Epístola aos novos bárbaros

Jamais compreendeis a terrível simplicidade das minhas palavras
porque elas não são palavras: são rios, pássaros, naves…
no rumo de vossas almas bárbaras.
Sim, vós tendes as vossas almas supersticiosamente pintadas,
a não apenas a cara e o corpo como os verdadeiros selvagens.
Sabeis somente dar ouvido a palavras que não compreendeis,
e todos os vossos deuses são nascidos do medo.
E eu na verdade não vos trago a mensagem de nenhum deus.
Nem a minha…
Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de cada um de vós
a limpar-vos de vossas tatuagens.
E o frêmito que sentireis, então, nas almas transfiguradas
não será o revôo dos anjos… Mas apenas
o beijo amoroso e invisível do vento
sobre a pele nua.

Mário Quintana

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Canção das Metades

 

Até agora, a maior metade atravessei
desta vida flutuante – eis a palavra mágica:
pois nos veda provar alegrias além
do que podemos ter! A metade da vida
é o período melhor a que alguém chega, quando
sabe andar devagar e, assim, anda em sossego.

Vasto mundo terás meio entre o céu e a terra;
mora a meio caminho entre a cidade e o campo,
tem lavouras a meio entre rios e montanhas;
sê meio intelectual, meio fidalgo e meio
comerciante; vive em meio aos que são nobres,
mas também em meio do povinho comum.
Seja tua casa meio ornada, meio simples
e, tendo móveis bons, pareça meio nua;
tuas roupas, meio antigas e meio novas;
as refeições, meio triviais, mas meio epicuristas.
Tem criados não muito astutos, nem estúpidos;
mulher não muito feia nem bela em excesso.

Sinto em meu coração que, assim, sou meio Buda,
quase meio bendito espírito taoísta.
Metade do que sou ao Pai do céu devolvo
e a outra metade deixo à minha descendência,
meio pensando em tudo o que é mister prover
para a posteridade e meio preocupado
em como responder a Deus, depois que o corpo
afinal repousar.

É mais destro em beber quem só meio ébrio fica,
e a flor ao entreabrir-se mais linda se revela;
mais firme é o navegar do barco a meia vela;
melhor trota o corcel de rédeas meio presas.

Quem tem meios demais, soma-lhes a ansiedade
quem de menos os tem, ganha sabor de posse.
Como a vida se faz de doçura e amargor,
quem só a metade prova é mais arguto e sábio.

Li Mi-an, poeta chinesa do século XVI

Sentimento do tempo

 

Os sapatos envelheceram depois de usados

Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados

E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.

As coisas estavam mortas, muito mortas,

Mas a vida tem outras portas, muitas portas.

 

Na terra, três ossos repousavam

Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.

As lágrimas correndo podiam incomodar

Mas ninguém sabe dizer por que deve passar

Como um afogado entre as correntes do mar.

 

Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz

Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.

Fizeram muitas vezes minha fotografia

Mas meus pais não souberam impedir

Que o sorriso se mudasse em zombaria

Sempre foi assim: vejo um quarto escuro

Onde só existe a cal de um muro.

 

Costumo ver nos guindastes do porto

O esqueleto funesto de outro mundo morto

Mas não sei ver coisas mais simples como a água.

Fugi e encontrei a cruz do assassinado

Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,

Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.

 

Meus pássaros caíam sem sentidos.

No olhar do gato passavam muitas horas

Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.

Não sabia que o tempo cava na face

Um caminho escuro, onde a formiga passe

Lutando com a folha.

O tempo é meu disfarce.

 

Paulo Mendes Campos

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! …

Álvaro de Campos

Alerta

Lá vem o lança-chamas
Pega a garrafa de gasolina
Atira
Eles querem matar todo amor
Corromper o pólo
Estancar a sede que eu tenho doutro ser
Vem do flanco, de lado
Por cima, por trás
Atira
Atira
Resiste
Defende
De pé
De pé
De pé
O futuro será de toda a humanidade.

Oswald de Andrade

Notícia da manhã

Eu sei que todos a viram
e jamais a esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormindo.
E aos dormidos – e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la;
aos moribundos nos catres,
e aos cegos de coração –
a todos que não a viram
contarei desta manhã
– manhã é céu derramado
é cristal de claridão –
que reinou, de leste a oeste,
de morro a mar – na cidade.

Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou
tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos melhor do que eu).
Amorosa e transparente,
esta é a sagrada manhã
que o céu inteiro derrama
sobre os campos, sobre as casas,
sobre os homens, sobre o mar.

Sua doce claridade
já se espalhou mansamente
por sobre todas as dores.
Já lavou a cidade. Agora,
vai lavando corações
(não o do menino; o meu,
que é cheio de escuridões).
Por verdadeira, a manhã
vai chamando outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens, das coisas:
na roupa estendida a corda,
nos navios chegando,
na torre das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa, tão bonitos!

A manhã está no chão, está nas palmeiras,
está no quintal dos subúrbios,
está nas avenidas centrais,
está nos terraços dos arranha-ceús.
Há muita, muita manhã
no menino; e um pouco em mim.)
A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade.
Não: a manhã se deu ao povo.

A manhã é geral.
As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta.
o barulho do bonde,
os passarinhos namorando
– ah! pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
num pedacinho de rua
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
à mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança,
mais além uma coragem,
e além, aqui e ali
pelo campo e pela serra,
aos mendigos e aos sovinas,
aos marinheiros, aos tímidos,
aos desgarrados, aos prósperos,
aos solitários, aos mansos,
às velhas virgens, às puras
e às doidivanas também,
a manhã vai derramando,
uma alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.

E de repente a manhã
– manhã é céu derramado,
é claridão, claridão –
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão.

Thiago de Mello

Vazio

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

Augusto Frederico Schmidt

Não me peçam razões

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Nâo me peçam razões por que se entenda
A força da maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei;
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir;
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago

O mundo e o silêncio

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas

Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos álacres do silêncio

Um mar de espuma e alegria obscura
um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa

Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insetos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
O mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o ver e as lâminas solares

António Ramos Rosa

Visio

Eras pálida. E os cabelos,

Aéreos, soltos novelos,

Sobre as espáduas caíam…

 

Os olhos meio-cerrados

De volúpia e de ternura

Entre lágrimas luziam…

E os braços entrelaçados,

Como cingindo a ventura,

Ao teu seio me cingiram…

 

Depois, naquele delírio,

Suave, doce martírio

De pouquíssimos instantes

Os teus lábios sequiosos,

Frios trêmulos, trocavam

Os beijos mais delirantes,

E no supremo dos gozos

Ante os anjos se casavam

Nossas almas palpitantes…

 

Depois… depois a verdade,

A fria realidade,

A solidão, a tristeza;

Daquele sonho desperto,

Olhei… silêncio de morte

Respirava a natureza ?

Era a terra, era o deserto,

Fora-se o doce transporte,

Restava a fria certeza.

 

Desfizera-se a mentira:

Tudo aos meus olhos fugira;

Tu e o teu olhar ardente,

Lábios trêmulos e frios,

O abraço longo e apertado,

O beijo doce e veemente;

Restavam meus desvarios,

E o incessante cuidado,

E a fantasia doente.

 

E agora te vejo. E fria

Tão outra estás da que eu via

Naquele sonho encantado!

És outra, calma, discreta,

Com o olhar indiferente,

Tão outro do olhar sonhado,

Que a minha alma de poeta

Não vê se a imagem presente

Foi a imagem do passado.

 

Foi, sim, mas visão apenas;

Daquelas visões amenas

Que à mente dos infelizes

Descem vivas e animadas,

Cheias de luz e esperança

E de celestes matizes:

Mas, apenas dissipadas,

Fica uma leve lembrança,

Não ficam outras raízes.

 

Inda assim, embora sonho,

Mas sonho doce e risonho,

Desse-me Deus que fingida

Tivesse aquela ventura

Noite por noite, hora a hora,

No que me resta de vida,

Que, já livre da amargura,

Alma, que em dores me chora,

Chorara de agradecida!

 

 

Machado de Assis

Harmonia Velha

 

O teu beijo resume

Todas as sensações dos meus sentidos

A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume

Dos teus lábios acesos e estendidos

Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador

Que, na lira sensual de cinco cordas,

Tange a canção do amor!

 

E o tato mais vibrante,

O sabor mais sutil, a cor mais louca,

O perfume mais doido, o som mais provocante

Moram na flor triunfal da tua boca!

Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;

Flor de alma, que é também

Um acorde em minha lira,

Que é meu mal e é meu bem…

 

Se uma emoção estranha

o gosto de uma fruta, a luz de um poente –

chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha

qualquer sentido meu, é a ti somente

que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo…

E acabo de pensar

Que qualquer emoção vem de teu beijo

Que anda disperso no ar…

 

 

Guilherme de Almeida

Entre o verde e a brisa

Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijamos
nunca parti

Não sei que idade tenho

Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo

Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seca e pálido
quando havia antes um caminho

Não houve nunca amigos nem, pureza
Nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar

A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar

António Ramos Rosa

Da mais alta janela

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste.

Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água não era ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!

Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro

A desconsoladora

Mulher, eu te procuro continuamente. É mais fácil achar Deus, do que te
achar.
Tenho por ti uma grande atração e repulsão – ao mesmo tempo.
Eu, adormeço com teu amor e desperto com o ódio a ti. E te destruo e te
construo a todo o instante.
Hás de me perseguir até a imortalidade. A paz da mulher não é a paz de
Deus.
A mulher não é o amor. A poesia é o amor. A poesia da ausência da mulher
é equivalente à poesia da posse da mulher.

Murilo Mendes

E ASSIM EM NÍNIVE

“Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

“Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.

E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

“Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”

Ezra Pound

Cidades do Sul

Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.

Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.

Maria Luiza Neto Jorge

O alfabeto no Parque

Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda da vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
«não aguento mais».
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
«cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas.»
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde…
Assim escrevo: tarde. Não a palavra,
a coisa.

Adélia Prado

O Caminho do Lótus

A raiz do lótus está na lama,
Cresce atravessando as águas profundas,
E se ergue na superfície.
Ela mostra a beleza perfeita e pura e a luz do sol.
Ela é como a mente se desdobrando para atingir a perfeita felicidade e sabedoria.

Siddhartha Gautama ( Buda )

Despedidas

Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!

Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

Affonso Romano de Sant’anna

Febre, 40?

Pura? Como assim?

As línguas do inferno

São sujas, sujas como as três

Línguas do sujo e gordo Cérbero

Que arfa ao portão. Incapaz

De lamber e limpar

O membro em febre, o pecado, o pecado.

A chama chora.

 

O cheiro inconfundível

De um toco de vela!

Amor, amor, a fumaça escapa de mim

Como a écharpe de Isadora, e temo

Que uma das pontas ancore-se na roda.

 

Uma fumaça amarela e lenta assim

faz de si seu elemento. Não vai subir,

Mas envolver o globo

Sufocando o velho e o oprimido,

O frágil

Bebê em seu berço,

Orquídea pálida

Suspensa em seu jardim suspenso no ar,

Leopardo diabólico!

A radiação o embarque

E o mata em uma hora.

 

Engordurando os corpos dos adúlteros

Como as cinzas de Hiroshima que os devora.

O pecado. O pecado.

Meu bem, passei a noite

Me virando, indo e vindo, indo e vindo,

Os lençóis me oprimindo como o beijo de um devasso.

Três dias. Três noites.

 

Limonada, canja

Aguarda, água me deixe enjoada.

Sou pura demais pra você ou pra qualquer um.

Seu corpo

Me ofende como o mundo ofende Deus. Sou uma lanterna ?

Minha cabeça uma lua

De papel japonês, minha pele folheada a ouro

Infinitamente delicada e infinitamente cara.

 

Meu calor não te assusta. Nem minha luz.

Sou uma camélia imensa

Que oscila e jorra e brilha, gozo a gozo.

Acho que estou chegando,

Acho que posso levantar ?

 

Contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu

Sou uma virgem pura

De acetileno

Cercada de rosas,

De beijos, de querubins,

Ou do que sejam essas coisas róseas.

 

Não você, nem ele,

Não ele, nem ele

(Eu me dissolvo toda, anágua de puta velha) ?

 

Ao Paraíso.

 

 

Sylvia Plath

Quem ama inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama…
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava…
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições…
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho…
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado… e ter vivido o sonho!

Mario Quintana

Femina

Não lavei os seios

pois tinham o calor

da tua mão.

Não lavei as mãos

pois tinham os sons

do teu corpo.

 

Não lavei o corpo

pois tinha os rastros

dos teus gestos;

tinha também, o meu corpo

a sagrada profanação

do teu olhar

que não lavei.

 

Nem aqueles lençóis,

não os lavei,

nem os espelhos

que continuam

onde sempre estiveram:

 

porque eles nos viram

cúmplices, e a paixão,

no paraíso,

parece que era.

 

Lavei, sim,

lavei e perfumei

a alma, em jasmim,

que é tua, só tua,

para te esperar

como se nunca tivesses ido

a nenhum lugar:

 

donde apaguei

todas as ausências

que apaguei

ao teu olhar.

 

 

Soares Feitosa

Subversiva

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça.
E promete incendiar o país.

Ferreira Gullar

Menina e moça

Está naquela idade inquieta e duvidosa,

Que não é dia claro e é já o alvorecer;

Entreaberto botão, entrefechada rosa,

Um pouco de menina e um pouco de mulher.

 

Às vezes recatada, outras estouvadinha,

Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;

Tem cousas de criança e modos de mocinha,

Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,

De cansaço talvez, talvez de comoção.

 

Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,

Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,

Olha furtivamente o primo que sorri;

E se corre parece, à brisa enamorada,

Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.

 

Quando a sala atravessa, é raro que não lance

Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar

Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance

Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,

A cama da boneca ao pé do toucador;

 

Quando sonha, repete, em santa companhia,

Os livros do colégio e o nome de um doutor.

Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;

E quando entra num baile, é já dama do tom;

Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;

Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

 

Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo

Para ela é o estudo, excetuando-se talvez

A lição de sintaxe em que combina o verbo

To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,

Parece acompanhar uma etérea visão;

 

Quantas cruzando ao seio o delicado braço

Comprime as pulsações do inquieto coração!

Ah! se nesse momento, alucinado, fores

Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,

Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,

Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

 

É que esta criatura, adorável, divina,

Nem se pode explicar, nem se pode entender:

Procura-se a mulher e encontra-se a menina,

Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!

 

 

Machado de Assis

O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

Moral abreviada

Uma nuca de loura e de graça inclinada,

Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,

Com medalhões escuros na mama afogueada,

Esse busto se assenta em baixas almofadas

Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,

Uma mulher se ajoelha – ocupada com quê?

 

Amor o sabe – expondo aos deuses a epopéia

Singela de seu cu magnífico, um espelho

Límpido da beleza, que ali quer se ver

Pra crer. Cu feminino, que vence o viril

Serenamente – o de efebo e o infantil.

Ao cu feminino, supremo, culto e glória!

 

 

Paul Verlaine

Quarenta anos

A vida é para mim, esté se vendo,

Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar…Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado…Horrendo

Seria agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!…Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.

Mário de Andrade

Sonho

Um poema em que não se notasse nem a suspeita ênfase da simplicidade e que, ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Mario Quintana

O anel de vidro

Aquele pequenino anel que tu me deste,
Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou,
Aquele pequenino anel que tu me deste,
Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste…

Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…

Manuel Bandeira

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces ? – me perguntarão.
– Por não Ter palavras, por não ter imagem.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras ?
Tudo.
Que desejas ?
Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.

Voou meu amor, minha imaginação …
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão !
Estandarte triste de uma estranha guerra … )

Quero solidão.

Cecília Meireles 

Para atravessar contigo o deserto do mundo

 

Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.

Sophia de Mello B. Andresen

Amei tanto

Nunca fui covarde
Mas agora é tarde
Amei tanto

Que agora nem sei mais chorar
Vivi te buscando
Vivi te encontrando
Vivi te perdendo

Ah, coração, infeliz até quando?
Para ser feliz
Tu vais morrer de dor
Amei tanto

Que agora nem sei mais chorar
Nunca fui covarde
Mas agora é tarde

É tarde demais enfim
A solidão é o fim de quem ama
A chama se esvai, a noite cai em mim

Vinicius de Moraes

Canção cruel

 

Corpo de ânsia.

Eu sonhei que te prostava,

E te enleava

Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,

Eu sonhei que em vós bebia

Melancolia

De há séculos!

Boca sôfrega,

Rosa brava

Eu sonhei que te esfolhava

Petala a pétala!

Seios rígidos,

Eu sonhei que vos mordia

Até que sentia

Vómitos!

Ventre de mármore,

Eu sonhei que te sugava,

E esgotava

Como a um cálice!

Pernas de estátua,

Eu sonhei que vos abria,

Na fantasia,

Como pórticos!

Pés de sílfide,

Eu sonhei que vos queimava

Na lava

Destas mãos ávidas!

Corpo de ânsia,

Flor de volúpia sem lei!

Não te apagues, sonho! mata-me

Como eu sonhei.

 

Jorge de Sena

Poesia XX

Teu nome é Nada.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem:
Diante do eterno, nada.

Morte, teu nome.
Um quase chegar perto.
Um pouco mais (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto.

Um pouco mais, tu
O terias visto.
Teu nome é Nada.
Haste, pata. Sem ponta, sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.

Hilda Hilst

Uma mulher espera por mim

Uma mulher espera por mim, ela tudo contém, nada falta,

No entanto, tudo ficou faltando se o sexo faltou, ou se o orvalho do varão certo estivesse faltando.

O sexo contém tudo, corpos, almas,

Significados, experiências, purezas, delicadezas, resultados, promulgações,

Canções, mandamentos, saúde, orgulho, o mistério da maternidade, o leite seminal,

Todas as esperanças, benefícios, doações, todas as paixões, amores, belezas, deleites da terra,

Todos os governos, juízes, deuses seguiram pessoas da terra,

Estes estão contidos no sexo como partes de si mesmo e justificativas de si mesmo.

Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura a delícia do seu sexo,

Sem pejo a mulher de quem eu gosto conhece e assegura as suas.

Agora vou dispensar-me de mulheres frias,

Vou ficar com ela que espera por mim e com aquelas mulheres que são apaixonadas e me satisfazem,

Vejo que me compreendem e não me negam,

Vejo que são dignas de mim, serei o marido vigoroso de tais mulheres.

Elas não são em nada menos do que eu,

Têm a face curtida por sóis luzentes e o sopro dos ventos,

A sua carne possui a velha divina maleabilidade e energia,

Sabem como nadar, remar, cavalgar, lutar, atirar, correr, golpear, recuar, avançar, resistir, defenderem-se,

São irrevogáveis quanto a seus direitos – são calmas, claras, seguras de si próprias.

Trago-as para perto de mim, vocês mulheres,

Não posso deixá-las ir, faria bem a vocês,

Estou para vocês e vocês estão para mim, não apenas para o nosso bem, mas para o bem de outros,

Envoltos em vocês adormecem os maiores heróis e bardos,

Recusam-se a despertar ao toque de qualquer homem, a não ser eu.

Sou eu, mulheres, faço meu caminho,

Sou duro, amargo, grande, indissuadível, mas amo-as,

Eu não as faço sofrer além do necessário para vocês,

Eu verto a substância para encetar filhos e filhas aptos para estes EUA, pressiono com o músculo rude e lento,

Eu me abraço efetivamente, não escuto súplicas,

Não ouso me afastar até que deposite o que, há muito, estava acumulado dentro de mim.

Através de vocês faço escoar os reprimidos rios de mim mesmo,

Em vocês contenho mil lágrimas progressivas,

Sobre vocês eu enxerto os enxertos do mais amado de mim e da América,

Os pingos que destilo sobre vocês farão crescer moças impetuosas e atléticas, novos artistas, músicos e cantores,

As crianças que eu gerar sobre vocês hão de gerar crianças por sua vez,

Hei de exigir homens e mulheres perfeitos do meu consumir amoroso,

Espero que eles se interpenetrem com outros, como eu e vocês nos interpenetramos agora,

Vou contar os frutos das ejeções abundantes deles, assim como conto os frutos das ejeções abundantes que eu agora dou,

Vou aguardar as colheitas de amor, desde o nascimento, vida, morte, imortalidade, do que planto tão amorosamente agora.

 

Walt Whitman

Último soneto

Que rosas fugitivas foste ali:

Requeriam-te os tapetes ? e vieste…

Se me dói hoje o bem que me fizeste,

É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi

Quando entraste, nas tardes que apareceste ?

Como fui de percal quando me deste

Tua boca a beijar, que remordi…

Pensei que fosse o meu o teu cansaço ?

Que seria entre nós um longo abraço

O tédio que, tão esbelta, te curvava…

E fugiste… Que importa ? Se deixaste

A lembrança violeta que animaste

Onde a minha saudade a Cor se trava?…

 

Mário de Sá-Carneiro

Beijo maldito

Da Fantasia nos itinerários
Beijei teu lábio de veneno e insídias…
– Rosa de outono aberta em dois nectários,
– Mirra enganosa dos turibulários,
– Vaso de Sévres recendendo a orquídeas.

Beijei teu lábio de veneno e agruras
E o beijo trouxe-me o fatal ressábio
Dos desesperos e das amarguras…
E vou rolando para as sepulturas
E nunca mais hei de beijar teu lábio!

Augusto dos Anjos

Lésbia

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,

planta mortal, carnívora, sangrenta,

da tua carne báquica rebenta

a vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,

ri, ri, risadas de expressão violenta

o Amor, trágico e triste, e passa, lenta,

a morte, o espasmo gélido, aflitivo…

Lésbia nervosa, fascinante e doente,

cruel e demoníaca serpente

das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,

fluem capros aromas e os letargos,

os ópios de um luar tuberculose…

 

Cruz e Souza

Harmonia Velha

O teu beijo resume

Todas as sensações dos meus sentidos

A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume

Dos teus lábios acesos e estendidos

Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador

Que, na lira sensual de cinco cordas,

Tange a canção do amor!

E o tato mais vibrante,

O sabor mais sutil, a cor mais louca,

O perfume mais doido, o som mais provocante

Moram na flor triunfal da tua boca!

Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;

Flor de alma, que é também

Um acorde em minha lira,

Que é meu mal e é meu bem…

Se uma emoção estranha

o gosto de uma fruta, a luz de um poente –

chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha

qualquer sentido meu, é a ti somente

que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo…

E acabo de pensar

Que qualquer emoção vem de teu beijo

Que anda disperso no ar…

Guilherme de Almeida

Soneto das metamorfoses

Carolina, a cansada, fez-se espera.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada, que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas,
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.

Carlos Pena Filho

Cântico

Num impudor de estátua ou de vencida,

coxas abertas, sem defesa… nua

ante a minha vigília, a noite, e a lua,

ela, agora, descansa, adormecida.

 

Dos seus mamilos roxo-azuis, em ferida,

meu olhar desce aonde o sexo estua.

Choro… e porquê? Meu sonho, irreal, flutua

sobre funduras e confins da vida.

 

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos…

enquanto o luar a numba, inerte, gasta

da ternura feroz do meu amplexo.

 

Cantam-me as veias poemas nunca feitos…

e eu pouso a boca, religiosa e casta,

sobre a flor esmagada do seu sexo.

 

José Régio

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora

e tremem no de abrir-se a dentes línguas

tão penetrantes quanto línguas podem.

Mas beijo é mais. É boca aberta hiante

para de encher-se ao que se mova nela.

E dentes se apertando delicados.

É língua que na boca se agitando

irá de um corpo inteiro descobrir o gosto

e sobretudo o que se oculta em sombras

e nos recantos em cabelos vive.

É beijo tudo o que de lábios seja

quanto de lábios se deseja.

 

Jorge de Sena