Soneto 19

 

Tempo voraz, corta as garras do leão,
E faze a terra devorar sua doce prole;
Arranca os dentes afiados da feroz mandíbula do tigre,
E queima a eterna fênix em seu sangue;
Alegra e entristece as estações enquanto corres,
E ao vasto mundo e todos os seus gozos passageiros,
Faze aquilo que quiseres, Tempo fugaz;
Mas proíbo-te um crime ainda mais hediondo:
Ah, não marques com tuas horas a bela fronte do meu amor,
Nem traces ali as linhas com tua arcaica pena;
Permite que ele siga teu curso, imaculado,
Levado pela beleza que a todos sustém.
Embora sejas mau, velho Tempo, e apesar de teus erros,
Meu amor permanecerá jovem em meus versos.

William Shakespeare

SONETO CV

Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.

É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.

‘Beleza, Bem, Verdade’, eis o que exprimo;
‘Beleza, Bem, Verdade’, todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,

Em um, três temas, de amplo movimento.
‘Beleza, Bem, Verdade’ sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.

William Shakespeare

Perguntei a um sábio,

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade…
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.

William Shakespeare

SONETO LXX

Se te censuram, não é teu defeito,
Porque a injúria os mais belos pretende;
Da graça o ornamento é vão, suspeito,
Corvo a sujar o céu que mais esplende.

Enquanto fores bom, a injúria prova
Que tens valor, que o tempo te venera,
Pois o Verme na flor gozo renova,
E em ti irrompe a mais pura primavera.

Da infância os maus tempos pular soubeste,
Vencendo o assalto ou do assalto distante;
Mas não penses achar vantagem neste

Fado, que a inveja alarga, é incessante.
Se a ti nada demanda de suspeita,
És reino a que o coração se sujeita.

William Shakespeare

O Espelho não me prova que envelheço

O espelho não me prova que envelheço
Enquanto andares par com a mocidade;
Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
Já sei que a Morte a minha vida invade.

Pois toda essa beleza que te veste
Vem de meu coração, que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
Por isso como posso ser mais velho?

Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
Levar teu coração, tão desvelado

Qual ama guarda o doce infante, eu hei.
E nem penses em volta, morto o meu,
Pois para sempre é que me deste o teu.

William Shakespeare

Soneti LXXXVIII

Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,
Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:

Por ti todas as culpas eu suporto.

William Shakespeare

Soneto 35

Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;

Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço

Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.

William Shakespeare

Se te comparo a um dia de verão…

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

Shakespeare

 

Citações

 

William  Shakespeare

 

— Devemos aceitar o que é impossível deixar de acontecer.

— Até mesmo a bondade, se em demasia, morre do próprio excesso.

— O cansaço ronca em cima de uma pedra, enquanto a indolência acha duro o melhor travesseiro.

— Vazias as veias, nosso sangue se arrefece, indispostos ficamos desde cedo, incapazes de dar e de perdoar. Mas quando enchemos os canais e as calhas de nosso sangue com comida e vinho, fica a alma muito mais maleável do que durante esses jejuns de padre.

— Ninguém poderá jamais aperfeiçoar-se, se não tiver o mundo como mestre. A experiência se adquire na prática.

— Se o ano todo fosse de feriados, o lazer, como o trabalho, entediaria.

— Ventre grande é sinal de espírito oco; quando a gordura é muita, o senso é pouco.

— Que é o homem, se sua máxima ocupação e o bem maior não passam de comer e dormir?

— Do jeito que o mundo anda, ser honesto é (igual) a ser escolhido entre dez mil.

— Hóspede oferecido (…) só é bem-vindo quando se despede.

— Um homem inteligente pode transformar-se num joão-bobo, quando não sabe valer-se de seus recursos naturais.

— Quem não sabe mandar deve aprender a ser mandado.

— A mulher que não sabe pôr a culpa no marido por suas próprias faltas, não deve amamentar o filho, na certeza de criar um palerma.

— As coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos.

— Ninguém pode calcular a potência venenosa de uma palavra má num peito amante.

— Sábio é o pai que conhece seu próprio filho.

— Tem ventura fugaz, sempre periga, quem se fia em rapaz ou rapariga.

— Ser ou não ser… eis a questão.

— É estranho que, sem ser forçado, saia alguém em busca de trabalho.

—As mais belas jóias, sem defeito, com o uso o encanto perdem.

— O bom vinho é um camarada bondoso e de confiança, quando tomado com sabedoria.

— Nunca poderá ser ofensivo aquilo que a simplicidade e o zelo ditam.

Um Dia de Verão

– Soneto XVIII – 

 

Se te comparo a um dia de verão 

és por certo mais bela e mais serena. 

O vento espalha as flores pelo chão 

e a demora do estio é bem pequena. 

 

Às vezes brilha o sol em demasia 

outras vezes desmaia com frieza. 

O que é belo declina num só dia, 

na eterna mutação da natureza. 

 

Mas em ti o verão será eterno, 

esse encanto que tens não perderás 

nem chegarás da morte ao triste inverno. 

 

Nestas linhas, com o tempo, crescerás, 

e enquanto sobre a terra houver um ser 

meus versos, vivos, te farão viver. 

 

William Shakespeare 

154 Sonetos: Soneto 91

91

Uns se orgulham do berço, ou do talento;
Outros da força física, ou dos bens;
Alguns da feia moda do momento;
Outros dos cães de caça, ou palafréns.
Cada gosto um prazer traz na acolhida,
Uma alegria de virtudes plenas;
Tais minúcias não são minha medida.
Supero a todos com uma só apenas.
Mais do que o berço o teu amor me é caro,
Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,
Mais me apraz que os corcéis, ou cães de faro,
E tendo-te, do orgulho humano abuso.
    O infortúnio seria apenas este:
    Tirar de mim o bem que tu me deste.

 

XCI

Some glory in their birth, some in their skill,
Some in their wealth, some in their body’s force,
Some in their garments though new-fangled ill;
Some in their hawks and hounds, some in their
                                             [ horse;
And every humour hath his adjunct pleasure,
Wherein it finds a joy above the rest:
But these particulars are not my measure,
All these I better in one general best.
Thy love is better than high birth to me,
Richer than wealth, prouder than garments’ cost,
Of more delight than hawks and horses be;
And having thee, of all men’s pride I boast:
    Wretched in this alone, that thou mayst take

    All this away, and me most wretched make.

 

William Shakespeare


Em minha desgraça

Quando em minha desgraça e sem fortuna sigo

dos homens desprezado, e minha sorte choro,

praguejo contra os céus insensíveis, deploro

meu destino, e em protesto inútil me maldigo.

E os ricos de esperança invejo, e, num momento,

anseio ter também prazeres, alegrias,

tudo o que, à alma nos traz algum contentamento

e de amizades enche o decorrer dos dias…

Mas se assim desolado estou, e penso em ti,

tal como a cotovia ao vir da madrugada,

canto à espera do sol, à luz que ainda não vi,

e me sinto feliz, e sou rico talvez,

pois tendo o teu amor em minha alma encantada,

nem troco o meu Destino e nem invejo os Reis!

 

William Shakespeare

154 Sonetos: Soneto 18

18

Devo igualar-te a um dia de verão?
Mais afável e belo é o teu semblante:
O vento esfolha Maio inda em botão,
Dura o termo estival um breve instante.
Muitas vezes a luz do céu calcina,
Mas o áureo tom também perde a clareza:
De seu belo a beleza enfim declina,
Ao léu ou pelas leis da Natureza.
Só teu verão eterno não se acaba
Nem a posse de tua formosura;
De impor-te a sombra a Morte não se gaba
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura.
    Enquanto houver viventes nesta lida,
    Há-de viver meu verso e te dar vida.

 

XVIII

Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm’d,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course
                                                 [ untrimm’d:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st,
Nor shall death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st,
    So long as men can breathe, or eyes can see,
    So long lives this, and this gives life to thee.

 

 

William Shakespeare


154 Sonetos: Soneto 12

12

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
    Contra a foice do Tempo é vão combate,
    Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

 

XII

When I do count the clock that tells the time,
And see the brave day sunk in hideous night;
When I behold the violet past prime,
And sable curls, all silvered o’er with white;
When lofty trees I see barren of leaves,
Which erst from heat did canopy the herd,
And summer’s green all girded up in sheaves,
Borne on the bier with white and bristly beard,
Then of thy beauty do I question make,
That thou among the wastes of time must go,
Since sweets and beauties do themselves forsake
And die as fast as they see others grow;
    And nothing ‘gainst Time’s scythe can make
                                                   [ defence
    Save breed, to brave him when he takes thee
                                                   [ hence.

 

 

William Shakespeare


154 Sonetos: Soneto 65

65

Se ao bronze, à pedra, ao solo, ao mar ingente,
Lhes vem a Morte o seu poder impor,
Como a beleza lhe faria frente
Se não possui mais forças que uma flor?
Com um hálito de mel pode o verão
Vencer o assédio pertinaz dos dias,
Quando infensas ao Tempo nem serão
As portas de aço e as ínvias penedias?
Atroz meditação! como esconder
Da arca do Tempo a jóia preferida?
Que mão lhe pode os ágeis pés deter?
Quem não lhe sofre o espólio nesta vida?
    Nada! a não ser que a graça se consinta
    De que viva este amor na negra tinta.

 

LXV

Since brass, nor stone, nor earth, nor boundless
                                                [ sea,
But sad mortality o’ersways their power,
How with this rage shall beauty hold a plea,
Whose action is no stronger than a flower?
O! how shall summer’s honey breath hold out
Against the wrackful siege of battering days,
When rocks impregnable are not so stout,
Nor gates of steel so strong, but Time decays?
O fearful meditation! where, alack,
Shall Time’s best jewel from Time’s chest lie hid?
Or what strong hand can hold his swift foot
                                               [ back?
Or who his spoil of beauty can forbid?
    O! none, unless this miracle have might,
That in black ink my love may still shine bright.

 

 

William Shakespeare

154 Sonetos: Soneto 138

 

138

Quando jura ser feita de verdades,
Em minha amada creio, e sei que mente,
E passo assim por moço inexperiente,
Não versado em mundanas falsidades.
Mas crendo em vão que ela me crê mais jovem Pois sabe bem que o tempo meu já míngua, Simplesmente acredito em falsa língua:
E a patente verdade os dois removem.
Por que razão infiel não se diz ela?
Por que razão também escondo a idade?
Oh, lei do amor fingir sinceridade
E amante idoso os anos não revela.
    Por isso eu minto, e ela em falso jura,
    E sentimos lisonja na impostura.

 

CXXXVIII

When my love swears that she is made of truth,
I do believe her though I know she lies,
That she might think me some untutor’d youth,
Unlearned in the world’s false subtleties.
Thus vainly thinking that she thinks me young,
Although she knows my days are past the best,
Simply I credit her false-speaking tongue:
On both sides thus is simple truth supprest:
But wherefore says she not she is unjust?
And wherefore say not I that I am old?
O! love’s best habit is in seeming trust,
And age in love, loves not to have years told:
    Therefore I lie with her, and she with me,
    And in our faults by lies we flatter’d be.

 

 

William Shakespeare

 

 

 

William Shakespeare

Monólogo de Hamlet

Ser ou não ser, eis a questão.
O que é mais nobre? Sofrer na alma
As flechas da fortuna ultrajante
Ou pegar em armas contra um mar de dores
Pondo-lhes um fim? Morrer, dormir
Nada mais; e por via do sono pôr ponto final
Aos males do coração e aos mil acidentes naturais
De que a carne é herdeira, num desenlace
Devotadamente desejado. Morrer! Dormir; dormir
Dormir, sonhar talvez: mas aqui está o ponto de interrogação;
Porque no sono da morte, que sonhos podem assaltar-nos
Uma vez fora da confusão da vida?
É isso que nos obriga a reflectir: é esse respeito
Que nos faz suportar por tanto tempo uma vida de agruras.
Pois quem suportaria as chicotadas e o escárnio do tempo
As injustiças do opressor, as afrontas dos orgulhosos,
A tortura do amor desprezado, as demoras da lei,
A insolência do oficial e os pontapés
Que o paciente mérito recebe do incompetente
Quando o próprio poderia gozar da quietude
Dada pela ponta de um punhal? Quem tais fardos suportaria
Preferindo gemer e suar sob o peso de uma vida fatigante
A não pelo medo de algo depois da morte
Esse país desconhecido de cujos campos
Nenhum viajante retornou, e que nos baralha a vontade
E nos faz suportar os males que temos
Em vez de voar para o que não conhecemos?
Assim a consciência nos faz a todos cobardes
E assim as cores nascentes da resolução
Empalidecem perante o frouxo clarão do pensamento
E os planos de grande alcance e actualidade
Por via desta perspectiva mudam de sentido
E saem do reino da acção.

William Shakespeare

O Espelho não prova que envelheço

O espelho não me prova que envelheço
Enquanto andares par com a mocidade;
Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
Já sei que a Morte a minha vida invade.

Pois toda essa beleza que te veste
Vem de meu coração, que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
Por isso como posso ser mais velho?

Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
Levar teu coração, tão desvelado

Qual ama guarda o doce infante, eu hei.
E nem penses em volta, morto o meu,
Pois para sempre é que me deste o teu.

Shakespeare

Soneto XXIX

Quando em minha desgraça e sem fortuna sigo

dos homens desprezado, e minha sorte choro,

praguejo contra os céus insensíveis, deploro

meu destino, e em protesto inútil me maldigo.

 

E os ricos de esperança invejo, e, num momento,

anseio ter também prazeres, alegrias,

tudo o que, à alma nos traz algum contentamento

e de amizades enche o decorrer dos dias…

 

Mas se assim desolado estou, e penso em ti,

tal como a cotovia ao vir da madrugada,

canto à espera do sol, à luz que ainda não vi,

 

e me sinto feliz, e sou rico talvez,

pois tendo o teu amor em minha alma encantada,

nem troco o meu Destino e nem invejo os reis!

 

Shakespeare

Silvia – Trecho de " Dois Cavalheiros de Verona"

Quem é Sílvia? O que ela oculta

em si, pois tudo a exalta?

Ela é pura, bela, culta

e, como não tem falta,

qualquer moço, ao vê-la, exulta.

 

Será doce como é bela?

Beleza inclui doçura.

Cego, o Amor, tão logo apela

a seu olhar, se cura

e hoje habita os olhos dela.

 

Louvemos Sílvia, senhores,

porque Sílvia supera

quanto vive, até os melhores

mortais aqui da Terra,

e coroêmo-la de flores.

 

 

William Shakespeare

Shakespeare: As idades do homem

O mundo inteiro é um palco, e todos os homens simples atores, com as suas saídas e entradas, com múltiplos papéis em atos que abrangem sete idades.

Primeiro, temos a criancinha, choramingando e vomitando nos braços da ama. Segue-se o estudante resmungão, com a sua mochila, o brilhante rosto matinal, arrastando-se como um caracol para a detestada escola.

A terceira idade é a do amante, suspirando como uma fornalha, com uma horrível balada em honra da sobrancelha da amada. Depois vem o soldado, cheio de estranhos juramentos, barbudo como um leopardo, zeloso da honra, brusco e ágil na luta, atrás da ilusória reputação, mesmo na boca do canhão.

A quinta idade é a do magistrado, com o seu belo ventre redondo, usando gorro próprio, olhar severo e barba de corte formal, cheio de sábios provérbios e modernos julgamentos, desempenhando o seu papel.

A sexta idade faz o homem vestir-se como um arlequim, de calças justas, óculos no nariz e algibeira ao lado; meias joviais, bem conservadas, um mundo amplo demais para as suas enfraquecidas pernas, e um vozeirão másculo a tornar-se num infantil soprano, cheio de silvos e sibilos.

A derradeira cena, término da memorável história da vida, é a segunda infância, a do puro esquecimento, a da falta de dentes, de visão, de paladar, rumo ao nada.

Sonhos de uma noite de verão

“Há quem diga que todas as noites são de sonhos”. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isso não tem importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos.

“Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.”

(Shakespeare, Sonhos de uma noite de verão)