SER PARA SEMPRE FIEL

 

Em capítulo recente falei de Adolpho Bloch, não o atual, o milionário de Manchete. Não. O fundador de um império grá­fico interessa menos. O grande Adolpho é o de Pereira Nunes, de pé descalço e calça furada. Era menino e passava fome. Ho­je, ele muda de automóvel como de camisa. Todo o dia sai com um carro novo. E aqui está o suave milagre: — o menino da fome não morreu em Adolpho Bloch, e repito: — Adolpho Bloch não o matou.

Não só não matou e digo mais: — esta criança exânime e obsessiva há de salvá-lo. De vez em quando, resolvendo negó­cios nababescos, o Adolpho começa a tremer de humildade. Na porta, à sua espera, está o automóvel bonito como um elefante de rajá. E, apesar disso, Adolpho torna-se pungente, plangente. Ninguém entende, mas explico: — é o menino da fome que co­meça a doer em suas entranhas.

Mas falei em fome e, por associação, penso em d. Hélder (ah, este homem fatal). Contei em nota recente a entrevista do querido arcebispo na televisão pernambucana. O locutor fez-lhe a pergunta melíflua: — “padre, o que é que o senhor acha do amor livre?”. O Nordeste em peso tremeu. D. Hélder faz um risonho suspense e fala: — “Por que tratar de amor livre se o Nordeste passa fome?”.

Assim falou o grande arcebispo. Mas o Hélio Pellegrino, que soube do episódio, comentava comigo: — “Ah, d. Hélder per­deu a chance de uma resposta genial”. Se o Hélio Pellegrino lá estivesse havia de responder, na hora, em cima da pergunta: — “O amor livre é a fome!”. Aqui entro eu para observar: — claro que a fome do Nordeste é muito mais promocional.

E porque faz as relações públicas da fome nordestina, d. Hélder despreza ou esquece as outras fomes do homem. Pois o amor livre, como diz o Hélio Pellegrino, é uma delas, e insis­to: — uma das mais cruéis, das mais hediondas. Na minha in­fância havia um rapaz que era o escândalo de toda a Aldeia Campista.

Chamava-se Meireles. Meireles ou Marcondes? Não, não. Era Meireles mesmo. Pois o Meireles tinha uma namorada em cada esquina, noivas e esposas por toda a cidade. Muitos já insinua­vam o vaticínio: — “Qualquer dia dão-lhe um tiro!”. E o Meire­les foi, talvez, o primeiro sujeito que ouvi falar em “amor li­vre”. Certa vez houve uma festa na vizinhança; era batizado ou aniversário, não me lembro mais.

E o Meireles (ou seria Marcondes?), o Meireles estava lá e tomou conta da festa. Cercado de mocinhas, de senhoras, con­tou a própria vida. Confirmou que tinha uma paixão, ou várias, em cada bairro. Alguém lhe perguntou se não tinha vergonha. Abriu o riso: “Vergonha teria de ser homem de uma mulher só!”. Naquele tempo as mulheres usavam leque (o movimento lépi­do ou lento do leque era de uma delicada voluptuosidade). E as presentes abanavam-se com mais angústia.

(Depois se soube que o Meireles tinha não só namoradas, mas filhos por toda a cidade.) No fundo, no fundo, a audiência estava fascinada com esse descaro monumental. Antes de sair, ainda disse: — “Qualquer um pode gostar de quinhentas ao mes­mo tempo”. Eu estava no aniversário, comendo mãe-benta. O Meireles foi, talvez, o primeiro cínico que conheci na vida real.

Depois que o Meireles saiu, um vizinho, já senhor, de olho grande e triste, disse apenas: — “É um canalha!”. Aí está um ponto de exclamação que realmente o velho não usou. Dissera “canalha” sem ira, um “canalha” que saiu apenas informativo. Quanto a mim, nos meus sete anos, exatamente sete anos, tive uma náusea adulta.

Pode parecer que eu esteja aqui retocando, valorizando uma reação infantil. Repito que me veio uma ânsia, quase um vômi­to ético. Desinteressei-me das mães-bentas; e vim para casa com vontade de morrer. Exatamente: — vontade de morrer. Eu não entendia um Meireles. Nasceu comigo o horror de trair. Eu que­ria ser fiel e que todos fossem fiéis. Amar a mesma, sempre. E, mais tarde, quando comecei a namorar, teria pena, vergonha de dançar, simplesmente dançar com outra. Em toda a minha infância, a minha mais doce utopia era morrer com o ser amado.

Volto ao Meireles. Nos fundos da nossa casa havia uma far­mácia (ainda hoje o cheiro de remédio, de certas pomadas, de­flagra em mim todo um processo regressivo. É a farmácia que não morre. Em seu lugar levantaram um edifício. Mas em mim ela não morre). E uma tarde o Meireles entra lá. Nunca riu tan­to. Ouvia-se a sua gargalhada no fim da rua. Contou anedotas. E em dado momento diz que naquele instante estava sendo pai outra vez. Alguém perguntou: — “Quantos?”. Ele pensou um momento e resmungou: — “Sei lá!”.

E de repente o Meireles diz para os três ou quatro que es­tavam na farmácia: — “Olha o que eu vou fazer”. À vista de todos, puxou o revólver. Houve protestos: — “Vira isso para lá!”. Pediram: — “Não brinca”. E então, pálido mas sereno, ele introduziu o cano na boca. Ninguém dizia nada. Puxou o gatilho.

Eu estava em casa e ouvi o tiro. Horas depois já se monta­va todo um folclore sobre o suicídio. Segundo uns, pulou um olho; outros viram voar o tampo da cabeça; e se disse também que o sangue esguichara na cara de uma testemunha. Lembro-me de que o tal senhor triste, que já o chamara de canalha, an­dou dizendo: — “Quem devia ter dado o tiro era um pai, um marido, um irmão”. “Morte instantânea”, disse o jornal. Quan­do a ambulância chegou, estava deitado, os sapatos tortos de cadáver.

Hoje, na minha casa, penso de vez em quando no Meire­les. E o gesto suicida parece tornar-se no mais transparente dos mistérios. Na época toda a Aldeia Campista perguntava: — “Por quê?”. Ninguém entendia nada. Mas o Meireles está diante de mim, tão nítido. Morreu do amor livre e, pois, de falta de amor. Tudo é falta de amor. O câncer no seio ou qualquer outra forma de câncer. É falta de amor. As lesões do sentimento. A cruel­dade. Tudo, tudo falta de amor.

E o Meireles separou o amor e o sexo. E sempre há os que apodrecem em vida porque separaram o sexo e o amor. A toda hora esbarramos com sujeitos que praticam a variedade sexual. Esses vão morrer na mais fria, lívida, espantosa solidão. Por vezes, de madrugada, começo a jogar com as palavras. “Quem tem uma tem todas. Quem tem todas não tem ninguém.” Depois do suicídio andaram fazendo na rua Alegre um censo das mulhe­res de Meireles. Falou-se em “duzentas”. Porque teve duzen­tas, o Meireles morreu virgem como uma solteirona de Garcia Lorca.

 

Nelson Rodrigues, 02/01/1968

 

Um comentário sobre “SER PARA SEMPRE FIEL

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