Como alguém que vigiasse uma crisálida.

Pé ante pé, do leito, aproxima-se um verso
para a canção de despertar;
os ritmos do tráfego vibram como uma cigarra,

a tua voz nas minhas veias corre,
e alguns pedaços coloridos do meu sonho
devem andar por esse ar, perdidos…

Mario Quintana

Canção da Nuvem e do vento

 

Medo da nuvem
Medo medo
Medo da nuvem que vai crescendo
Que vai se abrindo
Que não se sabe
O que vai saindo
Medo da nuvem Nuvem Nuvem
Medo do vento
Medo Medo
Medo do vento que vai ventando
Que vai falando
Que não se sabe
O que vai dizendo
Medo do vento Vento Vento
Medo do gesto
Mudo
Medo da fala
Surda
Que vai movendo
Que vai dizendo
Que não se sabe…
Que bem se sabe
Que tudo é nuvem que tudo é vento
Nuvem e vento Vento Vento!

Mário Quintana

A sesta

O vento cheio de ideias vãs
pôe-se a pensar em outras coisas…
O cão que ao mormaço repousa
fareja o ar morno. As venezianas
listram o silêncio, enquanto em torno
o frescor das jarras e das louças
espera… enquanto, da parede, olha-me
o gelo do relógio
e um cheiro insistente de maçãs
convida-me
como se eu não estivesse deliciosamente morto e de sapatos sobre
os arabescos da colcha.

Mário Quintana

O olhar

O último olhar do condenado não é nublado sentimentalmente por lágrimas
nem iludido por visões quiméricas.
O último olhar do condenado é nítido como uma fotografia:
vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude braço do verdugo,
vê o frêmito da última folha no alo daquela árvore, além…
Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus
– um porque é eterno,
o outro porque vai morrer.
O olhar do poeta é como o olhar de um condenado…
como o olhar de Deus…

Mário Quintana

Data e dedicatória

Teus poemas, não os dates nunca… Um poema
Não pertence ao Tempo… Em seu país estranho,
Se existe hora, é sempre a hora extrema
Quando o Anjo Azrael nos estende ao sedento
Lábio o cálice inestinguível…
Um poema é de sempre, Poeta:
O que tu fazes hoje é o mesmo poema
Que fizeste em menino,
É o mesmo que,
Depois que tu te fores,
Alguém lerá baixinho e comovidamente,
A vivê-lo de novo…
A esse alguém,
Que talvez nem tenha ainda nascido,
Dedica, pois, teus poemas.
Não os dates, porém:
As almas não entendem disso…

Mário Quintana

Astrologia

Minha estrela não é a de Belém:
A que, parada, aguarda o peregrino.
Sem importar-se com qualquer destino
A minha estrela vai seguindo além…

– Meu Deus, o que é que esse menino tem? –
Já suspeitavam desde eu pequenino.
O que eu tenho? É uma estrela em desatino…
E nos desentendemos muito bem!

E quanto tudo parecia a esmo
E nesses descaminhos me perdia
Encontrei muitas vezes a mim mesmo…

Eu temo é uma traição do instinto
Que me liberte, por acaso, um dia
Deste velho e encantado Labirinto.

Mário Quintana

Epístola aos novos bárbaros

Jamais compreendeis a terrível simplicidade das minhas palavras
porque elas não são palavras: são rios, pássaros, naves…
no rumo de vossas almas bárbaras.
Sim, vós tendes as vossas almas supersticiosamente pintadas,
a não apenas a cara e o corpo como os verdadeiros selvagens.
Sabeis somente dar ouvido a palavras que não compreendeis,
e todos os vossos deuses são nascidos do medo.
E eu na verdade não vos trago a mensagem de nenhum deus.
Nem a minha…
Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de cada um de vós
a limpar-vos de vossas tatuagens.
E o frêmito que sentireis, então, nas almas transfiguradas
não será o revôo dos anjos… Mas apenas
o beijo amoroso e invisível do vento
sobre a pele nua.

Mário Quintana

Quem ama inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama…
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava…
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições…
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho…
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado… e ter vivido o sonho!

Mario Quintana

Sonho

Um poema em que não se notasse nem a suspeita ênfase da simplicidade e que, ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Mario Quintana

Carta a um poeta

Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana

Todos os poemas são de amor!

Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade…
se falar numa esquina mal e mal iluminada…
numa antiga sacada… num jogo de dominó…
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade…
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol…
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
Todos os poemas são de amor!

Mário Quintana

Invitation au voyage

Se cada um de nós, ó vós outros da televisão
– vós que viajais inertes
como defuntos num caixão –
se cada um de vós abrisse um livro de poemas…
faria uma verdadeira viagem…
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
– Inclusive o amor e outras novidades.

Mario Quintana

Canção de Outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

Mario Quintana

A missa dos inocentes

Se não fora abusar da paciência divina
Eu mandaria rezar missa pelos meus poemas que não
conseguiram ir além da terceira ou quarta linha.

Vítimas dessa mortalidade infantil que, por ignorância dos pais,
Dizima as mais inocentes criaturinhas, as pobres…
Que tinham tanto azul em nos olhos,
Tanto que dar ao mundo!

Eu mandaria rezar o réquiem mais profundo
Não só pelos meus
Mas por todos os poemas inválidos que se arrastam pelo mundo

E cuja comovedora beleza ultrapassa a dos outros
Porque está, antes e depois de tudo,
No seu inatingível anseio de beleza.

Mario Quintana

Dos chatos

O maior chato é o chato perguntativo. Prefiro o chato discursivo ou narrativo, que se pode ouvir pensando noutra coisa… Me lembro que fiz um soneto inteiro — bem certinho, bem clássico e tudo — durante o assalto ao Quarto do Sétimo, isto é, quando um veterano de 30 me contava mais uma vez a sua participação nas glórias e perigos daquela investida.

As velhotas que nos contam seus achaques também são de grande inspiração poética.
Mas que fazer contra a amabilidade agressiva do chato solícito? Aquele que insiste em pagar nossa passagem, nosso cafezinho, ou quer levar-nos à força para um drinque, ou faz questão fechada de nos emprestar um livro que não temos a mínima vontade de abrir…

Ah! ia-me esquecendo dos proselitistas de todas as religiões. Os proselitistas amadores, que são os piores. Quanto aos sacerdotes que conheço, registre-se em seu louvor que eles sempre me falam de outras coisas. Ou me julgam um caso perdido ou um caso garantido… Bem, qualquer que seja o caso, deixam-me em paz.

O que pode acontecer de mais chato no mundo é o chato que se chateia a si mesmo, o autochato.
Para essa extrema contingência, descobri em tempo que a última solução não é o suicídio. É escrever, desabafar para cima do leitor, o qual, se me leu até aqui, a culpa é toda dele.

Há gente para tudo…

Mario Quintana

Recordo ainda… Mario Quintana

Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta.
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui…
Mas, aí, Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai: Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai!…
Que envelheceu, um dia, de repente!…

CAMINHO

Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem mais sabia aonde ia…

Era um caminho
velhinho,
perdido…

Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.

O caminho agonizava, morria
sozinho…
Eu vi…

Porque são os passos que fazem os caminhos!

Mario Quintana

POEMINHA SENTIMENTAL

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas…
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Mario Quintana  in Preparativos de Viagem

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E

— ó delicioso vôo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mário Quintana

Começando o ano com Mário Quintana

"Há 2 espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e … os amigos, que são os nossos chatos prediletos."

O luar, é a luz do Sol que está sonhando

O tempo não pára! A saudade é que faz as coisas pararem no tempo… …

os verdadeiros versos não são para embalar, mas para abalar…

A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem

A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe

Inscrição para um portão de cemitério: A morte não melhora ninguém
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento
Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido
Já trazes ao nascer a tua filosofia. As razões? Essas vêm posteriormente, Tal como escolhes, na chapelaria, A fôrma que mais te assente
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta
Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas
Lucidez é um acesso de loucura ao contrário
Mas o que quer dizer este poema? – perguntou-me alarmada a boa senhora E o que quer dizer uma nuvem? – respondi triunfante. Uma nuvem – disse ela – umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo
Mas que haverá com a lua que sempre que a gente olha é com um novo espanto?
Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo
Melancolia: Maneira romântica de ficar triste
Minha vida é uma colcha de retalhos. Todos da mesma cor

O Anjo da Escada

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando
clamando…
Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros…
com os meus caminhos…
com as minhas nuvens…

Mario Quintana

Soneto I, A Rua dos Cataventos

I

Escrevo diante da janela aberta.

Minha caneta é cor das venezianas:

Verde!… E que leves, lindas filigranas

Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas

Mistura os tons… acerta… desacerta…

Sempre em busca de nova descoberta,

Vai colorindo as horas quotidianas…

Jogos da luz dançando na folhagem!

Do que eu ia escrever até me esqueço…

Pra que pensar? Também sou da paisagem…

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…

E me transmuto… iriso-me… estremeço…

Nos leves dedos que me vão pintando!

Mário Quintana

Viver

Quem nunca quis morrer

Não sabe o que é viver

Não sabe que viver é abrir uma janela

E pássaros sairão por ela

E hipocampos fosforescentes

Medusas translúcidas

Radiadas

Estrelas-do-mar… Ah,

Viver é sair de repente

Do fundo do mar

E voar…

e voar…

cada vez para mais alto

Como depois de se morrer!

 

Mario Quintana

Soneto XII, A Rua dos Cataventos

XII
Para Erico Verissimo

O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua – a Lua! – em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado…

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo… Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude…

Mário Quintana

CLAREIRAS

Se um autor faz você voltar atrás na leitura, seja de um período ou de uma simples frase, não o julgue profundo demais, não fique complexado: o inferior é ele.

A atual crise de expressão, que tanto vem alarmando a velha-guarda que morre mas não se entrega, não deve ser propriamente de expressão, mas de pensamento. Como é que pode escrever certo quem não sabe ao certo o que procura dizer?

Em meio à intrincada selva selvaggia de nossa literatura encontram-se às vezes, no entanto, repousantes clareiras. E clareira pertence à mesma família etimológica de clareza… Que o leitor me desculpe umas considerações tão óbvias. É que eu desejava agradecer, o quanto antes, o alerta repouso que me proporcionaram três livros que li na última semana: Rio 1900 de Brito Broca, Fronteira, de Moysés Vellinho e Alguns Estudos, de Carlos Dante de Moraes.

Porque, ao ler alguém que consegue expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.

E, como também estive a folhear o velho Pascall, na edição Globo, encontrei providencialmente em meu apoio estas palavras, à pág. 23 dos Pensamentos:

"Quando deparamos com o estilo natural, ficamos pasmados e encantados, como se esperássemos ver um autor e encontrássemos um homem".

Mario Quintana – A vaca e o hipogrifo

Querias que eu falasse de "poesia"

Querias que eu falasse de "poesia" um pouco
mais…e desprezasse o quotidiano atroz…
querias…era ouvir o som da minha voz
e não um eco – apenas – deste mundo louco!

Mas quê te dar, pobre criança, em troco
de tudo que esperavas, ai de nós:
é que eu sou oco…oco…oco…
como o Homem de Lata do "Mágico de Oz"!

Tu o lembras, bem sei…ah! o seu horror
imenso às lágrimas…Porque decerto se enferrujaria…

E tu…Como um lírio do pântano tu me querias,
como uma chuva de ouro a te cobrir devagarinho,
um pássaro de luz…Mas haverá maior poesia
do que este meu desesperar-me eterno da poesia?!

Mario Quintana

Projeto de Prefácio

 

Sábias agudezas… refinamentos…
– não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre…
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

Mario Quintana

A Rua dos Cataventos- XII

O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua – a Lua! – em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado…

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo… Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude…

Mário Quintana

Meu bonde passa pelo mercado

Meu bonde passa pelo Mercado
Mas o que há de bom mesmo não está à venda.
O que há de bom não custa nada.
Este momento de euforia é a flor da eternidade.
E essa minha alegria inclui também minha tristeza
– a nossa tristeza…
Tu não sabias, meu companheiro de viagem?
Todos os bondes vão para o infinito!

Mario Quintana

Imemorial

À noite pervaguei pelo Beco do Império
que há cinqüenta anos não existe mais
e as horríveis mulheres, nos portais,
estavam belas de eu sonhar com elas.

Um bêbado me olhava, muito sério.
"O meu velho Condessa, como vais?"
Porém, agora – eu é que era o velho
e ele nem me conhecia mais…

Tolice!… Ele, afinal, disse o meu nome!
Ah, sempre que se sonha alguma coisa
tem-se a idade do tempo em que as sonhamos:

Me esqueci do futuro… e Lá nos fomos
e a luz da Lua eterna, intemporal –
juntava numa as duas sombras gêmeas.
        QUEM SERÍAMOS?

Veio um instante, partiu de novo,
Leve, sem nome…

Para que nomes? Era azul e voava…
No véu das horas punha o seu motivo.
Partiu. E nem
Ficou sabendo
Como eu acaso me chamava.

Mário Quintana

Os Parceiros

Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste…
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.

Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro… eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…
Como também disfarce é a minha vida!

Mário Quintana

Naturezas Mortas

Havia talhadas de melancia rindo…
E os difíceis abacaxis: por fora uma hispidez de
bicho insaciável;
Por dentro, uma ácida doçura…
Morno veludo de pêssegos…
Frescor saudoso de amoras…

E, a mais agreste e dócil das criaturinhas,
Cada pitanga desmanchava-se como um beijo
vermelho na boca.
Eu passo, sem querer, as costas da mão nos meus
lábios:
Não sei por que desenho essas coisas no tempo
        passado…

Mário Quintana

Alegria

Não essa alegria fácil dos cabritos monteses
Nem a dos piões regirando
Mas
Uma alegria sem guizos e sem panderetas…
Essa a que eu queria:
A imortal, a serena alegria que fulge no olhar dos
santos
Ante a presença luminosa da morte!

Mário Quintana

Um vôo de andorinha

Um vôo de andorinha
Deixa no ar o risco de um frêmito…
Que é isto, coração?! Fica aí, quietinho:
Chegou a idade de dormir!

Mas

Quem é que pode parar os caminhos?
E os rios cantando e correndo?
E as folhas ao vento? E os ninhos…
E a poesia…
A poesia como um seio nascendo…

Mário Quintana

A MORTE É QUE ESTÁ MORTA

Para José Régio

A morte é que está morta.
Ela é aquela Princesa Adormecida
no seu claro jazigo de cristal.

Aquela a quem, um dia – enfim -, despertarás…

E o que esperavas ser teu suspiro final
é o teu primeiro beijo nupcial!

– Mas como é que eu te receava tanto
(no teu encantamento lhe dirás)
e como podes ser assim tão bela?!
Nas tantas buscas, em que me perdi,
vejo que cada amor tinha um pouco de ti…

E ela, sorrindo, compassiva e calma:

– E tu, por que é que me chamavas Morte?
Eu sou, apenas, tua Alma…

Mário Quintana

Terra

Terra! um dia comerás meus olhos…

 

Eles eram

No entanto

O verde único de tuas folhas

O mais puro cristal de tuas fontes…

 

Meus olhos eram os teus pintores!

 

Mas, afinal, quem precisa de olhos para sonhar?

A gente sonha é de olhos fechados.

 

Onde quer que esteja… onde for que seja…

Na mais densa treva eu sonharei contigo,

Minha terra em flor!

 

Mário Quintana

O viajante às avessas

…até que o condutor me bateu no ombro: "Fim da linha, seu moço.
Desci. E fui andando, meio desconfiado.

Praças com bancos de madeira, curvos e verdes como as árvores, O pé-de-moleque do calçamento irregular da rua. Os lampiões de esquina.
O quiosque (um quiosque!) de revistas, cigarros, balas miudezas. Mas fui andando, andando – como é que eu sabia o caminho? – e finalmente entrei na velha copa de azulejos, la onde Tia Tula já estava, como sempre, servindo o gostoso café com leite. Entreparou e disse: – Mas por onde terá andado esse menino?!

Aquele seu jeito, tão dela, de ralhar na terceira pessoa…
E, como eu ainda estivesse com um ar ausente: "Meu Deus, em que será que esse menino pensa tanto?" E acrescentou, baixinho:
-Até parece um velho de sessenta anos!

Mário Quintana

Conto Azul

Agarrado a ponta da estrela, acabou me dando uma dormência, mas afinal consegui sacudir o pé e desprendeu-se um sapato. Foi cair na cabeça do vigário. Ainda bem que ele não se achava no exercício de suas funçoes.

Estava praticando caridade. E a pobre vítima a quem socorria foi presa por agressão e roubo.

E como nem o acusado acreditasse na procedência etérea do sapato e o próprio vigário, que voltara a si, era infenso a testemunhar tais implausibilidades – que bem poderiam ser obra do demônio -, não houve outra saída, a bem da ordem natural do mundo, senão aquele homem de boa-fé confessar que aquilo pertencia à pessoa que ele assaltara na penúltima vez. E como ninguém encontrasse ,a tal, concluiu-se por homicidio. Agora, só faltava o cadáver.

Meu Deus! esses humanos.. Não podiam eles viver sem razões? Ri tanto que me despenquei da ponta da estrela. Com o que ficou tudo resolvido. Eu era precisamente o cadáver que não tinha um sapato!

E quando voltar a mim (são muito longos os desmaios dos anjos) todos os personagens e assistentes dessa história já terão desaparecido, e talvez a linda e pequena cidade onde ela aconteceu.

Mário Quintana

Os grilos

Os grilos abrem frinchas no silêncio.
Os grilos trincam as vidraças negras da noite.
E o silêncio das vastas solidões noturnas
é uma rede tecida de cricrilos… Mas
impossível que haja tantos grilos no mundo,
pensa o Doutor… Sim, talvez seja um problema
do labirinto,
retruco, telepático. Mas eu só acredito no que está
nos meus poemas,
doutor… Meus poemas é que são os meus sentidos

e não esses, tão poucos, que se contam pelos dedos
e não passam de um único bicho estropiado de cinco
patas,
com que mal pode se locomover.
Chego ao fim da consulta como chego ao fim deste
soneto.
Fecha-se a porta do poema e saio para a rua:
…um pobre bicho perdido, perdido, perdido…

Mário Quintana

Coisas numeradas de um a trinta e cinco, Mário Quintana

I

Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento.

II

Ah, essas esculturas de gaze do vento, sempre errantes entre o céu e a terra, como os sonhos do homem.

III

A Vitória de Samotrácia: vento petrificado.

IV

A Gioconda é uma chata.

V

Há poetas cheios de detritos que vão arrastando tudo na corrente. As vezes, quando muito, uma cachorra morta. As vezes o belo cadáver de Ofélia.

VI

Hamlet, meu condiscípulo de dúvidas…

VII

Há poetas que fazem música de câmera: Verlaine, Laforgue, para apenas citar gente minha… Victor Hugo era outra coisa. Victor Hugo era o General da Banda!

VIII

Mas para que interpretarem um poema? Um poema já é uma interpretação.

IX

Os psiquiatras são incuráveis?

X

Vagas notas esparsas… Leitores há que gostam disso. E até desconfio
que, para alguns desses leitores de que tanto gosto, os livros  deveriam ser compostos apenas de entrelinhas.

XI

Os velhos, quanto mais velhos, mais vírgulas usam.

XII

O ruim dos filmes de faroeste é que OS tiroteios acordam a gente no
melhor do sono.

XIII

O ruim das negras é que elas nunca parecem despidas.

Xiv

Se cortassem as mesuras dos filmes japoneses, não sobraria um único
de longa-metragem.

XV

No nundo não há nada mais importante do que os políticos das cidades pequenas.

XVI

Nós não perdemos os mortos, os mortos é que nos perdem.

XVII

A rede das estrelas é uma incômoda teia de aranha sobre a face da Eternidade.

XVIII

A voz do vento… Ninguém sabe o que o vento quer dizer… Quem me
faz uma Letra para a voz do vento?

XIX

Um dia de chuva é bom para a gente comprar livros de poemas… Quem
perguntar por que, de nada lhe adianta comprar um livro de poemas.

XX

As viagens ilustram, como dizem? As viagens aproveitam alguma coisa?
Não sei, mas desconfio que depois da sua visita aos Estados Unidos a Gioconda deve ter voltado com um sorriso muito mais enigmático.

XXI

O que há de terrível nos robôs não é como eles se parecem conosco, mas como nós nos parecemos com eles.

XXII

Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais
difícil.

XXIII

Quanto à arte engajada, eu só te pergunto: Que significação política tem o crepúsculo?

XXIV

A noite picotada de grilos…

XXV

Maltratar os poetas é indício de mau caráter.

XXVI

Coragem não é documento: os gangsters também são heróis.

XXVII

A Vida nutre-se da morte, e não a morte da vida, como julgam alguns pessimistas.

XXVIII

E, por falar em pessimismo, naquela ainda indecisa mas já histórica manhã de 2 de abril de 1964, ouvi, no Largo dos Medeiros, um velho dizer a outro: "A coisa não pode estar boa! Anda muita gente de cara alegre…"

XXIX

Já repararam? Antes, em todas as vitrinas de brique, havia sempre um busto de Napoleão. Agora, sumiram-se! As vitrinas de brique são o último estágio da glória.

XXX

Esses que apreciam num escritor a opulência de Linguagem devem ser os mesmos que se babam de puro êxtase diante das senhoras bem  fornidas.

XXXI

…ser xifópago deve ser tão incômodo como ser casado…

XXXII

Me lembro de um colega de ginásio que tirou da sua própria cachola e escrevia em seus cadernos e livros, com letra caprichada, o seguinte: "Estudo, és tudo!" Teve o fim que merecia.

XXXIII

Se não fosse Van Gogh, o que seria do amarelo?

XXXIV

A Vênus de Milo tem cabeça e cérebro de ovelha.

XXXV

Por que ainda ninguém se lembrou de pintar uma mulher nua de óculos?

Tenta esquecer-me…

Ser lembrado é como evocar
Um fantasma… Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo…
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,

Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se…
Um espelho não guarda as coisas refletidas!

E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…

Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!

Mário Quintana

Canção de Ballet

Ele sozinho passeia
Em seu palácio invisível.
Linda moça risca um riso
Por trás do muro de vidro.

Risca e foge, num adejo.
Ele pára, de alma tonta.
Um beijo brota na ponta
Do galho do seu desejo.

E pouco a pouco se achegam.
Põem a palma contra palma.
Mas o frio, o frio do vidro
Lhe penetra a própria alma!

“Ai do meu Reino Encantado,
Se tudo aqui é impossível…

Pra que palácio invisível
Se o mundo está do outro lado?”
E inda busca, de alma louca,
Aquele lábio vermelho.

Ai! o frio da própria boca!
O amor é um beijo no espelho…
Beija e cai, como um engonço,

Todo desarticulado…
Linda moça, como um sonho,
Se dissipa do outro lado…

Mario Quintana